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domingo, 17 de fevereiro de 2013

"Timão de Atenas", William Shakespeare

Publicado em meados de 1623, "Timão de Atenas" é mais uma grande obra de William Shakespeare que evoca e satiriza intensos sentimentos da essência humana. Nessa obra, o autor possui apenas um foco e uma intenção: colocar em análise a ganância humana, apresentada tanto na generosidade pretensiosa de nosso protagonista, quanto nas falsas amizades que ele possui.
Timão é um rico mecenas que patrocina políticos, artistas, filósofos e qualquer um que se diga seu amigo. Bastante generoso, está sempre rodeado de admiradores dispostos a ouvir tudo que ele tem para dizer. Esses "amigos", no entanto, são constituídos por um grupo de pessoas que estão dispostas a ficar por perto até que sua fortuna finalmente se extinga. Timão consegue, com facilidade, encher uma mesa de banquetes ou lotar uma de suas festas com pessoas que, aparentemente, o apreciam muito. Ao mesmo tempo, será que uma quantidade tão absurda de pessoas iria manter-se próxima simplesmente para receber presentes e comer de graça? Apemantus, um personagem que surge para dar contra-peso às idealizações de Timão, parece achar que os amigos deste último não passam de bajuladores baratos, mas também ele permanece por perto, sem desfrutar dos banquetes e presentes.
O principal, ou praticamente único, tópico abordado no livro sintetiza-se na seguinte indagação: dinheiro compra amizades? Shakespeare busca, com sua prosa, fazer-nos questionar sobre a ligação que existe (ou não) entre o bem-estar material e os laços de amor e amizade. Que todas as pessoas estão em busca de seus próprios interesses, é irrefutável. Inclusive, absolutamente aceitável quando esse "interesse" é pela boa companhia, o sentimento em si e o relacionamento de uma maneira geral. Afinal, quando vamos buscar lá no fundo, é o interesse pelas coisas e pelas pessoas que move o ser humano. Mas em que ponto podemos começar a desconfiar que o interesse é ou torna-se algo de material, supérfluo, não somente com relação ao dinheiro, mas com relação ao conforto e à praticidade? Como descobrir se esses "laços" são, na verdade, um relacionamento unilateral, onde, enquanto um se doa, o outro apenas usufrui? Essas "amizades" só são mantidas até que aquele que busca precise da ajuda do outro.
A riqueza de Timão é única em sua grandeza. Sua generosidade parece ser auxiliada por uma fonte inacabável de recursos, dos quais ele se beneficia incessantemente. No entanto, em determinado momento, essa fonte tem que se esgotar. Logo, Timão hipoteca suas terras para comprar presentes e fazer festas. Ele chega ao ponto de pedir empréstimos aos amigos para poder, em seguida, comprar-lhes presentes.
Todos esses esforços, porém, parecem sem sentido. Alguns podem interpretar o comportamento de Timão como ingênuo ou inocente. Aparentemente, porém, Timão se coloca nessa situação simplesmente, porque precisa da atenção e do agradecimento de seus amigos. Tampouco ele oferece esses presentes esperando retorno material. Ele sente a necessidade de ter prestígio social. Na realidade, ele adquire status através de seus gastos e acredita que sua "generosidade" solidifica sua amizade com os lordes de Atenas que o rodeiam. Assim, apesar de nosso personagem colocar sua confiança em vínculos intangíveis, a máscara da realidade cai para ele quando se coloca na situação de pedir empréstimos. Todos seus amigos se recusam a lhe ajudar quando a única garantia que ele tem para oferecer é a amizade.
Os comentários de Apemantus no decorrer do livro fazem contraste com as crenças idealísticas de Timão. O primeiro acredita que as pessoas são naturalmente gananciosas e perversas, talvez uma inspiração do autor na filosofia desenvolvida no período, intimamente ligada com o trabalho do filósofo e escritor inglês, Thomas Hobbes. Apemantus também acredita que a generosidade não é uma marca da sociabilidade, mas um investimento com o objetivo de influenciar os outros e ganhar o retorno social da admiração, do respeito e da capacidade de manipulação. Assim, tanto as ideias dele quanto as do nosso protagonista se baseiam na questão de quanto a abundância ou carência de bens materiais determina a interação de um indivíduo, tanto na sociedade, quanto na maneira que ele vê a si mesmo.
As trocas de mercadoria são as únicas transações que acontecem nessa peça. Ou seja, são as permutas financeiras que dominam a obra, onde as mulheres não ocupam nenhum papel de importância. Assim, o câmbio de capital desenvolve um papel perverso e depravado, tomando o lugar de uma possível relação heterossexual romântica que poderia vir a ser um dos focos da narrativa. Da mesma maneira, a história baseia-se no antigo retrato de "usura" como uma maneira depravada de obtenção artificial de lucros.
A reação de Timão à sua queda é bastante curiosa. Como muitos dos personagens das obras de Shakespeare, Timão possui um caráter egoísta e precisa aprender uma lição para crescer como pessoa e prosseguir. Ainda assim, ele fracassa nessa tarefa. A única mudança que percebemos no personagem é a saída de um comportamento extremo para outro. Enquanto, no início, ele se isolava dos outros lordes para conseguir se manter em aparência como um deus de generosidade, inatingível, após perder seu dinheiro, ele se isola na floresta, amaldiçoando a humanidade com o mesmo entusiasmo com o qual ele a louvava anteriormente. Mesmo quando sua crença de que a natureza amigável do homem é inatamente gentil mostra-se falsa, o egocentrismo de Timão permanece imbatível e ele continua achando que deve se manter afastado dos outros por ser melhor que eles. É então que morre sozinho, enterrando a si mesmo em seu próprio epitáfio.

