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domingo, 6 de maio de 2012

"Hamlet", William Shakespeare

Uma vez mais, trago para este blog um humilde comentário sobre uma obra-prima do maior dramaturgo da literatura universal. William Shakespeare, que escrevia suas peças para um pequeno teatro de repertório, no final do século XVI e início do XVII, tem, mais de 400 anos depois, suas histórias como base para excelentes adaptações. A sua produção engrandeceu o teatro, trazendo ao palco as personagens mais intrigantes, dentre as quais figura o sujeito de nossos comentários. 
Segundo estudiosos, é em 1600 que nosso autor atinge a maturidade literária, com a peça "Hamlet", diferentemente da obra anteriormente aqui postada "A Megera Domada", que pertence a primeira fase de seus escritos. Esta última, inserida no grupo de comédia de costumes, difere da primeira, que, rodeada por uma natureza histórica, apresenta, em sua essência, a natureza humana e suas contradições.

Na realidade, o mito de Hamlet é antiquíssimo na lenda escandinava. No século XII, surge o primeiro registro escrito dessa história, proveniente do dinamarquês Saxo Grammaticus, no livro "História Danica". Entretanto, Shakespeare, pode-se presumir, inspirou sua obra na publicada por François de Belletorest, inserida em seu livro "Histoires Tragiques", de 1576.
Hamlet é a tragédia da dúvida, do desespero solitário de um homem diante da violência do mundo. Por seu caráter profundo e enigmático, estabelecendo contato intenso com o que há de mais obscuro no ser humano, esta peça é, até hoje, a mais estudada e apresentada do poeta inglês.
O rei da Dinamarca falece. Em seu lugar, sobe ao trono seu irmão que, com pouco tempo do trágico acontecimento, casa-se com a rainha. O príncipe, Hamlet, não consegue aceitar que sua mãe tenha-se retirado do luto, desposando um outro marido, mal o cadáver de seu pai esfriara. Não há nada, porém, que deva-se fazer, apesar da grande amargura do príncipe e da falta de honra e dignidade do casal, que apressadamente desrespeitou a memória do rei, dentro de uma relação considerada incestuosa no período.
Em uma certa noite de vigília, os guardas noturnos do reino começam a ver o espectro do pai de Hamlet e, apesar de quase não acreditarem em seus olhos, alertam o príncipe. Este tenta comunicar-se com o espectro que, de fato, aparenta ser seu pai e acaba por descobrir uma informação importantíssima: Cláudio havia envenenado o rei da Dinamarca e seduzido sua esposa, adquirindo, assim, tudo que pertencia ao seu irmão - o trono e a rainha.
A indignação de Hamlet não poderia ser colocada em palavras. A dúvida paira sobre a cabeça do personagem. O que, afinal, deveria ser feito? O desejo de vingança é grande, mas não lhe parece correto. Ele passa, então, a agir de uma maneira que os cortesões, o rei e a rainha consideram insanidade. Aproveitando-se disso, o príncipe ganha tempo para tramar a melhor forma de desmascarar o rei.
Enquanto isso, um projeto de romance é colocado para o leitor: Hamlet é apaixonado por Ofélia, filha de Polônio, um lorde camarista que é o principal conselheiro do rei.
Pois bem, após muitas reviravoltas, onde o rei, desconfiado de seu sobrinho, tenta descobrir o que se passa na cabeça dele, Hamlet tem uma conversa com sua mãe e consegue abrir os olhos dela para a falta de caráter do rei, bem como a péssima atitude que ela havia tomado. Esta conversa, porém, tinha sido escutada por Polônio atrás das cortinas (coisa muito típica e quase um clichê de dramas envolvendo traições). O princípe, contudo, detecta algo errado no ambiente e acaba por dar um golpe de espada na cortina, assassinando o pai de sua amada.
Ofélia enlouquece e é "vítima" de uma morte misteriosa, que nos dá um diálogo muito interessante entre os coveiros que cavavam sua sepultura:


"PRIMEIRO COVEIRO - E é correto que em terra santa seja sepultada a moça que voluntariamente conspira contra a própria salvação?
SEGUNDO COVEIRO - Posso te dizer que sim. Portanto cave logo a sepultura que irá recebê-la. O comissário já examinou o caso e decidiu que o enterro deve ser cristão.
PRIMEIRO COVEIRO - Como pode ser isso? A menos que ela tenha se afogado em defesa própria!
SEGUNDO COVEIRO - Foi mais ou menos isso que acharam.
PRIMEIRO COVEIRO - Deve ter sido se defendendo. Não pode ter sido de outra maneira! Porque aqui está o ponto: se eu me afogar intencionalmente, isto denota um ato, e um ato tem três partes que são: agir, fazer e executar. Então, ela se afogou intencionalmente.
SEGUNDO COVEIRO - Mas escuta, camarada...
PRIMEIRO COVEIRO - Com licença! Aqui está a água; bom, e aqui está o homem; bem. Se o homem vai em direção desta água e se afoga, queira ou não, é caso que vai. Preste bem atenção. Mas se a água vai até ele e o afoga, ele não se afoga a si mesmo. Portanto, aquele que não é culpado da própria morte, não abrevia a própria vida.
SEGUNDO COVEIRO - Mas a lei é assim?
PRIMEIRO COVEIRO - Exatamente! Lei baseada na informação do comissário.
SEGUNDO COVEIRO - Só sei de uma coisa, se essa não fosse uma dama da nobreza, não seria sepultada como cristã.
PRIMEIRO COVEIRO - Isso mesmo! E o mais triste disso é que os grandes têm mais facilidades neste mundo para se afogar ou se enforcar.[...] Enquanto eles se julgam eternos nós é que construímos as cidades mais duradouras. Sabe por quê?
SEGUNDO COVEIRO - Realmente, juro que não sei!
PRIMEIRO COVEIRO - Não atormente mais sua cabeça oca com isso. A idéia é que o coveiro constrói casas que duram até o dia do Juízo Final. (Pausa) Agora vá buscar um tanto d'água que tenho de terminar isso ainda hoje!"

Com tantas tragédias em sua família, ocasionadas, ainda que não de todo intencionalmente, por Hamlet, o irmão de Ofélia, Laertes, resolve vingar-se. Alia-se, portanto, ao rei. 
O clímax do livro ocorre com a utilização de um artifício interessante e original: o teatro dentro do teatro. Aproveitando-se da capacidade que a dramaturgia tem de penetrar no íntimo do ser humano, fazendo-o refletir e demonstrar as mais diversas reações, Hamlet propõe a um grupo de atores (que seria a representação do grupo de teatro de Shakespeare) que apresente uma peça que contaria a mesma história de traição, corrupção, incesto e imoralidade de sua vida real. De fato, a representação afeta o rei, que retira-se do recinto, desmascarando-se, com esta atitude, aos olhos de Hamlet.
Finalmente, o rei trama uma luta entre Laertes e Hamlet. Para garantir a morte deste último, o florete de Laertes é envenenado, bem como um copo de vinho, servido a Hamlet entre os jogos. Mas o tiro sai pela culatra quando a rainha, Gertrudes, bebe o vinho que seria de seu filho. A seguir Laertes fere Hamlet e, após troca de floretes, Hamlet fere Laertes. No ímpeto deste momento, a rainha morre e o príncipe, percebendo a traição, usa suas últimas gotas de ânimo para ferir o rei antes de morrer.
O forte caráter de Cláudio, o rei da Dinamarca e vilão de nossa história, torna-se um traço de valor e cede à trama uma complexidade que não poderia ser alcançada com a simples representação da luta contra o bem e o mal. Aspectos extremamente frequentes nas obras de Shakespeare, como as aparências que enganam e o predomínio das paixões sobre a razão, embalam com fervor a história de Hamlet.
Devido à vívida dramatização da melancolia e da insanidade na peça, suas personagens foram encaradas, durante muito tempo, como obscuras, misteriosas e, até mesmo, místicas. A confusão de um homem em meio a um ambiente de loucura real e loucura fingida, com emoções que partem do sofrimento opressivo até a raiva fervorosa, torna a obra ainda mais intrigante estudiosos e psicanalistas, fazendo-a interpretada e debatida através de diversas perspectivas. 
Críticos psicanalíticos, mais recentemente, tentam examinar a mente inconsciente de Hamlet, enquanto críticos feministas reavaliam e reabilitam o caráter de personagens como Ofélia e Gertrudes.
A hesitação de Hamlet ao matar seu tio, por exemplo, é um aspecto ainda misterioso para muitos. Alguns encaram o ato como uma técnica de prolongação do enredo, mas outros o vêem como resultado da pressão exercida pelas complexas questões éticas e filosóficas que cercam o assassinato a sangue-frio, resultado de uma vingança calculada e um desejo frustrado. Freud interpretou esta situação como uma espécie de complexo de Édipo.
Nosso protagonista possui também um caráter filosófico, expondo idéias agora conhecidas como relativistas, existencialistas e céticas. Uma forte exemplificação deste relativismo é expresso em seu diálogo com Rosencrantz, na seguinte frase: "[...] nada é bom ou mau, a não ser por força do pensamento." A reflexão de que nada é mau, exceto na mente do indivíduo, encontra raízes nos gregos sofistas, crentes de que, uma vez que nada pode ser percebido, exceto através dos sentidos - e uma vez que todas as pessoas percebem as coisas diferentemente entre si - não há verdade absoluta, apenas a verdade relativa sobre as coisas (e eu não poderia ser mais de acordo com essa idéia).
O exemplo mais claro do existencialismo, contudo, está no célebre e famoso monólogo da tragédia:
"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre em nossos espírito sofrer pedras e setas com que a fortuna, enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e, em ula, pôr-lhes fim? Morrer... dormir: não mais. Dizer que rematamos com um sono a angústia e as mil pelejas  naturais - herança do homem: morrer para dormir... é uma consumação que bem merece e desejamos com fervor [...]" 
Os críticos acreditam que Hamlet usa "ser" para aludir à vida e à ação, e "não ser" aludindo à morte e a inércia.
Não me permito adentrar em divagações e reflexões, utilizando-me de minha pobre (diante de tanta riqueza literária) capacidade de interpretação. Ficarei, portanto, com o resto de minhas análises, dando aos leitores deste blog que se interessarem (e, se me permitem afirmar, não tem como não criar curiosidade pelos mistérios psicanalíticos de tal trama) a possibilidade de criarem suas próprias interpretações, que podem ser as mais diversas e apreciar a obra, desde seu conteúdo mais simples à sua mais extremada concepção.