"TIMÃO - Ah, muralhas de Atenas, vou olhar pra vocês pela última vez. Vocês, que cercam esses lobos, caiam por terra e deixem Atenas ao deus-dará. Mulheres, chafurdem na bacanal. Crianças, não obedeçam mais ao papai. Escravos e idiotas, arranquem do plenário os veneráveis membros murchos do Senado e assumam o poder. Virgenzinhas em flor, convertam-se . Falidos do mundo, "uni-vos" - em vez de pagar as dívidas, puxem da navalha e rasguem a garganta dos credores. Trabalhadores assalariados, roubem - os seus patrões são ladrões de mão grande, que roubam também, mas com o apoio da lei. Empregadas, já pra cama do patrão - a patroa ainda não voltou do bordel. Jovens, ao completar dezesseis anos, arranquem a muleta estofada do seu progenitor aleijado e rachem com ela a cabeça dele. Piedade, temor, religião, paz, justiça, verdade, respeito em casa, noites de folga, boa vizinhança, boa educação, boas maneiras, hierarquias, artes e ofícios, usos, costumes e leis, degenerem até que tudo morra no seu contrário e ainda assim viva o caos. Pestes do mundo, que as suas febres invadam Atenas, pronta pra o abate. Que a fria ciática lese tanto os nossos senadores que os seus membros fiquem tão frouxos quanto os seus costumes. Que a luxúria e a libertinagem penetrem sutilmente na medula dos jovens, pra que eles nadem contra a corrente da virtude e se afoguem na perdição. Que sarnas e pústulas plantem-se fundo nos corações atenienses, e que a colheita seja a lepra geral. Que o hálito infecte o hálito, e que a amizade destile puro veneno. Não levo dessa cidade execrável nada mais que a nudez do corpo. Que ela fique nua também, debaixo de mil maldições. Timão vai pra floresta, onde a fera mais desumana é mais humana que a humanidade. Que os deuses - todos os deuses, estão me ouvindo! -, que os deuses amaldiçoem os atenienses, dentro e fora dessas muralhas. Que a vida de Timão faça o seu ódio ser eterno. Contra todos os homens do mundo, no olimpo e no inferno. Amém.
Timão, no entanto, é uma figura ambígua. Quando ele sai de Atenas, declara que a humanidade pode ser resumida em ganância e nada mais. Mas será que, de fato, podemos concordar com ele? Provavelmente, essa percepção sem propósitos é sua resposta ao desprezo e humilhação que sofreu. Se, no início, ele se mostrava um homem tolo, porém generoso, no fim, ele não passa de um homem furioso que continua tolo. Ele deixa a cidade por causa do comportamento cruel de alguns homens, tomando-os como sinal da podridão da humanidade. No entanto, alguns outros personagens tentam provar o contrário.
Flavius divide suas provisões financeiras com os serviçais de Timão, provando-se um homem honrado aos olhos deste. Apemantus e Timão, apesar das discussões, apreciam a companhia um do outro. E, por fim, há Alcibiades, que prepara um ataque à cidade para restabelecer a honra de Timão em Atenas. Com tantas pessoas ao lado de Timão, buscando fazê-lo retornar à cidade e lhe dando suporte, a insistência dele sobre a natureza má da humanidade não procede.
De fato, após a morte de Timão, quando Alcibiades chega aos portões de Atenas, os senadores usam um argumento bastante interessante para tentar convencê-lo a não atacar. Eles explicam que aqueles que foram cruéis com Timão (e com o próprio Alcibiades) são apenas uma pequena porção da população e, portanto, poderiam ser facilmente identificados e punidos. A conclusão da peça, assim, recai na sugestão de que a crueldade não é um fenômeno universal, como Timão imaginava, e sim algo aparentemente restrito a seus "amigos" gananciosos.
Por fim, nos é deixada uma mensagem inconsistente. O herói, se assim podemos denominar Timão, toma decisões erradas quando rico (fazer empréstimos para dar presentes) e também quando perde seus bens (deixar a cidade e amaldiçoar os homens). Com esse comportamento extremo, ele acaba por não ter tempo de aprender nada e morre antes de encontrar um sentido na vida, entre suas reações exacerbadas. Afinal, será que os esforços de Timão nos alertam para desconfiar da generosidade, já que vimos que seus destinatários são aduladores ingratos? A peça é, realmente, uma contestação contra a amizade, quando mostra que as amizades de Timão são guiadas pela ganância?
Ao mesmo tempo que podemos responder positivamente a essas questões, encontramos traços que enfatizam o contrário na obra. Mas quando Flavius, um homem de classe baixa, aprecia genuinamente a generosidade de Timão e o oferece sua amizade, devemos interpretar que a maioria das pessoas é, de fato, gentil? Além disso, os números apresentados por Shakespeare não nos levam a uma conclusão: enquanto três homens desprezam Timão, são três os homens que o visitam, tentando conectar-se com ele de várias maneiras. Ainda que Timão tenha acabado indeciso quanto à interpretação dos acontecimentos, a peça, como um todo, poderia, como tantas outras, transmitir uma ideia absoluta aos leitores. Como Timão, porém, a história finaliza-se com ideias amplamente ambíguas. Talvez nem mesmo Shakespeare tivesse ainda conseguido decifrar o enigma das relações sociais e, colocando-nos o tópico em mente, nos convida a tirarmos nós mesmos as conclusões que, suponho, serão parciais e baseadas nas experiências de cada um.


Video-curiosidades

A peça raramente saiu dos palcos às telas de cinema e televisão.
Todo o registro que pude encontrar resume-se a uma série criada em 1981 pela BBC, dirigida por Jonathan Miller e a uma adaptação cinematográfica de 2009, dirigida por Michael Shaw Fisher.

domingo, 30 de setembro de 2012

"Romeu e Julieta", William Shakespeare


A história que é, para alguns, a representação atemporal do amor perfeito, não exige introduções. Escrita entre 1591 e 1595, conquistou leitores, expectadores e amantes do mundo inteiro e de todas as épocas desde sua estréia. Como é o caso de suas outras obras aqui publicadas, "Hamlet" e "A Megera Domada",  Shakespeare inspirou-se em contos da tradição oral do período para imortalizar o romance de "Romeu e Julieta"(ou, originalmente, "Romeo and Juliet") através de uma tragédia teatral repleta de imaginação, doçura, dignidade e intensidade de sentimentos. Foi sob sua escrita que a história tornou-se um glorioso louvor daquele sentimento que somos incapazes de expressar com palavras e que enobrece a alma, deixando-a ainda mais sublime.
Romeu e Julieta é a primeira tragédia que Shakespeare escreveu que tem, do início ao fim, como sujeito principal, uma história de amor. O vívido espírito da juventude é percebido em cada linha, tanto na arrebatadora intoxicação da esperança, quanto na amargura do desespero. É um livro inteiramente feito de Shakespeare.
O conto se passa na belíssima cidade de Verona, na Itália, onde duas famílias inimigas, os Montecchios e os Capuletos, vivem em um estado de iminente guerra civil. Em meio a essa atmosfera hostil, dois seres feitos um para o outro, apaixonam-se perdidamente à primeira vista. Qualquer tipo de empecilho desaparece frente ao irresistível impulso de viver um para o outro. E é  sob circunstâncias extremamente contrárias à sua ligação que eles se unem através de um casamento secreto, confiantes na proteção de um poder invisível. Mas, devido a incidentes desagradáveis que se seguem sucessivamente, a heroica constância dos dois amantes é posta à prova até que, separados um do outro pela força do destino, eles se unem novamente na sepultura, através de uma morte voluntária, para se reencontrarem em um outro mundo.
A linha entre a tragédia e a comédia é tênue. Assim, Romeu e Julieta, apesar de ser uma das mais aclamadas tragédias, apresenta diversos aspectos e ingredientes das comédias de Shakespeare - a estupidez de seus pais, ou seja, a geração anterior; a atração instantânea entre os jovens; brigas de rua; bailes de máscara e criados cômicos. Mas essa mistura do estilo de "Hamlet" com "A Megera Domada" não prejudica "Romeu e Julieta". Na realidade, esses efeitos de gênero são uma estratégia do autor para aumentar a tensão e dar margem para ampliar o papel dos personagens secundários e a utilização de sub-enredos para embelezar a história.

Romeu e Julieta é a imagem do amor e seu lamentável destino em um mundo, cuja atmosfera é muito amarga para o que há de mais terno na vida humana. Mas esse amor torna-se ainda mais bonito, porque não lhe foi permitido ser corroído pelo tempo. É exatamente por causa dessa efemeridade que temos uma amostra do amor em seu mais belo e puro estado, o que o torna, de certa maneira, pouco realístico. Apesar de ultrapassar o teste da separação através da morte, é um amor que não foi posto à prova mais árdua: o cotidiano. Por isso, o livro pode também ser interpretado como a história de uma moça e um rapaz que mal se viram e pouco se conheceram para criar uma afeição racional e genuína um pelo outro. Além disso, eles não haviam experienciado das melhores e piores coisas da vida até então e, por isso mesmo, o êxtase e o desespero que eles sentem no decorrer de sua história podem ser igualmente lidos como fantásticos e infundados. Na realidade, Shakespeare fundamenta a paixão dos dois amantes não no que eles vivenciaram, e sim no que eles ainda não haviam vivenciado.
Na cultura popular, o nome Romeu praticamente tornou-se um sinônimo de 'amante'. O poder do amor de Romeu, no entanto, muitas vezes obscurece fortes marcas de seu caráter. A relação de Romeu com o amor não é tão simples. No início da obra, Romeu anseia por Rosaline, proclamando-a a personificação do amor e se desesperando com a indiferença dela. Essa paixão, porém, tem um aspecto bastante juvenil. Romeu é um amante das poesias de amor e sua paixão por Rosaline sugere uma tentativa de recriar os sentimentos sobre os quais ele lê. Assim que vê Julieta, porém, Rosaline sai de sua cabeça. Mas Julieta não é uma substituta qualquer. O amor que ela divide com Romeu é muito mais profundo, autêntico e único que o amor clichê e infantil que Romeu nutria por Rosaline. O amor de Romeu amadurece no decorrer da peça a partir do de seu desejo de experimentar uma paixão intensa e verdadeira. Mas, finalmente, é possível dar o mérito dessa evolução do rapaz à própria Julieta, que, com suas deduções e observações sagazes, acaba por abrir os olhos de Romeu, retirando de sua cabeça a ideia superficial do amor e inspirando-o a recitar uma das mais belas e intensas poesias amorosas jamais escritas.