Video-curiosidades:

Criada com o intuito de ser apresentado em palcos, a obra, obviamente, foi apresentada milhares de vezes, através das mais diversas perspectivas e atuações.

Em 1948, uma adaptação cinematográfica dirigida e protagonizada por Laurence Olivier estreou nos cinemas.
Em 1990, o filme dirigido por Franco Zefirelli é lançado, estrelando Mel Gibson e Glenn Close.
Em 1996, com Keneth Branagh como Hamlet, outra adaptação surge nos cinemas.

Vários atores brasileiros renomados, como Edson Celulari, Diogo Vilela e Wagner Moura encenaram Hamlet no teatro, merecendo ovações por suas brilhantes atuações. De fato, trazer uma trama tão rica e misteriosa para o teatro brasileiro, e, como ator, ter a audácia de interpretar um personagem tão perturbado e intrigante é, de fato, digno de não somente aplausos, mas principalmente agradecimento.


Indico este link de uma reflexão de Leandro Karnal em cima da peça: https://www.google.fr/search?q=%09Hamlet+e+o+Mundo+como+Palco&ie=utf-8&oe=utf-8&gws_rd=cr&ei=WdQyV-6lDMa4ad_dqtAC

quinta-feira, 19 de abril de 2012

"Contos dos Irmãos Grimm", Dra. Clarissa Pinkola Estés

Era uma vez uma linda menininha de lábios vermelhos como sangue e pele branca como a neve. Ou, salvo engano, talvez fossem dois irmãos, um menino e uma menina, que, perdidos na floresta, encontraram uma linda casinha feita de doces e guloseimas. Uma menina do chapéu vermelho que saíra para entregar doces à sua vovozinha...
Essas pequenas histórias que fazem brilhar os olhos e fascinar o coração dos pequenos, ao passo que trazem reflexão e ânimo para a alma dos "já não tão pequenos", são os encantadores contos de fadas.
A publicação do livro "Tales of the Brothers Grimm" data de 1999, mas a rica coleção de contos, cuidadosamente selecionada pela Dra. Clarissa Pinkola Estés possui uma tradição de séculos e pode ser considerada como um patrimônio da cultura mundial.
Os irmãos Grimm não são os contadores de tradição oral, ou seja, que transmitem a história através da fala. Nos períodos onde era esta a maneira de contar histórias que vigorava, podemos afirmar que a infinidade de contos que havia talvez não fosse capaz de se condensar para caber em livros. Aos poucos, muitas histórias foram esquecidas e acredito, inclusive, que muitas foram desprezadas. Também não é pequena a quantidade de pessoas que resolveu colocá-las na forma escrita. Exopo tem crédito por algumas fábulas com grandes ensinamentos para crianças e adultos. Há também os "autores" de contos roubados - e assim os defino pelo fato de que, apesar de tê-los enriquecido e abrilhantado, não podemos dar o mérito completo das histórias a esses ilustres "escrivães" -, como os irmãos Grimm, dos quais tratamos aqui, que tem seus contos, até hoje, como base para inúmeras outras histórias e adaptações de ordem secundária (ou terciária, ou quaternária).
Não. Contos de fadas não são "coisas de criança". Muito pelo contrário. Eles são capazes de modificar a vida e o espírito de todas as pessoas que os lêem. Uma coisa muito marcante desta específica coleção é o prefácio da sábia autora, que consegue abrir nossos olhos para as pequenas e, no entanto, extremamente grandes lições de vida que provêm das histórias que embalaram nossa infância, mas que para alguns, ou muitos, de nós teve seu aprendizado despercebido, quando o que nos interessava era a aventura e as emoções.
"Embora os contos de fadas terminem logo depois da décima página, o mesmo não acontece com a nossa vida. Somos coleções com vários volumes. Em nossa vida, ainda que um episódio possa terminar mal, sempre há outro à nossa espera e, depois desse, mais outro. Sempre há novas oportunidades para consertar o estrago, para moldar nossa vida da forma que emocionalmente merecemos. Não perca tempo odiando o insucesso. O insucesso é um mestre melhor do que o sucesso. Escute. Aprenda. Continue. Essa é a essência de todo conto. Quando prestamos atenção à essas mensagens do passado, aprendemos que há padrões desastrosos, mas também aprendemos a prosseguir com a energia de quem percebe armadilhas, jaulas e iscas antes de nos depararmos com elas ou de sermos nelas ou por elas capturados."
É com essas palavras que Clarissa introduz a magia dos contos de fadas: essas pequenas histórias que evocam idéias infinitamente sábias que durante séculos se recusaram a se deixar mutilar.
"Quer entendamos um conto de fadas cultural, cognitiva ou espiritualmente - ou de outras maneiras, como quero crer -, resta uma certeza: eles sobreviveram à agressão e opressão políticas, à ascensão e queda de civilizações, aos massacres de gerações e a vastas migrações por terra e mar. Sobreviveram a argumentos, ampliações e fragmentações. Essas jóias multifacetadas têm realmente a dureza de um diamante, e talvez nisso resida o seu maior mistério e milagre."
 
Mas, finalmente, o que será que concedeu aos contos esse aspecto de resistência a eras, lugares e acima de tudo, pontos de vista? Os contos tem a mesma atemporalidade dos sentimentos grandes e profundos nele gravados, capazes de afetar até as almas que parecem inatingíveis.
Incitam emoções e aprendizados profundos, registrados em um lugar longínquo do nosso ser, que são por nós conhecidos, mas que parecem saídos de uma outra vida, sendo magicamente evocados quando mais parecia que ficariam intocados no nosso subconsciente. Muitos contos trazem, subliminarmente ou diretamente, uma moral ou ensinamento - é o caso, por exemplo, das fábulas de Exopo. Outros, porém, dependendo do período e da situação histórica em que foram escritos, apresentam conceitos lastimáveis: preconceito e degradação do homem (muitos dos contos dos irmãos Grimm, por exemplo. Nenhum deles, no entanto, figura nesta coleção). Em todo caso, os contos atualmente difundidos são aqueles repletos de louvor por sua maneira mágica e interessante de nos indicar a maneira certa de agir, respeitando a si mesmo e ao próximo.
O ensinamento de valores como a indulgência, a compaixão, a justiça, a temperança, a prudência e, até mesmo, os limites é uma das diversas características dessas narrativas fantásticas. E, se a princípio, as crianças são o principal alvo das morais das histórias, são os adultos os que mais precisam conhecê-las ou relembrá-las. É por isso que os contos, de uma maneira geral, e esta excelente seleção, em específico, são tão notáveis e especiais, indicados para todas as idades, nações e eras, sem restrição.




Vídeo-curiosidades:

Mais uma vez, até por sua longevidade, é inumerável a quantidade de adaptações no teatro, no cinema e na televisão da magia dos contos. Apontarei, no entanto, alguns de meus preferidos.

A primeira indicação, com algumas concessões, como já era de se esperar da minha parte são os desenhos da Disney. Obviamente, apenas alguns são baseados em contos e não necessariamente da mesma forma que foi escrita pelos Irmãos Grimm. Até porque, se a base eram os contos deles, há uma deturpação gigantesca na maneira de contar a história. No entanto, muitas das famosas histórias ganharam vida no coração das crianças (e no meu) através da interpretação de Walt Disney, como é o caso de "Branca de Neve e os sete anões"(o primeiro longa metragem da produtora) e "Cinderella"(cujo título original seria "A Gata Borralheira", como já era de se esperar). "A Princesa e o sapo" foi, recentemente, lançada, mas eu confesso que não tenho as melhores opiniões sobre o filme, que apresenta conceitos distorcidos e, na minha concepção, é bastante assustador para crianças. Mas, buscando nos clássicos, o que se encontra é muita beleza e finais felizes.
Há algum tempo atrás, uma sequência de filmes baseada nos Irmãos Grimm foi lançada, sendo o mais famoso deles "Branca de Neve e os sete anões", que é realmente um filme muito interessante (o qual eu assisti mil vezes quando criança e algumas depois de grande). Confesso que não me lembro muito bem dos outros, mas acredito que devem também ser de qualidade. A produtora chamava-se "Cannon Movie Tales".
Em 2005, estrelando Matt Damon, foi lançado um filme extremamente interessante chamado "Os Irmãos Grimm", que, ao passo que relatava (meio que mentirosamente) como os autores "criaram" as histórias, misturava suas criações à vida real, tornando tudo uma coisa meio mágica, meio sinistra, meio maluca, mas bem divertida.
Recentemente, a ABC lançou uma série chamada "Once Upon a Time", que entrelaça os contos dos irmãos Grimm e, de alguma maneira, os traz para a vida real. Não é uma série infantil, tampouco banal. Até agora, está muito interessante.
Finalmente, dirigido por Tarsem Sign e estrelando Julia Roberts como a rainha má, foi lançado, neste ano, o filme "Espelho, espelho meu" (Mirror, mirror), o qual eu ainda não tive a oportunidade de assistir, mas farei isso logo, logo, pois meu encanto por essas histórias não me permite esperar muito.

Também, ainda este ano, com Charlize Theron e Kristen Stwart (da qual eu tenho um péssimo conceito muito bem fundamentado), será lançado "Snow white and the Huntsman". O produtos é o mesmo de "Alice no país das maravilhas". Apesar de não preferir a atriz que representa esta nova Branca de Neve, acredito que o filme será bom. Também ainda a ser visto.

domingo, 4 de março de 2012

"Peter Pan", J. M. Barrie

O livro que trago para a pauta deste mês não é medíocre e tampouco novidade: é a história imortal, escrita por J. W. Barrie em 1911, de Peter Pan, o menino que não queria crescer. Peter Pan surgiu pela primeira vez no livro "The Little Bird" (O passarinho), mas suas histórias sobre este garoto cheio de mistérios foram aprimoradas para divertir os filhos do casal de amigos de Barrie, Arthur Davies e Sylvia, que faleceram, deixando o nosso autor como tutor de seus filhos. Antes de se tornar livro, "Peter Pan" foi executado como peça no Natal de 1904. Devido ao grande sucesso, tornou-se um evento anual e natalino produzido durante 60 anos.
A partir do momento em que Peter Pan e sua irritante amiga fada Tinker Bell (ou, aqui para nós, Sininho) entram voando pela janela do quarto das crianças, a história lança um feitiço mágico na vida das crianças e também nas nossas.
Os três filhos de Mr. e Mrs. Darling, John, Michael e Wendy, vivem uma vida comum, de crianças comuns, com brincadeiras e hábitos comuns. A única coisa um pouco esquisita, mas que a família Darling não parece notar, é o fato de que a babá dos meninos é um cachorro chamado Nana. Mas pelo que eu vi, posso garantir que ela é muito mais inteligente que tantas outras babás que vemos por aí. É divertido entrar na cabeça de Nana e entendê-la como um ser pensante, inteligente e preocupado com o bem estar das crianças. Imaginá-la fazendo essas coisas tão naturais para babás, como trocar as fraudas e colocar todos para dormir, parece irônico para um adulto, mas talvez para uma criança cheia de imaginação seja simplesmente normal.
Ainda que um livro escrito para um público específico, o autor consegue expor, sem adentrar nas profundezas do ridículo caráter humano, como deixamos de viver nossas vidas, preocupados com o que os outros estão pensando. Na verdade, Mr. Darling não tinha capital para bancar uma babá, mas, como todos em sua rua possuíam uma e olhavam feio a cada vez que ele passava, porque seus filhos não tinham babá, ele arranjou Nana, adaptando-se assim à vida dos outros moradores.
É nesse ambiente que nosso Peter adentra, mudando todas as regras do jogo. As crianças são levadas à Terra do Nunca (sim, aquela mesma para a qual você e eu sempre sonhamos ser levados), onde eles conhecem os garotos perdidos, assistem às brincadeiras das sereias na Lagoa Azul e encontram o Capitão Gancho e seu bando perverso de piratas. Aqui nos deparamos com as aventuras e intrigas com que todas as crianças sonham nos mais diversos níveis: lutas, beleza, lugares e seres misteriosos, romance, a luta contra o bem e o mal e o aconchego do lar.
Todos os acontecimentos passam pelo nosso coração e não somos somente expectadores. Com a iminente possibilidade de morte de Sininho, por mais azucrinante que ela possa ser, nos vemos, sem querer, dizendo em alta voz: "Eu acredito em fadas", porque, mesmo que adultos não tenham o poder de salvar esses pequenos seres mágicos e apaixonantes, é a criança dentro de nós que grita para ter a liberdade e o direito de acreditar. Talvez seja isso, mais do que tudo, que Peter nos quer ensinar, que mesmo que cresçamos e tenhamos que fazer aquelas coisas chatas que os adultos fazem, como colocar o chapéu, pegar a maleta  e ir para o trabalho, não podemos nos deixar transformar por esse mundo infame e corrupto que é o mundo dos adultos, e sim nunca permitir que morra a criança que há dentro de nós, esse serzinho "alegre, inocente e sem coração" que nos permite ver a beleza nos dias mais comuns.
Enquanto as crianças estão à distância, também algo muda na casa dos Darling. Para Mr. Darling, por exemplo, as aparências agora perdem o valor. O tesouro mais precioso que aqueles pais e aquela babá possuíam desapareceu na imensidão do céu. Os meninos, enquanto isso, seres sem coração, como todas as crianças (e, por favor, não tomem isso errado, porque, se bem analisarmos, Barrie até estar um pouco certo quando as caracteriza assim. Ou será que você quer me dizer que se, quando criança, você tivesse a oportunidade de fugir com Pan para a Terra do Nunca, você não o faria?), quase se esquecem de seus pais. Menos Wendy que, um pouco mais madura, consegue convencer os irmãos e os outros meninos perdidos a retornar para seu lar. Assim é feito. Peter, no entanto, não aceita a proposta e volta para sua Terra do Nunca sozinho, com a promessa somente de que Wendy iria visitá-lo a cada ano para fazer a faxina de primavera. No entanto, a Terra do Nunca parece ter o poder de fazer-nos perder a noção do tempo ou mesmo esquecer de algumas coisas e Peter, como é normal dele mesmo, acaba esquecendo de ir buscar Wendy em algumas primaveras. Assim, o tempo passa e, quando finalmente Peter vem visitá-la,  Sininho já morreu há tanto tempo que foi completamente esquecida pelo garoto, Nana e Mr. e Mrs. Darling já morreram e foram também esquecidos (o que eu acho um pouco de crueldade do autor, mas não sem sentido) pela família e Wendy está adulta, casada e com uma filha, a qual vai fazer a faxina com Peter, coisa que vai, a partir de então, ser passada de geração a geração. É assim que o livro leva as crianças o ciclo da vida: o nascimento e morte são apresentados de maneira banal, comum. O autor, talvez, busca, desta forma, ajudar as crianças órfãs (como aquelas das quais ele era tutor) a superar a perda dos pais.
A obra envolve um mistério em torno das mães, esses seres mágicos e maravilhosos, que apesar de possuir características de deuses altruístas e lindos, só são assim vistos por aqueles que tiveram a oportunidade de ter uma por perto. Para Peter, mães são criaturas cruéis que abandonam seus filhos e sequer lembram-se deles. Os outros meninos perdidos seguem o mesmo pensamento até que Peter traz a eles Wendy, que torna-se uma mãezinha para eles. Wendy os ensina que mães são seres bons e, no final, todos querem ter uma mãe, até Pan. Nosso herói, porém, não dá o braço a torcer e prefere permanecer como sua imagem maléfica das mães, mais por medo que por teimosia, acredito eu. Talvez ele ache que ter uma mãe e perdê-la é melhor que nunca ter tido nenhuma (coisa com a qual não concordo), mas é só minha imaginação.
Conheci Peter através de suas adaptações e, foi depois de crescer que, de fato, li o livro. Não sei dizer qual é o mais mágico, pois este é um comparativo muito injusto: a visão de uma criança e de um adulto. Uma coisa, porém,é certa: essa história toca meu coração em todos os níveis em que se apresente. Se antes acreditei tanto que tive a coragem, mesmo sem o pó mágico, de subir em um balcão e ensaiar um vôo; hoje escuto um "sininho", que chama minha atenção para uma parte de mim que parecia já estar guardada e inacessível. Sim, aqui ainda existe uma criança e, se depender de mim, ela não vai crescer.



Video-curiosidades:

Não é possível, especialmente para mim, listar todas as adaptações dessa história mágicas. A quantidade de peças, filmes e séries em volta do menino que não queria crescer é incontável. Postarei aqui as três adaptações cinematográficas que fizeram minha infância mais feliz.