"ROMEU — Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo. (Julieta aparece na janela.)Mas silêncio! Que luz se escoa agora da janela? Será Julieta o sol daquele oriente? Surge, formoso sol, e mata a lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente de tristeza, por ter visto que, como serva, és mais formosa que ela. Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa. Somente os tolos usam sua túnica de vestal, verde e doente; joga-a fora. Eis minha dama. Oh, sim! é o meu amor. Se ela soubesse disso! Ela fala; contudo, não diz nada. Que importa? Com o olhar está falando. Vou responder-lhe. Não; sou muito ousado; não se dirige a mim: duas estrelas do céu, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupação, aos olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, até que elas voltassem. Que se dera se ficassem lá no alto os olhos dela, e na sua cabeça os dois luzeiros? Suas faces nitentes deixariam corridas as estrelas, como o dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos, cantariam. Vede como ela apoia o rosto à mão. Ah! se eu fosse uma luva dessa mão, para poder tocar naquela face!  
JULIETA — Ai de mim! 
 ROMEU — Oh, falou! Fala de novo, anjo brilhante, porque és tão glorioso para esta noite, sobre a minha fronte, como o emissário alado das alturas ser poderia para os olhos brancos e revirados dos mortais atônitos, que, para vê-lo, se reviram, quando montado passa nas ociosas nuvens e veleja no seio do ar sereno.  
JULIETA — Romeu, Romeu! Ah! por que és tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou então, se não quiseres, jura ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo. 
ROMEU (à parte) — Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo?  
JULIETA — Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira. 
ROMEU — Sim, aceito tua palavra. Dá-me o nome apenas de amor, que ficarei rebatizado. De agora em diante não serei Romeu.     [...] 
JULIETA — No caso de seres visto, poderão matar-te. 
ROMEU — Ai! Em teus olhos há maior perigo do que em vinte punhais de teus parentes. Olha-me com doçura, e é quanto basta para deixar-me à prova do ódio deles. 
JULIETA — Por nada deste mundo desejara que fosses visto aqui. 
ROMEU — A capa tenho da noite para deles ocultar-me. Basta que me ames, e eles que me vejam! Prefiro ter cerceada logo a vida pelo ódio deles, a ter morte longa, faltando o teu amor.     [...] 
JULIETA — Sabe-lo bem: a máscara da noite me cobre agora o rosto; do contrário, um rubor virginal me pintaria, de pronto, as faces, pelo que me ouviste dizer neste momento. [...] Se amas, proclama-o com sinceridade; ou se pensas, acaso, que foi fácil minha conquista, vou tornar-me ríspida, franzir o sobrecenho e dizer "não", porque me faças novamente a corte. Se não, por nada, nada deste mundo. Belo Montecchio, é certo: estou perdida, louca de amor; daí poder pensares que meu procedimento é assaz leviano; mas podeis crer-me, cavalheiro, que hei de mais fiel mostrar-me do que quantas têm bastante astúcia para serem cautas. Poderia ter sido mais prudente, preciso confessá-lo, se não fosse teres ouvido sem que eu percebesse, minha veraz paixão. Assim, perdoa-me, não imputando à leviandade, nunca, meu abandono pronto, descoberto tão facilmente pela noite escura."

Além disso, essa enorme capacidade de Romeu para amar é uma mera parte de sua ainda maior capacidade de sentir intensas emoções de todos os tipos. De uma outra maneira, é possível descrever Romeu como alguém que carece de moderação. O amor o compele a invadir o jardim da filha de seu inimigo, arriscando-se a morrer somente para vislumbrá-la. O desespero dos rumores sobre a morte de Julieta o compele ao suicídio. Esse comportamento extremo domina o personagem durante a peça e contribui para a tragédia final que cai sobre os dois apaixonados. Se Romeu se tivesse restringido de matar Teobaldo ou esperado pelo menos um dia a mais antes de se matar após ouvir sobre a morte de sua amada, a história poderia ter um final feliz. Por outro lado, no entanto, se os sentimentos de Romeu não fossem tão intensos, o amor dele por Julieta poderia nunca ter existido.

Entre seus amigos, Romeu mostra verdadeiros traços sobre de sua personalidade. Espirituoso e apreciador de discussões, nosso protagonista apresenta qualidades como a lealdade e a corajem.

Com quase  14 anos, Julieta está no limite entre a maturidade e a imaturidade. À primeira impressão, no início da obra, ela se mostra uma criança obediente, mimada e inocente. Apesar de muitas mulheres – inclusive sua própria mãe – terem se casado na sua idade, Julieta nunca havia pensado sobre isso. Quando a sra. Capuleto menciona que Páris está interessado em casar-se com ela, Julieta obedientemente responde que ela vai tentar considerar se é capaz de amá-lo, uma reação que parece infantil em sua obediência e em sua concepção imatura do amor.