Para mim, a melhor adaptação (apesar de, como é típico da produtora, mudar uma ou outra coisa) é o filme "Peter Pan" de 1953 produzido pela Disney. Não é a primeira vez que posto um filme desta produtora aqui e, não importam o que digam, esses filmes marcaram minha infância profundamente, estando Peter Pan imensamente incluído, claro, e por isso eu sou super fã da Disney. Pronto, falei.
O segundo no ranking para mim é o filme "Hook- A volta do capitão Gancho", com Robbin Williams. Também muitos não gostam do autor, mas eu garanto que é um filme extremamente tocante.
Em terceiro, mais por causa dos cenários e efeitos especiais, o filme de 2003, dirigido por P. J. Hogan, "Peter Pan", que foi uma adaptação live-action do filme da Disney.
Por último, indico o filme "Em busca da Terra do Nunca" para aqueles que quiserem saber um pouco mais sobre a história de como Barrie criou Peter Pan, embasado na família da qual ele era amigo. Com relação a este filme, devo afirmar que não sei até que ponto a veracidade dos fatos foi respeitada. Vale a pena de qualquer maneira.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"Ensaio sobre a cegueira", José Saramago

Em 1995, o grande escritor português, que ganhou o prêmio Nobel da Literatura em 1998, José de Sousa Saramago, escreveu um livro, o qual o próprio autor definiu da seguinte maneira: "Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." Esta obra intitula-se "Ensaio sobre a cegueira".
Um vírus desconhecido, capaz de cegar o ser humano instantaneamente, insere-se, de repente, na vida da humanidade. As pessoas que adoecem se "vêem" envoltas em uma claridade imensa e infinita, uma cegueira branca. Devido à rápida capacidade de propagação do vírus, os governantes chegam à conclusão de que a melhor maneira de tentar reverter a situação de "calamidade pública" é deixar os cegos e aqueles com suspeita de contaminação de "quarentena", como feito com a cólera e a febre amarela, mas, neste caso, um isolamento por tempo indeterminado. Os cegos 'encarcerados' são alertados de que o governo não irá interferir em nenhum acontecimento do local de reclusão: nem mortes, nem doenças, nem guerras farão com que os seres humanos assustados do lado de fora entrem para ajudar os doentes. A única coisa com que eles se comprometem é a entrega de comida (que, no entanto, é muito mal controlada, pulando refeições e sempre em quantidade não suficiente). Dentre nossos personagens principais, está a única mulher que não ficará "cega dos olhos" (e é importante atentar para esta expressão). Entretanto, o verdadeiro protagonista da obra é a cegueira da humanidade, que não é doença viral, mas, na verdade, psicológica.
Uma pequena parcela dessa humanidade sem escuridão é instalada em um manicômio, onde é criado um novo tipo de sociedade, com novas regras e novas formas de governar. Os cegos "malvados", assim mesmo descritos no livro, tomam o poder a partir do controle da comida e utilizando-se de artifícios de violência e repressão, no caso representados por uma arma de fogo, obviamente temida pelos outros cegos que não tinham como se defender. É a involução da humanidade. Criam-se novas definições de moral e ética, de honra e decência. As pessoas mostram sua essencialidade animalesca diante da busca pela sobrevivência, nos expondo uma realidade que sempre estava ali, dissimulada através de ternos e gravatas, de uma intelectualidade de farsa e de um conhecimento inútil e descartável. O ápice desta mudança brusca de valores se dá com a requisição dos "cegos malvados" de que as mulheres de todas as camaratas fossem servir-lhes o corpo. A seguinte cena, a qual eu acho extremamente interessante, apesar de seu sentido triste e deplorável, resume grande parte da nova estrutura de vida a que aquela sociedade precisa habituar-se, onde coisas que para nós são indecentes e incorretas tornam-se a melhor opção:

"O primeiro cego começara por declarar que mulher sua não se sujeitaria à vergonha de entregar o corpo a desconhecidos em troca do que fosse, que nem ela o quereria nem ele o permitiria, que a dignidade não tem preço, que uma pessoa começa por ceder nas pequenas coisas e acaba por perder todo o sentido da vida. O médico perguntou-lhe então que sentido da vida via ele na situação em que todos ali se encontravam, famintos, cobertos de porcaria até às orelhas, roídos de piolhos, comidos de percevejos, espicaçados de 
pulgas, Também eu não quereria que a minha mulher lá fosse, mas esse meu querer não serve de nada, ela disse que está 
disposta a ir, foi a sua decisão, sei que o meu orgulho de h
omem, isto a que chamamos orgulho de homem, se é que depois 
de tanta humilhação ainda conservamos algo que mereça tal 
nome, sei que vai sofrer, já está a sofrer, não o posso evit
ar, mas é provavelmente o único recurso, se queremos 
viver, Cada qual procede segundo a moral que tem, eu penso 
assim e não tenciono mudar de ideias, retorquiu agressivo o 
primeiro cego. Então a ra
pariga dos óculos escuros disse, Os outros não sabem quantas 
mulheres há aqui, portanto você poderá ficar com a sua para 
seu exclusivo gasto, que nós os alimentaremos, a si e a ela, 
sempre quero ver como se irá sentir de dignidade depois, 
omo lhe vai saber o pão que nós lhe trouxermos, A quest
ão não é essa, começou o primeiro cego a responder, a 
questão é, mas ficou com a frase no ar, na verdade não sa
bia qual era a questão, tudo quanto ele havia dito antes não 
passava de umas quantas opiniões avulsas, nada mais que 
opiniões, pertencentes a outro mundo, não a este, o que ele 
deveria, isso sim, era levantar as mãos ao céu e agradecer a 
sorte de poderem ficar-lhe, por assim dizer, as vergonhas em 
casa, em vez de ter de suportar o vexame de saber-se sus
tentado pelas mulheres dos outros."
É assim que, aos poucos, nossos personagens, guiados pelos instintos, entregam-se à sujeira, à hábitos grosseiros, à selvageria, levando o autor a tomar emprestado o zoomorfismo do naturalismo, demonstrando que os homens podem transformar-se em seres ainda mais selvagens que aqueles que chamamos animais (esquecendo-nos que também o somos) quando se trata de sua sobrevivência. Ao mesmo tempo, Saramago apresenta como as facilidades da nova era tornaram frágil e desamparado o "rei do mundo" quando lhe falta um dos sentidos.
A nossa única personagem que consegue livrar-se da cegueira, de repente, sente-se tão cega quanto os outros. Mas uma cega com olhos, que pode ver todas as atrocidades que acontecem em sua volta, fazendo-a desejar ser igual aos outros, estar na mesma situação de debilidade. E envolta numa cegueira psicológica muito maior que a dos que estão junto a ela, ela assassina o chefe dos "cegos malvados".

"Sim, matei-o eu, Porquê, Alguém teria de o fazer, e não havia mais ninguém, E agora, Agora estamos livres, eles sabem o que os espera se quiserem outra vez servir-se de nós, Vai haver luta, guerra, Os cegos estão sem pre em guerra, sempre estiveram em guerra, Tornarás a matar, Se tiver de ser. dessa cegueira já não me livrarei,"

Com esta passagem, o autor nos atenta para o fato de que o mundo sempre foi cego. De fato, os cegos, sentindo-se atacados, encontram a necessidade de defender-se. No entanto, o nosso mundo faz guerra quando pode resolver as coisas com o diálogo. A cegueira é ainda pior por possuirmos qualidade de vida e, consequentemente, capacidade de raciocínio. Afinal, é na necessidade do mundo do nosso livro que o raciocínio parece ficar bloqueado. Nossa personagem "assassina" considera-se ainda mais cega que os outros, por causa da atitude que tomou. É desta consciência que ela possui que o mundo carece. É através de alusões e metáforas à nossa realidade através de uma história aparentemente absurda que Saramago nos dá pautas de discussões e reflexões.
Um dos aspectos mais interessantes da obra só é perceptível quando o leitor se coloca no lugar dos personagens. A capacidade do autor de criar uma história a princípio fantástica e trazê-la para a realidade do ser humano, imaginando exatamente o que cada um faria nessas situações inesperadas e atrozes é impressionante. Ele nos leva a crer que não existe saída, que as decisões daquelas pessoas, das quais entramos na vida, é a mais correta diante do que elas estão vivenciando. A beleza de tudo isto é imaginar que os valores pregados no nosso mundo são completamente irrelevantes no que diz respeito ao que de fato é essencial na vida do homem. A única coisa ainda louvável diante desses destroços de irrealidade é a solidariedade, a generosidade e o carinho, ainda que seja amargo.
Outro aspecto importante da escrita deste autor sempre imprevisível é a constante aplicação de sua liberdade literária. Como pôde ser visto nos textos precedentes, os dois únicos artifícios de pontuação empregados são o ponto e a vírgula. Ainda assim, com a ausência de interrogações, exclamações, dentre outros, nós podemos compreender as entonações que nossos personagens enfatizam em cada fala, mostrando que a língua portuguesa não precisa ser tão complicada para ser compreendida.
Em todo caso, o objetivo do livro é também abrir nossos olhos para a nossa própria cegueira. A realidade atual fornece uma quantidade de informações imensurável. Com as publicidades na rua e na televisão e o advento da internet muitas coisas irrelevantes e descartáveis são atiradas através dos nossos sentidos no nosso cérebro e, se não sabemos filtrar o que recebemos do mundo, realmente acabamos por cegar. Ainda permito-me tentar inferir o motivo da brancura da cegueira de nossos personagens. Faço isso a partir da alusão às cores do arco-íris: a falta de cor nos leva ao preto, mas a mistura de todas as cores nos traz o branco. Essa cegueira, portanto, não vêm do fato de não conseguirmos enxergar, e sim de uma sobrecarga de visão, sem filtros, sem análise, sem entendimento. Assim, estamos cegos e alienados de tantas coisas importantes da vida, enquanto nossa atenção está voltada a futilidades passageiras e supérfluas.