Julieta dá demonstrações de sua determinação, força e sagacidade em suas primeiras cenas, oferecendo assim, uma amostra da mulher que ela virá a se tornar no decorrer da obra. Mesmo sua promessa de tentar amar Páris, que é, aparentemente,  uma prova de obediência, pode ser lida como uma refusa à passividade e como uma representatividade de sua determinação. Julieta consente com os desejos de sua mãe, mas não sem antes tentar apaixonar-se primeiro.
O primeiro encontro de Julieta com Romeu a impulsiona a mostrar sua maturidade. Apesar de estar profundamente apaixonada por ele, Julieta é capaz de enxergar e criticar as decisões precipitadas de Romeu e a sua tendência de romantizar todas as coisas. Após o assassinato de Teobaldo por Romeu, Julieta não segue seu amante cegamente. Ela decide de maneira lógica e sincera, que a sua lealdade e amor por Romeu serão suas prioridades. Quando ela acorda na tumba para encontrar um Romeu morto, ela não se suicida devido a uma fraqueza feminina, mas sim por causa da intensidade do seu amor, da mesma maneira que fizera Romeu. O suicídio de Julieta, inclusive, necessita de mais força e coragem que o dele: enquanto ele bebe veneno, ela apunhala o próprio coração.

O desenvolvimento de Julieta de uma menina assustada para uma mulher segura, leal e corajosa é um dos primeiros triunfos de caracterização de Shakespeare. Julieta também é a marca de um dos mais confiantes, ativos e lapidados personagens femininos da literatura.
Diversas vezes no decorrer do livro, Romeu se refere a Julieta como uma luz, a luz do Sol, a luz das estrelas e, da mesma forma, Julieta compara o amor deles om a iluminação, não somente para enfatizar a rapidez com a qual o romance deles evolui, como também sugerir que, como a luz é um glorioso rompimento da escuridão do céu da noite, assim também é esse novo amor, que iluminou a escuridão do seu mundo, um mundo em que todas as suas ações são controladas pelos que a rodeiam.
Os amantes tentam ultrapassar os obstáculos estabelecidos pela vaidade dos mais velhos. Os pais, na obra, são apresentados como estúpidos que, por causa de orgulho e vaidade, não permitem a si mesmos, nem a seus filhos, desfrutar da paz e do amor.
Dentro de seu próprio contexto, a obra abrilhanta o início de uma literatura rebuscada, da poesia mais doce e minuciosa, que traz a mais esmera descrição do amor. Mas esse sentimento exacerbado entre Romeu e Julieta poderia ser desviado para um tom mais satírico quando implementado no contexto dos dias de hoje.

Existem diversos estudos psicanalíticos, feministas e mesmo teorias de homossexualidade na obra. Todas tentando revelar o que existe nas entrelinhas, não necessariamente percebidos em uma primeira leitura. Todas essas visões e análises aqui apresentadas não são mais que suposições, hipóteses presunçosas de compreender o que um dos maiores autores de todos os tempos buscou afirmar na sua precoce habilidade dramática e maturidade artística. Recomendo, portanto, não somente a leitura atenciosa, mas principalmente uma pesquisa mais apurada sobre as mil faces da obra para os interessados.

Curiosidades:
E, aos amantes dessa tão bela história de amor, uma curiosidade: até hoje, em Verona, jazem os túmulos de Romeu e Julieta, bem como a própria casa e sacada de nossa protagonista, com sua estátua em bronze ao centro, que o pai de Romeu mandara esculpir, como um presente para o pai de Julieta, após a morte dos recém-casados. Tive o prazer de, pessoalmente, ver essas relíquias do maior romance de todos os tempos. Segundo a tradição, as moças que passarem a mão no seio direito da estátua de Julieta encontrarão o amor verdadeiro.
Milhares de adaptações musicais, teatrais, cinematográficas, dentre outras, já foram realizadas em torno de "Romeu e Julieta". O belo livro "Inocência", do Visconde de Taunay, o qual, apesar de já ter lido, não tive a oportunidade de postar no blog, é inspirado na obra e considerado o "Romeu e Julieta sertanejo". Com tantas adaptações nas artes, restringirei as indicações de filmes, apresentando somente os que tive o prazer de apreciar:
Em primeiro lugar, e, para mim, o melhor da lista, o filme ítalo-britânico de 1968, dirigido por ninguém menos que Franco Zefirelli e protagonizado pela eterna Julieta, Olivia Hussey, e com Leonard Whiting como Romeu.
Em 1996, um "Romeu e Julieta" mais moderno foi estrelado por Leonardo Di Caprio e Claire Danes. Apesar de interessante, o filme não tem a mesma classe e beleza do primeiro.
Um grande clássico do cinema americano "West side story" (Amor, Sublime amor) que reflete sobre a richa existente entre imigrantes e nativos estadunidenses, é uma bela história de amor totalmente inspirada no clássico.
O filme "Inocência", adaptação do livro anteriormente comentado, é estrelado por Fernanda Torres e Edson Celulari e dirigido por Walter Lima Jr. Apesar de uma produção simples, é também muito interessante.
Finalmente, uma comédia romântica que, apesar de não ser inspirada na história de Romeu e Julieta, a tem como objeto central de atenção, é o filme "Cartas para Julieta", de 2010, dirigido por "Gary Winick" e protagonizado por "Amanda Seyfried".

domingo, 6 de maio de 2012

"Hamlet", William Shakespeare

Uma vez mais, trago para este blog um humilde comentário sobre uma obra-prima do maior dramaturgo da literatura universal. William Shakespeare, que escrevia suas peças para um pequeno teatro de repertório, no final do século XVI e início do XVII, tem, mais de 400 anos depois, suas histórias como base para excelentes adaptações. A sua produção engrandeceu o teatro, trazendo ao palco as personagens mais intrigantes, dentre as quais figura o sujeito de nossos comentários. 
Segundo estudiosos, é em 1600 que nosso autor atinge a maturidade literária, com a peça "Hamlet", diferentemente da obra anteriormente aqui postada "A Megera Domada", que pertence a primeira fase de seus escritos. Esta última, inserida no grupo de comédia de costumes, difere da primeira, que, rodeada por uma natureza histórica, apresenta, em sua essência, a natureza humana e suas contradições.