Video-curiosidades:


Em 2008, foi realizada uma adaptação cinematográfica da obra, que deve sua excelência em transmitir a realidade do livro ao diretor brasileiro Fernando Meirelles. Estrelaram Julianne Moore, Mark Ruffalo e Alice Braga. Com um elenco de peso e um diretor de grande competência, tudo que nosso autor afirmou foi: "estar tão feliz de ter visto o filme como estava quando acabou de escrever o livro" e que "agora conhecia a cara de suas personagens".

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Madame Bovary", Gustave Flaubert


Em 1857, nasce uma obra-prima singular do Realismo francês. Escrito por Gustave Flaubert, "Madame Bovary" expressa a revolução na maneira de pensar do período. Polêmico e escandaloso no tempo em que foi lançado, levou seu autor a julgamento, momento em que ele utilizou a famosa frase “Emma Bovary c’est moi” (“Emma Bovary sou eu).
O início do livro nos apresenta Charles, M. Bovary, um homem pacato e de personalidade estável e passiva. Médico e casado, conhece nossa protagonista, Emma, quando vai tratar de uma doença pela qual pai dela havia sido afetado. Aos poucos, ele vai se apaixonando pela moça e, quando sua esposa morre por infortúnio, ele casa-se com Emma, que passa, então, a ser a nova madame Bovary. No entanto, um sentimento, que torna-se cada dia mais forte com o decorrer do casamento, toma conta de nossa "anti-heroína": a insatisfação. Sua vida e seu marido lhes parecem monótonos e muito distantes dos romances "românticos" que ela costumava ler em sua juventude. Ela desejava algo novo, uma paixão dilacerada e arrebatadora. E, em meio a este desespero trazido pela falta de alegria e dinâmica em sua vida, ela conhece Léon e Rodolpho. Pelo primeiro, um rapaz mais novo, ela apaixona-se e é retribuída, mas ambas ética e moral não lhe permitem dar o passo da traição.

"Léon não sabia, quando saía da casa dela desesperado, que Emma se levantava logo a seguir para o ver na rua. Preocupava-se com o que ele fazia, espiava-lhe o aspecto do rosto, inventou uma história complicada como pretexto para lhe visitar o quarto. [...]

 Mas, quanto mais emma tomava consciência do amor, mais o recalcava, para que não aparecesse e o fazer diminuir. Sentia o desejo de que Léon lhe adivinhasse o sentimento, e imaginava circunstâncias de acaso, catástrofes que pudessem contribuir para isso. O que a detinha era, sem dúvida, a inércia ou o receio, e também o pudor.  Imaginava que o tinha repelido demasiado, que já não havia oportunidade e que tudo estava perdido.  Também o orgulho, a satisfação de poder dizer: "sou virtuosa", e de olhar para o espelho assumindo  poses de resignação, a consolava um pouco pelo sacrifício que acreditava estar fazendo.
Então, os apetites da carne, as cobiças do dinheiro e as melancolias da paixão, tudo se confundia num mesmo sofrimento, e, em vez de procurar afastar daí o pensamento, ainda mais se prendia ao mesmo, excitando-se à dor e procurando para isso todas as ocasiões.  Irritava-se com um prato mal servido ou com uma porta entreaberta, lastimava-se pelo veludo que lhe faltava, pela felicidade que não tinha, por as suas aspirações  serem demasiado elevadas e por a casa ser acanhada de mais.
O que a exasperava é que Charles não dava a impressão de suspeitar do seu suplício. A convicção que ele tinha de a fazer feliz parecia-lhe um insulto imbecil e a segurança que revelava a esse respeito, ingratidão. Por causa de quem se comportava ela tão escrupulosamente? Não era ele o obstáculo a toda a felicidade, o motivo de toda a desgraça, como que o bico da fivela a travar aquela complexa correia que por todos os lados a amarrava?
Então voltou contra ele todo o ódio acumulado pelos seus aborrecimentos e cada esforço que fazia para o reduzir servia apenas para o aumentar, pois esse esforço inútil ia acrescentar-se aos outros motivos de desespero e contribuía ainda para maior afastamento. A sua própria docilidade lhe causava revolta. a mediocridade doméstica incitava-a a fantasias luxuosas; a ternura matrimonial, a desejos adúlteros.
 
Preferiria que Charles lhe batesse, para poder com mais justiça detestá-lo, vingar-se dele. Por vezes assustava-se com as atrozes conjecturas que lhe vinham à ideia; e era necessário continuar a sorrir, escutar as suas próprias repetições de que ele era feliz, fazer de conta que o era, dar a entender isso aos outros!
Enojava-se, entretanto, daquela hipocrisia. Tinha tentações de fugir com Léon para qualquer parte, muito longe, tentar um  destino novo; mas logo se lhe abria na alma um abismo de confusão, cheio de negrume. "Ainda por cima, não me ama", pensava ela; "Qual vai ser o meu futuro? Que ajuda posso esperar, que consolação, que alívio?"

Ainda apaixonada por Léon, Emma conhece Rodolpho que lhe impõe um amor predatório, completamente oposto ao sentimento fascinado que Charles possui por sua esposa. Assim, Rodolpho acaba levando-a ao adultério. Ou, a princípio, é a isso que somos levados a crer, tendo em vista que Emma, por já estar fragilizada e sendo deliberadamente seduzida pelo rapaz, não seria a grande culpada. Madame Bovary, então, tem sua primeira decepção quando decide fugir de seu marido com Rodolpho, levando sua pequena filha Berthe. Ele, porém, recua e lhe escreve uma carta acabando com tudo que havia entre eles. Essa é uma das artimanhas do autor para colocar abaixo os mitos românticos, onde o mocinho e a mocinha estão sempre dispostos a fazerem tudo para ficarem juntos. O romance na vida real não é nem um pouco lírico ou altruísta. Um amor assim, que não beire a monotonia do casamento de Charles e Emma é, acima de tudo, utópico. as nossa protagonista, uma mulher banal, adepta do idealismo romântico, prefere viver em confronto com a realidade, morando dentro de seus próprios sonhos ordinários.
Tempos depois, ela reencontra León e, desta vez, eles consumam sua paixão fulminante. Com o passar do tempo, Emma começa a perceber algo que antes não esperava: todo o fulgor que ela sentia por seu amante vai se desvanecendo e, mais uma vez, temos a confirmação da irrealidade do Romantismo.
No decorrer de tudo isso, madame Bovary vai se afundando em grandes dívidas e, sem ter como pagar, ela comete um suicídio, que é, na realidade, uma ironia: a morte por um motivo tão banal e ridículo.
Ao longo da obra, a denúncia de todas as extensões românticas vai se repetindo. Por exemplo, na cena demasiado conhecida dos leilões agrícolas, o diálogo amoroso entre Emma e Léon é constantemente atrapalhado pelos gritos do júri, que remetem às recompensas. Essa inclusão da trivialidade no drama romântico suscita em um efeito de ironia irresistível.
Madame Bovary pode ser vista como uma esposa entediada que torna-se adúltera ou como uma mulher que teve coragem de ultrapassar os obstáculos que seu tempo impunha à sua liberdade para buscar o direito de ser feliz. Na época em que veio ao conhecimento público, ao passo que foi motivo de grande polêmica, foi uma espécie de heroína para as mulheres que não tinham a coragem, nem o direito de lutar pelo que queriam.
Escrito em um período onde a burguesia estava no poder, o livro tem um aspecto irônico e busca retratar a realidade em razão de opor-se ao período romântico constava na literatura um pouco antes. Um dos personagens ilustra esse fato é o farmacêutico Homais. Ele é o típico burguês em busca de capital e prestígio, que renega qualquer tipo de enlace religioso e coloca-se como defensor da ciência. Por causa dessas ironias, a obra, por vezes, beira o cômico. Pode ser visto, de fato, como uma tragicomédia. Acontecimentos realmente trágicos são colocados de maneira tão ridícula e caricata que tornam-se cômicos. Da mesma maneira, certos momentos que poderiam vir a ser extremamente tristes e dolorosos, são visualizados de modo científico e medicinal: cenas de amputação e morte são retratadas de um âmbito criticamente biológico, apresentado todas as moléstias do momento, como o sangue que escorre, o vômito e as dores de maneira nada eufêmica. Assim, o que poderia vir a ter para nós um caráter de tristeza ou depressão, busca mostrar ao leitor o nojo humano, o aspecto decrépito do homem, o que,, de certa maneira, manifesta a pequenez e fragilidade de um ser que acredita-se mais importante que os outros, através da exposição da realidade crua.