Na realidade, o mito de Hamlet é antiquíssimo na lenda escandinava. No século XII, surge o primeiro registro escrito dessa história, proveniente do dinamarquês Saxo Grammaticus, no livro "História Danica". Entretanto, Shakespeare, pode-se presumir, inspirou sua obra na publicada por François de Belletorest, inserida em seu livro "Histoires Tragiques", de 1576.
Hamlet é a tragédia da dúvida, do desespero solitário de um homem diante da violência do mundo. Por seu caráter profundo e enigmático, estabelecendo contato intenso com o que há de mais obscuro no ser humano, esta peça é, até hoje, a mais estudada e apresentada do poeta inglês.
O rei da Dinamarca falece. Em seu lugar, sobe ao trono seu irmão que, com pouco tempo do trágico acontecimento, casa-se com a rainha. O príncipe, Hamlet, não consegue aceitar que sua mãe tenha-se retirado do luto, desposando um outro marido, mal o cadáver de seu pai esfriara. Não há nada, porém, que deva-se fazer, apesar da grande amargura do príncipe e da falta de honra e dignidade do casal, que apressadamente desrespeitou a memória do rei, dentro de uma relação considerada incestuosa no período.
Em uma certa noite de vigília, os guardas noturnos do reino começam a ver o espectro do pai de Hamlet e, apesar de quase não acreditarem em seus olhos, alertam o príncipe. Este tenta comunicar-se com o espectro que, de fato, aparenta ser seu pai e acaba por descobrir uma informação importantíssima: Cláudio havia envenenado o rei da Dinamarca e seduzido sua esposa, adquirindo, assim, tudo que pertencia ao seu irmão - o trono e a rainha.
A indignação de Hamlet não poderia ser colocada em palavras. A dúvida paira sobre a cabeça do personagem. O que, afinal, deveria ser feito? O desejo de vingança é grande, mas não lhe parece correto. Ele passa, então, a agir de uma maneira que os cortesões, o rei e a rainha consideram insanidade. Aproveitando-se disso, o príncipe ganha tempo para tramar a melhor forma de desmascarar o rei.
Enquanto isso, um projeto de romance é colocado para o leitor: Hamlet é apaixonado por Ofélia, filha de Polônio, um lorde camarista que é o principal conselheiro do rei.
Pois bem, após muitas reviravoltas, onde o rei, desconfiado de seu sobrinho, tenta descobrir o que se passa na cabeça dele, Hamlet tem uma conversa com sua mãe e consegue abrir os olhos dela para a falta de caráter do rei, bem como a péssima atitude que ela havia tomado. Esta conversa, porém, tinha sido escutada por Polônio atrás das cortinas (coisa muito típica e quase um clichê de dramas envolvendo traições). O princípe, contudo, detecta algo errado no ambiente e acaba por dar um golpe de espada na cortina, assassinando o pai de sua amada.
Ofélia enlouquece e é "vítima" de uma morte misteriosa, que nos dá um diálogo muito interessante entre os coveiros que cavavam sua sepultura:


"PRIMEIRO COVEIRO - E é correto que em terra santa seja sepultada a moça que voluntariamente conspira contra a própria salvação?
SEGUNDO COVEIRO - Posso te dizer que sim. Portanto cave logo a sepultura que irá recebê-la. O comissário já examinou o caso e decidiu que o enterro deve ser cristão.
PRIMEIRO COVEIRO - Como pode ser isso? A menos que ela tenha se afogado em defesa própria!
SEGUNDO COVEIRO - Foi mais ou menos isso que acharam.
PRIMEIRO COVEIRO - Deve ter sido se defendendo. Não pode ter sido de outra maneira! Porque aqui está o ponto: se eu me afogar intencionalmente, isto denota um ato, e um ato tem três partes que são: agir, fazer e executar. Então, ela se afogou intencionalmente.
SEGUNDO COVEIRO - Mas escuta, camarada...
PRIMEIRO COVEIRO - Com licença! Aqui está a água; bom, e aqui está o homem; bem. Se o homem vai em direção desta água e se afoga, queira ou não, é caso que vai. Preste bem atenção. Mas se a água vai até ele e o afoga, ele não se afoga a si mesmo. Portanto, aquele que não é culpado da própria morte, não abrevia a própria vida.
SEGUNDO COVEIRO - Mas a lei é assim?
PRIMEIRO COVEIRO - Exatamente! Lei baseada na informação do comissário.
SEGUNDO COVEIRO - Só sei de uma coisa, se essa não fosse uma dama da nobreza, não seria sepultada como cristã.
PRIMEIRO COVEIRO - Isso mesmo! E o mais triste disso é que os grandes têm mais facilidades neste mundo para se afogar ou se enforcar.[...] Enquanto eles se julgam eternos nós é que construímos as cidades mais duradouras. Sabe por quê?
SEGUNDO COVEIRO - Realmente, juro que não sei!
PRIMEIRO COVEIRO - Não atormente mais sua cabeça oca com isso. A idéia é que o coveiro constrói casas que duram até o dia do Juízo Final. (Pausa) Agora vá buscar um tanto d'água que tenho de terminar isso ainda hoje!"