O verdadeiro sentido do Realismo é expor a realidade passivamente, de maneira que o leitor seja capaz de tirar suas próprias conclusões dos acontecimentos, sem terceiras influências, como a do narrador. Por isso, sua narração possui um estilo de precisão documentário, que, até certo ponto, é seguido por Flaubert. Diversas vezes, porém, como já foi dito, ele se utiliza da sátira e da ironia, ambos métodos nada indiferentes, além do discurso indireto livre, que, por si só, induz o pensamento do leitor à concordância com o personagem.
Um fato interessante com relação a “Madame Bovary” que apenas o introduz ainda mais no movimento literário realista é que sua história foi inspirada numa notícia de jornal. Nossa “verdadeira” Emma chamava-se Delphine Delamare e era a esposa de um médico que, após entediar-se de seu casamento, deixa seu marido, antes de suicidar-se, para que também ele não faça o mesmo, tendo em vista que eles tem uma filha pequena para criar (que seria nossa ‘Berthe’).
A obra é recomendável não apenas por sua grande importância neste impressionante movimento literário, como também, em termos de estudo histórico e sociológico. O estilo de escrita do autor é impressionante e as ironias aparentemente despretensiosas, assim como as caricaturas exageradas em momentos inesperados  constroem uma leitura interessante e mesmo divertida, dependendo do gosto do leitor, pois, antes de captarmos o constante sarcasmo de Flaubert, podemos ficar horrorizados com algumas cenas. É, de qualquer modo, uma leitura imperdível.


Video-curiosidades:

Foram diversas as adaptações deste livro para o cinema e a televisão. Dentre as mais conhecidas estão:
Em 1933, Jean Renoir dirige o que seria o primeiro grande filme "Madame Bovary", com Max Dearly e Valentine Tessier.
Em 1949, chega a vez de Jennifer Jones, James Manson e Van Heflin estrelarem o filme de Vicente Minnelli.
Em 1975, uma minissérie é gravada com o mesmo tema, apresentando Francesca Annis, Tom Conti e Gabrielle Lloyd.
O diretor Claude Chabrou retoma a história em 1991, com Isabelle Huppert Jean-François Balmer e Christophe Malavoy encarnando os conhecidos personagens.
Finalmente, em 2000 Tim Fywell dirige um filme, cujos personagens são representados por Frances O'Connor, High Bonneville e Eile Atkins.

A figura de Emma Bovary, no entanto, é indissociável de todas as histórias de esposas adúlteras que surgiram posteriormente, como é o caso de Mrs. Robinson ("A primeira noite de um homem", 1967) e tantas outras que fizeram ou não tanto sucesso.

domingo, 4 de dezembro de 2011

"Meu Pé de Laranja Lima", José Mauro de Vasconcelos

"Meu Pé de Laranja Lima", publicado em 1968 foi escrito por um carioca de família nordestina e pobre, que cresceu na minha amada cidade Natal, no Rio Grande do Norte. O histórico do autor foi imprescindível para o sucesso do livro como exposição realista da vida de uma família simples, na visão de um menino, que perdeu seu direito de ser criança cedo demais.
O livro conta a história de Zezé, um garotinho de apenas cinco anos que morava com sua família em uma casa muito simples próximo à avenida Rio-São Paulo. Seu pai estava desempregado e sua mãe que trabalha desde muito cedo da manhã, chegando em casa bastante tarde, para sustentar Zezé e seus irmãos.
Nosso protagonista era um menino muito esperto e inteligente e, no decorrer da leitura, vamos notando um grande amadurecimento nele, em razão de todos os acontecimentos dolorosos que se passam na sua vida. O grande xodó da vida de Zezé era seu irmãozinho caçula, mas ele também possuía outro irmão e algumas irmãs, todos mais velhos.
Por causa das dificuldades financeiras da família, devidas principalmente ao desemprego do pai do nosso pequeno herói, eles tiveram que se mudar de casa, coisa que não agradou muito Zezé. Ao chegar na nova casa, no entanto, havia muitas árvores grandes e bonitas e ele logo animou-se para ficar com uma para si. Entretanto, cada um de seus irmãos tomou uma árvore como posse e só o que restou para Zezé foi um pequenino pé de laranja-lima. No início, ele ficou muito contrariado com o que lhe foi designado, mas depois ele descobriu que conseguia "falar" com seu pé de laranja-lima, que era a única árvore do mundo capaz de conversar com ele, e assim, ficou extremamente satisfeito. Minguinho era o nome carinhoso pelo qual ele chamava seu pé de laranja lima e era a ele que eram dadas todas as suas confissões, e era ele o procurado nos momentos que Zezé sentia-se sozinho ou injustiçado, ou quando ele havia sofrido algum tipo de violência, física ou psicológica.
Por ser extremamente travesso, a família e os vizinhos de Zezé costumavam dizer que no Natal, em vez de nascer para ele o Menino Deus, nascia o menino diabo. Desta feita e em decorrência não apenas da sua má fama, mas das próprias peças que ele pregava constantemente em todos, ele apanhava muito tanto de familiares, quanto de pessoas de fora. E numa dessas vezes, ele apanhou muito mesmo de um português. Neste dia, ele sentiu um ódio tremendo pelo homem e jurou que, quando crescesse, ia matá-lo. Mas o destino é capaz de fazer-nos ter que engolir coisas que falamos e prometemos na euforia da raiva, pois o camarada destino consegue ser ainda mais danado que o próprio Zezé. Por isso mesmo, em um dia que Zezé ia para a escola com o pé quebrado, o mesmo português lhe ofereceu carona e ele, sem opção, acabou por aceitar. A partir daí, nasceu uma amizade tão linda, tão profunda, que Zezé começou a ficar mais comportado e bonzinho. O tal do português tão antes odiado era o único capaz de ceder ao menino o carinho e amor familiar que ele não encontrava dentro de casa. Assim, em certo ponto, ele pede ao português que o adote e seja seu pai, porque "sua família nem vai se importar, mas sim vai achar muito bom".

Em parte, esta passagem denota o pensamento infantil de Zezé, ainda incapaz de compreender o porquê de tanto desamor em sua família. Sua mãe, que vivia para trabalhar, sem descanso e sem alternativa, para sustentar os filhos, quando chegava em casa, estava sempre exausta e incapaz de um gesto de carinho. Seu pai, sentindo a depressão inerente ao desemprego, era incapaz de dar suporte à sua própria família e, sequer, conseguir que os filhos ganhassem um presente, por mais simples que fosse, no Natal. Nesta situação, para que houvesse alegria e amor na família, tinha também de haver muita força para aguentar tanto sofrimento. Abaixo, uma passagem do livro que realmente nos faz refletir:

"— Totóca. 

— Fale. 

— Será que a gente não vai ganhar nada, nada, de Papai Noel? 

— Acho que não.

— Diga sério, você acha que eu sou tão ruim, tão malvado como todo mundo 
diz? 
— Malvado, malvado, não. O que acontece é que você  tem o diabo no 
sangue. 
— Quando chega o Natal eu queria tanto não ter! Eu gostava tanto que antes 
de morrer, uma vez na vida, nascesse o Menino Jesus em vez do Menino Diabo, pra 

mim. 
— Quem sabe se ano que vem... Por que você não aprende e não faz como 
eu? 
— E como é que você faz? 
— Não espero nada. Assim a gente não fica desapontado. Mesmo o Menino 
Jesus não é essa coisa tão boa que todo mundo fala. Que o padre conta nem que o 

Catecismo diz...  

Fez uma pausa e ficou indeciso se contava o resto do que pensava ou não. 
— E como é então? 
— Bem, vamos dizer que você foi muito levado, não mereceu. Mas Luís? 
— É um anjo. 
— E Glória? 
— Também. 
— E eu? 
— Bem, você às vezes é... é... meio pegador das minhas coisas, mas é muito 
bonzinho. 
— E Lalá? 
— Bate com muita força, mas é boa. Um dia vai costurar minha gravata de 
laço. 
— E Jandira? 
— Jandira é daquele jeito, mas não é ruim. 
— E Mamãe? 
— Mamãe é muito boa; só me bate com pena e devagar.
— E Papai? 
— Ah! Esse eu não sei. Ele nunca tem sorte. Eu acho que ele deve ter sido 
como eu, o ruim da família. 

— Pois então. Todo mundo é bom na família. E por que o Menino Jesus não 
é bom pra gente? Vai na casa do Dr. Faulhaber e veja o tamanho da mesa cheia de 

coisas. Na casa dos Villas-Boas, também. Na casa do Dr. Adaucto Luz, nem se 

fala... 

Pela primeira vez eu vi que Totóca estava quase chorando. 
— Por isso que eu acho que o Menino Jesus só quis nascer pobre para se 
mostrar. Depois Ele viu que só os ricos é que prestavam... Mas não vamos mais 

falar disso. Pode ser até que o que eu falei seja um pecado muito grande.