Com tantas tragédias em sua família, ocasionadas, ainda que não de todo intencionalmente, por Hamlet, o irmão de Ofélia, Laertes, resolve vingar-se. Alia-se, portanto, ao rei. 
O clímax do livro ocorre com a utilização de um artifício interessante e original: o teatro dentro do teatro. Aproveitando-se da capacidade que a dramaturgia tem de penetrar no íntimo do ser humano, fazendo-o refletir e demonstrar as mais diversas reações, Hamlet propõe a um grupo de atores (que seria a representação do grupo de teatro de Shakespeare) que apresente uma peça que contaria a mesma história de traição, corrupção, incesto e imoralidade de sua vida real. De fato, a representação afeta o rei, que retira-se do recinto, desmascarando-se, com esta atitude, aos olhos de Hamlet.
Finalmente, o rei trama uma luta entre Laertes e Hamlet. Para garantir a morte deste último, o florete de Laertes é envenenado, bem como um copo de vinho, servido a Hamlet entre os jogos. Mas o tiro sai pela culatra quando a rainha, Gertrudes, bebe o vinho que seria de seu filho. A seguir Laertes fere Hamlet e, após troca de floretes, Hamlet fere Laertes. No ímpeto deste momento, a rainha morre e o príncipe, percebendo a traição, usa suas últimas gotas de ânimo para ferir o rei antes de morrer.
O forte caráter de Cláudio, o rei da Dinamarca e vilão de nossa história, torna-se um traço de valor e cede à trama uma complexidade que não poderia ser alcançada com a simples representação da luta contra o bem e o mal. Aspectos extremamente frequentes nas obras de Shakespeare, como as aparências que enganam e o predomínio das paixões sobre a razão, embalam com fervor a história de Hamlet.
Devido à vívida dramatização da melancolia e da insanidade na peça, suas personagens foram encaradas, durante muito tempo, como obscuras, misteriosas e, até mesmo, místicas. A confusão de um homem em meio a um ambiente de loucura real e loucura fingida, com emoções que partem do sofrimento opressivo até a raiva fervorosa, torna a obra ainda mais intrigante estudiosos e psicanalistas, fazendo-a interpretada e debatida através de diversas perspectivas. 
Críticos psicanalíticos, mais recentemente, tentam examinar a mente inconsciente de Hamlet, enquanto críticos feministas reavaliam e reabilitam o caráter de personagens como Ofélia e Gertrudes.
A hesitação de Hamlet ao matar seu tio, por exemplo, é um aspecto ainda misterioso para muitos. Alguns encaram o ato como uma técnica de prolongação do enredo, mas outros o vêem como resultado da pressão exercida pelas complexas questões éticas e filosóficas que cercam o assassinato a sangue-frio, resultado de uma vingança calculada e um desejo frustrado. Freud interpretou esta situação como uma espécie de complexo de Édipo.
Nosso protagonista possui também um caráter filosófico, expondo idéias agora conhecidas como relativistas, existencialistas e céticas. Uma forte exemplificação deste relativismo é expresso em seu diálogo com Rosencrantz, na seguinte frase: "[...] nada é bom ou mau, a não ser por força do pensamento." A reflexão de que nada é mau, exceto na mente do indivíduo, encontra raízes nos gregos sofistas, crentes de que, uma vez que nada pode ser percebido, exceto através dos sentidos - e uma vez que todas as pessoas percebem as coisas diferentemente entre si - não há verdade absoluta, apenas a verdade relativa sobre as coisas (e eu não poderia ser mais de acordo com essa idéia).
O exemplo mais claro do existencialismo, contudo, está no célebre e famoso monólogo da tragédia:
"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre em nossos espírito sofrer pedras e setas com que a fortuna, enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e, em ula, pôr-lhes fim? Morrer... dormir: não mais. Dizer que rematamos com um sono a angústia e as mil pelejas  naturais - herança do homem: morrer para dormir... é uma consumação que bem merece e desejamos com fervor [...]" 
Os críticos acreditam que Hamlet usa "ser" para aludir à vida e à ação, e "não ser" aludindo à morte e a inércia.
Não me permito adentrar em divagações e reflexões, utilizando-me de minha pobre (diante de tanta riqueza literária) capacidade de interpretação. Ficarei, portanto, com o resto de minhas análises, dando aos leitores deste blog que se interessarem (e, se me permitem afirmar, não tem como não criar curiosidade pelos mistérios psicanalíticos de tal trama) a possibilidade de criarem suas próprias interpretações, que podem ser as mais diversas e apreciar a obra, desde seu conteúdo mais simples à sua mais extremada concepção.


Video-curiosidades:

Criada com o intuito de ser apresentado em palcos, a obra, obviamente, foi apresentada milhares de vezes, através das mais diversas perspectivas e atuações.

Em 1948, uma adaptação cinematográfica dirigida e protagonizada por Laurence Olivier estreou nos cinemas.
Em 1990, o filme dirigido por Franco Zefirelli é lançado, estrelando Mel Gibson e Glenn Close.
Em 1996, com Keneth Branagh como Hamlet, outra adaptação surge nos cinemas.

Vários atores brasileiros renomados, como Edson Celulari, Diogo Vilela e Wagner Moura encenaram Hamlet no teatro, merecendo ovações por suas brilhantes atuações. De fato, trazer uma trama tão rica e misteriosa para o teatro brasileiro, e, como ator, ter a audácia de interpretar um personagem tão perturbado e intrigante é, de fato, digno de não somente aplausos, mas principalmente agradecimento.


Indico este link de uma reflexão de Leandro Karnal em cima da peça: https://www.google.fr/search?q=%09Hamlet+e+o+Mundo+como+Palco&ie=utf-8&oe=utf-8&gws_rd=cr&ei=WdQyV-6lDMa4ad_dqtAC

terça-feira, 18 de maio de 2010

"A Megera Domada", William Shakespeare

"A Megera Domada", cujo título original é "The Taming of the Shrew", é uma comédia de costumes escrita por William Shakespeare entre 1593 e 1594. A peça nasceu de uma adaptação feita pelo autor de antigos contos de tradição oral.
É a história de Catarina, a indomável filha mais velha do senhor Batista, que, aparentemente, não se deixa subjugar por homem nenhum. O pai, que possui também a doce Bianca como filha, impõe, então, que a caçula só se case depois de sua irmã. Assim, inicia-se o tormento dos inúmeros pretendentes de Bianca, que arquitetam um plano para fazer a "brusca, irritada e voluntariosa" Catarina casar-se e encontram como pretendente Petruchio, um fidalgo de Verona, que tudo que busca é um bom dote. A brutalidade de Petruchio em meio à polidez dos cavalheiros pretendentes de Bianca faz parte da satirização da sociedade dada pelo autor.
O casamento acontece, aparentemente, sem a permissão da moça e, após um árduo tratamento psicológico, Petruchio finalmente consegue "domar" a megera Catarina, que finaliza com um discurso, que possui o seguinte trecho:

 "[...] O mesmo dever que prende o servo ao soberano prende, ao marido, a mulher. E quando ela é teimosa, impertinente, azeda, desabrida, não obedecendo às suas ordens justas, que é então senão rebelde, infame, uma traidora que não merece as graças de seu amo e amante? Tenho vergonha de ver mulheres tão ingênuas que pensam em fazer guerra quando deviam ajoelhar e pedir paz. Ou procurando poder, supremacia e força quando deviam amar, servir, obedecer. Por que razão o nosso corpo é liso, macio, delicado, não preparado para a fadiga e a confusão do mundo, senão para que o nosso coração e o nosso espírito tenham delicadeza igual ao exterior? Vamos, vamos, vermes teimosos e impotentes. Também já tive um gênio tão difícil, um coração pior. E mais razão, talvez, pra revidar palavra por palavra, ofensa por ofensa. Vejo agora, porém, que nossas lanças são de palha. Nossa força é fraqueza, nossa fraqueza, sem remédio. E quanto mais queremos ser, menos nós somos. Assim, compreendido o inútil desse orgulho, devemos colocar as mãos, humildemente, sob os pés do senhor. Para esse dever, quando meu esposo quiser, a minha mão está pronta, se isso causar-lhe prazer."

Como é próprio da comédia de costumes, a peça satiriza as tradições e as situações rotineiras daquele contexto social, proporcionando uma análise dos costumes e comportamentos humanos. São exemplos de códigos sociais da época: o costume do primeiro casamento ser o da irmã mais velha, a necessidade de obter a permissão do pai antes de cortejar a filha e a submissão da mulher com relação a seu esposo. A obra tem como temas principais: o matrimônio, a guerra entre os sexos e as conquistas amorosas, como é típico dos teatros shakespeareanos. O que diferencia essa peça de outras, como "Sonho de uma Noite de Verão" (1595-1596) e "Muito Barulho por Nada" (1598-1599), é a dedicação de boa parte da obra à vida matrimonial, ou seja, às situações que sucedem a cerimônia do casamento.

A obra escrita por William Shakespeare me agradou muito de início, por seu caráter cômico e divertido. No entanto, a submissão de Catarina e o machismo de seu discurso final me decepcionaram, apesar de retratarem uma realidade, que, na época, era incontestável. Não obstante o caráter machista da obra, o autor foi audacioso ao demonstrar um outro ponto de vista, que, mais tarde, seria chamado de feminismo e ganharia um grande espaço na sociedade.
Apesar da decepção final, posso afirmar que "A Megera Domada" é uma bela e curta comédia de costumes, interessante para todos aqueles que gostem do teatro como estilo literário e apreciem uma escrita divertida, interessante e original, digna somente de Shakespeare.

Video-curiosidades:




Em 1967, ninguém menos que Elizabeth Taylor e Richard Burton deram vida à Catarina e Petruchio, em um filme de Franco Zefirelli.

Em 1999, Karen McCullah Lutz e Kirsten Smith tiveram a originalidade da obra de Shakespeare como base para a comédia romântica moderna "Ten things I hate about you" ("Dez coisas que eu odeio em você), um filme que eu, particularmente, adoro.

No Brasil, a história foi adaptada e transformada, por Walcyr Carrasco, na telenovela "O Cravo e a Rosa" (2000-2001), tendo os atores Adriana Esteves e Eduardo Moscovis, como a Catarina e o Petruchio brasileiros.

As adaptações tem uma maior capacidade de conquistar o público de hoje por se adequarem melhor à mentalidade da sociedade atual.