Ele ficou tão abatido que nem quis mais conversar.  Nem mesmo queria 

levantar os olhos do corpo do cavalo que alisava agora. 
*   *   * 
Foi uma ceia tão triste que nem dava vontade de pensar. Todo mundo comeu 
em silêncio e Papai só provou um pouco de rabanada. Não quisera fazer a barba 

nem nada. Nem foram à Missa do Galo. O pior era que ninguém falava nada com 

ninguém. Parecia mais o velório do Menino Jesus do que o nascimento.  
[...] 
Mamãe foi para o quarto. Garanto que ela estava chorando escondido. E todos estavam com vontade de fazer o mesmo. 

[...] 
O mais triste é que o sino da igreja encheu a noite de vozes felizes. E alguns foguetes se elevaram aos céus, para Deus espiar a alegria dos outros. Quando voltamos para dentro, Glória e Jandira lavavam a louça usada e 
Glória tinha os olhos vermelhos como se tivesse chorado doído. 

Disfarçou e disse para Totóca e eu: 

— Está na hora de criança ir para a cama. 

Ela falava isso e olhava para a gente. Ela sabia que naquele momento não 
havia criança mais ali. Todos eram grandes, grandes e tristes, ceando a mesma 

tristeza aos pedaços. 
[...] 
Quando toda a casa estava às escuras eu perguntei baixinho: 

— Tava boa à rabanada, não estava Totóca? 

— Nem sei. Não provei. 

— Por quê?
— Fiquei com uma coisa entalada no gogó que não passava nada... Vamos 
dormir. O sono faz a gente esquecer tudo. 
Eu me levantara e fazia barulho na cama. 
— Aonde você vai, Zezé? 
— Vou botar meus tênis do lado de fora da porta. 
— Não ponha, não. É melhor. 
— Vou pôr, sim. Quem sabe, se não vai acontecer um milagre. Sabe, Totóca, 
eu queria um presente. Um só. Mas que fosse uma coisa novinha. Só pra mim... 
Ele virou para o outro lado e enfiou a cabeça embaixo do travesseiro. 

*   *   *  
Mal acabei de acordar e chamei Totóca. 

— Vamos ver? Eu digo que tem. 

— Eu não iria ver. 

— Pois eu vou. Abri a porta do quarto e os sapatinhos tênis estavam vazios 
para a minha decepção. Totóca aproximou-se limpando os olhos. 

— Não falei?  
Uma mistura de tudo criou-se na minha alma. Era ódio, revolta e tristeza. 
Sem poder me conter exclamei: 
— Como é ruim a gente ter pai pobre!...  
Desviei meus olhos do tênis para uns tamancos que estavam parados à minha 
frente. Papai estava em pé nos olhando. Seus olhos  estavam enormes de tristeza. 

Parecia que seus olhos tinham crescido tanto, mas crescido tanto que tomavam toda 

a tela do cinema Bangu. Havia uma mágoa dolorida tão forte nos seus olhos que se 
ele quisesse chorar não ia poder. Ficou um minuto que não acabava mais nos 
fitando, depois em silêncio, passou por nós. Estávamos estatelados sem poder dizer 
nada. Ele apanhou o chapéu sobre a cômoda e foi de  novo para rua."

Um certo dia, Zezé recebe a notícia de houve um grande acidente com o trem Mangaratiba, que passa próximo da estrada Rio-São Paulo, e o carro do português, o que significava que seu grande refúgio, seu melhor amigo, nunca mais estaria perto dele. Ao mesmo tempo, dá-se a notícia de que será cortado o pé de laranja-lima. Zezé havia ficado doente de tristeza pela morte de seu amigo, mas sua família pensa que ele está triste por perder seu Minguinho. E assim, apresenta-se uma incompreensão dos adultos do que está na mente das crianças. Muitas vezes, os mais velhos pensam que os pequenos não compreendem nada e, no entanto, a compreensão deles está muito além do imaginável. No caso de Zezé, essa compreensão já ultrapassava os limites de uma criança comum, pois a força das circunstâncias havia, muito cedo, lhe tirado o direito de ser o que, de fato, ele era. Na passagem seguinte, compreendemos, afinal, que, se no início o livro parecia de fato se tratar da história de amizade entre o menino e a árvore, ao fim, a árvore torna-se algo ainda mais profundo.
"— Depois tem mais. Tão cedo não vão cortar o seu pé de Laranja Lima. Quando o cortarem você estará longe e nem sentirá.
Agarrei-me soluçando aos seus joelhos.
— Não adianta, Papai. Não adianta...
E olhando o seu rosto que também se encontrava cheio de lágrimas murmurei como um morto:
— Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de Laranja Lima."
 
 Ao mesmo tempo que ficamos indignados com a família de Zezé pela maneira como tratam o menino e pela sua incompreensão de que uma criança como ele não faz certas coisas por maldade, mas por falta de entendimento, entendemos que em uma situação de desespero como a deles, a capacidade de parar para refletir diminui e sentimos pena. Até porque, no fundo, sabemos que existe muito amor dos pais para os filhos e vice-versa, mas, por mais triste que possa parecer essa realidade, amor não põe mesa.

Com certeza, devemos ter a consciência de que dinheiro não está nem perto de ser uma das coisas mais importantes da vida, mas é muito fácil dizer isso quando se tem o suficiente e ainda mais quando se tem de sobra. Entretanto, é preciso atentar para o fato de que sem a obtenção das necessidades básicas, nenhum ser humano consegue ser feliz e, infelizmente, o que proporciona a capacidade de ter alimento na mesa, um lugar para viver e mesmo um pouco de lazer (como um brinquedo de Natal) é o dinheiro. Confesso que estas são algumas das concepções que mudaram em mim após a leitura deste livro. Não podemos recriminar a atitude do outro sem conhecer a fundo sua realidade, sua história. O mundo deste livro é extremamente real e atemporal, apesar de se passar em um período e lugar específicos. De minha parte, por ser uma realidade bastante distante da que vejo no cotidiano, eu tive que abrir meu coração e minha alma para tentar compreender todos os sentimentos que se passam em cada um dos personagens. Não é fácil não acusar a família de Zezé de desleixada e com falta de amor. Da mesma maneira, é difícil entender como Zezé pode preferir ficar com um estranho qualquer que com a própria família, escolher uma árvore como grande amigo e confidente, por haver uma necessidade de refúgio para todos os seus temores. Mas, abrindo nossos olhos para ver com mais clareza, somos capazes de perceber tudo isso e crescemos como seres humanos.
Indico este livro a todos, sem exceção. Um livro que, por nos mostrar a dura realidade da vida através de olhos infantis, pode parecer escrito para crianças, mas que tem uma profundidade tamanha que não são todos os adultos que são capazes de compreender. O que eu recomento é tentar, pois quando abrimos nosso coração, este nos emociona com a história de um menino que aprende tudo cedo demais: não apenas  a dor e a ternura, como também a saudade e o carinho.

Video-curiosidades:

"Meu Pé de Laranja Lima", 2011
Em 1970, a obra foi adaptada para os cinemas, com direção de Aurélio Teixeira.
Em 1980, uma telenovela da Band contava a história da obra. Esta era uma regravação da telenovela da rede Tupi que havia sido gravada 10 anos antes.
Em 1998, mais uma vez a Band reproduziu a telenovela.
Agora, em 2011, mais um longa-metragem é criado, dessa vez dirigido por Marcos Bernstein, para matar as saudades da geração que hoje tem por volta de 50 anos e, também, arrebatar as novas gerações com essa história que é linda e comovente.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"Emma", Jane Austen

Uma das mais famosas obras de minha amada escritora, Jane Austen, foi publicada em 1815 e é entitulada "Emma". As críticas à sociedade da época, já encontradas em obras anteriores da autora, são, neste romance, enfatizadas, em decorrência de um amadurecimento de Austen como mulher e como escritora.
Os contrastes na personalidade de nossa protagonista fizeram com que Austen, antes do lançamento do seu livro, fizesse a seguinte afirmação: "Eu vou criar uma heroína, a qual ninguém além de mim vai gostar". Os contrastes de sua personalidade surgem desde sua grande compaixão pelos mais necessitados até sua constante defesa pela divisão de classes.
Algo que pode ser facilmente observado nesta, que é a obra-prima de Austen, em contraste com seus romances anteriores, é o fato de ela ser bastante rotineira. Particularmente, não me apaixonei pelo livro até conhecer a verdadeira intenção da autora, pois, por ser essencialmente embasado em rituais do cotidiano, por vezes, beira o tédio. Mais que em qualquer outro livro, em "Emma", a autora demonstra a habilidade de delinear um retrato realístico da sociedade, expondo os desejos e as debilidades dos habitantes da pequena cidade de Highbury, na Inglaterra, os quais possuem a irritante tendência de apontar defeitos uns nos outros. Apresenta também as rivalidades, pretensões, hierarquias e acontecimentos destes personagens  de uma maneira tão convincente que dificilmente encontramos um trecho da história que não pudesse se passar na vida real do período em que foi escrito.É difícil para o leitor enxergar quando a realidade acaba e começa a ficção.
É interessante notar que as paixões que surgem no final da trama são praticamente imperceptíveis durante o decorrer dela. O leitor atento pode até tentar apostar em um outro casal e acertar, mas a escolha dos casais que nos são apresentados ao fim da trama pode ser considerada quase aleatória, o que é feito quase que propositalmente pela autora.
O livro não gira em torno do romance entre casais, pois a intenção de Austen era nos apresentar personagens, cujas vidas são vazias de paixão e preenchidas, em seu lugar, por fofocas e picuinhas. Desta maneira, não suspiramos de encanto quando lemos "Emma", como leitores de livros como "Orgulho e Preconceito" e "Razão e Sensibilidade" podiam esperar (e eu me incluo nesta lista). Para penetrar na história, portanto, temos de aprender a nos divertir com a confusão de sussurros e boatos, inerentes à fictícia cidade de Highbury.
Logo no princípio da leitura, podemos sentir tudo que vai se passar no decorrer do livro. A Srta. Woodhouse logo demonstra sua mania de opinar sobre todas as coisas, que, no decorrer do livro, torna-se algo muito familiar ao leitor. O casamento de Miss Taylor, antiga tutora de Emma Woodhouse, dá início à trama. Nossa heroína, por imaginar-se a responsável pela prosperidade da união, demonstra seu desejo por continuar em seu papel de casamenteira. O Sr. Knightley nos mostra que está sempre atento a cortar os excessos de nossa linda e inteligente, porém, por vezes, iludida (ou sonhadora) e incômoda, protagonista. Uma vez que os personagens principais, com suas devidas características, são introduzidos, eles não saem muito do seu curso de personalidade, ou seja, não são personagens cíclicos. Outros indivíduos são acrescentados à trama somente para ajudá-los a afirmar seus caráteres imutáveis. Assim, muitos personagens passam pela história sem afetá-la e sem levar o leitor a grandes emoções, e, ao final, a maior parte deles acaba feliz em um bom casamento, como é típico de nossa querida Jane.
Harriet Smith, uma moça ingênua que surge na cidade, é "adotada" por Emma, que pretende introduzi-la no que ela considera "uma boa sociedade". Através das instruções da Srta. Woodhouse, Harriet alterna-se entre paixões impróprias e mal advertidas e um vazio emocional absurdo, de maneira autômata, ou seja, sem pensar agir por si mesma. Ela é, na realidade, o tipo de amiga que Emma sempre quis ter para sentir que possui o controle de todos os acontecimentos: alguém que nunca reclama e nunca discute, sempre acreditando que o que nossa protagonista diz é a verdade absoluta. Apesar de convencer a si mesma da propriedade e sabedoria de suas ações, Emma não consegue ver que está frequentemente enganada, apesar das tentativas de Knightley de dissuadí-la disso.
Ainda, porém, que esqueçamos o foco principal da história, que são as intermináveis tentativas vãs de nossa protagonista de fazer os outros caírem em suas "armadilhas de amor", ainda podemos nos divertir com a maneira com que os habitantes de Highbury conspiram em passar o resto de suas vidas se desentendendo uns com os outros.
O primeiro caso de incompatibilidade na formulação de casais de nossa Emma surge quanto ela força Harriet a se apaixonar pelo Sr. Elton, ao passo que este ama a própria Srta. Woodhouse. O conceito de alguém ser encorajado a amar é uma coisa, mas a maneira ridícula com que Emma tenta convencer Harriet de que ela está tomando suas próprias decisões é absurda. O pior de toda essa embaralhamento emocional é que Harriet acredita que suas opiniões e ações são autônomas.
O romance possui um conhecimento profundo do caráter feminino e apresenta, com severidade, todas as falhas e debilidades que este possui. Ao mesmo tempo que nossa heroína mostra-se bela, sagaz e charmosa, vemos que ela possui um lado insensato ou, simplesmente, tolo, vaidoso, fútil e ilusório. Austen, no entanto, é capaz de nos mostrar sua criação com todos seus defeitos e, ainda assim, fazer-nos amá-la, enquanto que por outros personagens, como a Sra. Elton, que possui muitos dos defeitos da própria Emma, sentimos desprezo. A autora foi muito ousada em não fazer nenhum personagem completamente amável e, ao mesmo tempo, é por essa razão que a vida real está tão perfeitamente exposta neste livro.
Emma deve, com certeza, ser, em toda a literatura, o único exemplo de alguém que não faz nada, ainda que não intencionalmente. No entanto, nós, leitores, a perdoamos, porque, mesmo que suas fantasias acabem por machucar os sentimentos de outros, ela está tentando, com todas as suas forças, viver os delírios fictícios de sua mente. Uma pessoa que não ama o mundo das fantasias não deve ler essa obra-prima de Austen.
A autora opõe-se a fórmula pré-estabelecida dos romances de uma maneira geral, no momento em que permite o triunfo de uma heroína egoísta e mimada, sem insistir que uma lição de moral lhe seja dada. A única coisa que ela parece "aprender" é que, apesar de seu desejo inicial de permanecer solteira para sempre, por fim, ela percebe que precisa de um marido.
No decorrer da trama, nosso subconsciente tende a se perguntar "quem será a próxima paixão de harriet" ou "por quem Frank Churchill estará realmente apaixonado". Apesar destes relacionamentos possuírem um caráter quase infantil diante de romances românticos, eles demonstram a real interação entre homens e mulheres quando estes não sabem nada sobre as verdadeiras intenções do outro.
No século XIX, o matrimônio era tão importante que sua busca é pauta de preocupação e urgência. Por esse motivo, mesmo diante do grande do número de casais formados ao final do romance, muitos por força da comodidade ou interesse, apenas um deles possui perceptível amor romântico: o de Jane Fairfaix e Frank Churchill. O amor que Knithley sente por Emma possui um tom paternalista, ainda que seja bastante afetuoso. Podemos facilmente prever que seu papel de anjo guardião permanecerá imutável após o casamento.
Enquanto em outros romances, o amor é destruidor e capaz de mudar vidas, neste livro, ele é apenas uma maneira trivial de se passar os dias. Percebemos como as pessoas são tolas no que diz respeito às possibilidades do amor: facilmente enganadas, inconstantes e vaidosas, muitas vezes buscando não o amor, mas o status, o bom posicionamento diante da sociedade. A autora foi bem honesta neste sentido ao escrever a obra e é surpreendente que, apesar de todas essas verdades tão inconstantemente reveladas e até um pouco dolorosas, o livro tenha tornado-se duradouramente popular.
Ao fim, por tanto, como o título sugere, este é apenas um livro sobre Emma Woodhouse: um estudo da imperfeição, uma história sobre um doce nada. Se há um comparativo que pode encaixar-se perfeitamente no significado deste livro, ei-lo: enquanto que outros romances buscam dar-nos ideais no lugar de pessoas, este nos dá pessoas, com todos os seus trejeitos e imperfeições. Contemporâneas de Austen, como Mary Shelley (escritora de Frankestein) tentavam desafiar os homens utilizando-se de seus próprios jogos sobre ciência e religião, ao passo que nossa autora buscou ainda mais expor a essência da mulher de sua época, ou seja, como são as pessoas, de fato. Ela escreveu um livro que somente uma mulher poderia escrever, mas que todos, inclusive os homens, deveriam ler.


Video-curiosidades:

São muitas as adaptações desta obra tão magnífica em sua simplicidade rotineira.
Séries de televisão mais aintigas sobre a obra foram apresentadas em 1948 e em 1972.
Em 1995, o filme Clueless, ou, em português, As patricinhas de Beverly Hills, trouxe uma modernização da trama, ou seja, uma adaptação teen. Diferente de outras modernizações, nesta podemos facilmente perceber cada um dos personagens com suas respectivas características bem enfatizadas. Apesar de ser, a príncipio, um filme bobo de adolescentes, ele remete com ênfase à verdadeira essência do livro de Austen. Afinal, onde há mais fofocas, boatos e sussurros que no mundo da high school americana? Eu, particularmente, posso afirmar que adorei o filme na época que assisti (o que já faz um tempo). Outras séries americanas posteriores e mesmo atuais, mesmo sem a intenção, acabam, em sua futilidade, remetendo a uma das maiores escritoras de todos os tempos.
Em 1996, um filme, estrelando Gwineth Paltrow como Emma, trouxe ao cinema uma das melhores adaptações da trama, que tornou-se, por ser menor e, consequentemente menos cansativa, um pouco mais interessante que o próprio livro. Muitos díálogos são mantidos e as características dos personagens, bem como os acontecimentos mais importantes são muito bem estabelecidos no filme, sem mais delongas e excessos.
Ainda no ano de 1996, uma série de TV foi produzida, em que Kate Beckinsale fazia o papel de nossa adorada protagonista. Em 2009, foi a vez de Romola Garai introduzir-se no papel principal.
Recentemente, em 2010, uma comédia romântica indiana trouxe o tema à tona mais uma vez, com o filme Aisha, mais uma vez nos dando uma versão moderna do livro.

Estas são apenas algumas das adaptações existentes, que são muitas e variadas.