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quarta-feira, 13 de abril de 2011

"Razão e sensibilidade", Jane Austen

Como primeiro livro de Austen a ser publicado, em 1811, "Sense and Sensibility" não atinge a maturidade literária, em termos de entretenimento do leitor, alcançada por outros livros de nossa querida autora, como "Pride and Prejudice". Ainda assim, é uma obra bastante interessante e divertida e reflete, bem como o anteriormente citado e postado livro de Austen, costumes e tradições do periodo.
Por aproximar-se, por vezes, do melodrama, apresentando-se como um agitado romance da vida privada, a obra pode ser subestimada. No entanto, os diversos aspectos por ela abordados com relação ao amor e à maneira de reagir aos infortúnios da vida devem ser considerados como um prazeroso estímulo na leitura da obra. Austen nos apresenta uma poderosa crítica aos valores do período.
O romance conta a história de duas irmãs, Elinor e Marianne. Marianne é a antropomorfização da sensibilidade e Elinor, da razão (razão aqui também definida como responsabilidade social, dentre outros termos). Em nosso primeiro contato com Marianne ela é descrita como sensível e esperta; enquanto que os sentimentos de Elinor são caracterizados como fortes. Isso nos mostra que cada uma tem um toque da qualidade que define a outra. Assim, é simplista ver as duas irmãs como o oposto uma da outra. O livro argumenta repetidamente que, assim como os sentimentos devem ser moderados pelo senso comum, a razão sozinha e intocada pelos sentimentos bons, não é suficiente.  Austen, com o comportamento, por vezes, hipersensível de Marianne, satiriza o culto à sensibilidade; por outro lado, também mostra que pouco sentimento pode ser tão perigoso quanto muito.
Após a morte de seu pai, as irmãs Dashwood perdem toda sua herança para um meio irmão, John Dashwood. Ele e sua mulher vão, então, viver na casa que, antes, era da sra. Dashwood. A família se vê obrigada, a partir disto, a buscar um novo lar e deixar aquele onde vivera toda uma vida até aquele momento. Durante o período em que elas passam à procura de uma nova casa, o irmão da sra. John Dashwood, Edward Ferrars, vai visitar sua irmã. Elinor, a filha mais velha da sra. Dashwood, adquire uma forte conexão com ele. No entanto, sua prudência faz com que ela evite comentários com relação aos seus sentimentos pelo rapaz.
Com a ajuda de familiares, elas conseguem se mudar para uma pequena casa no campo, onde Marianne, a filha do meio, conhese o sr. Willoughby e se apaixona perdidamente por ele, entregando seu coração com inocência e imprudência.

O grande enfoque do livro está nas divergências de personalidade de Marianne e Elinor. Ambas se apaixonam por rapazes que, em certo ponto do livro, mostram-se comprometidos com outras moças. A reação da sentimentalista Marianne é se entregar ao desespero, sem esconder dos demais seu sofrimento e sem refletir sobre o quanto sua reação pode estar abalando as pessoas que a amam. Já Elinor, que descobrira o noivado de seu amado antes que qualquer uma, pela boca da própria noiva, uma esperta e, por vezes, até cruel moça chamada Lucy Steele, reage com aceitação e guarda para si toda dor e todas as lágrimas. A passagem seguinte reflete esta diferença de visão de mundo das duas irmãs.

"- Quatro meses! Você sabe de tudo há quatro meses? Elinor confirmou.

- Quer dizer que enquanto me deu forças na minha miséria, guardava isso em seu coração? E eu que cheguei a criticá-la por ser feliz!
[...]
- Quatro meses! E você ainda o amava!
- Sim. Mas não amava apenas a ele, e como a paz dos outros é importante para mim, fiquei contente por que os poupava de saberem como me sentia. Agora, posso pensar e falar nisso com menos emoção. Fazendo-o agora, não a levo a sofrer por mim porque posso afirmar-lhe que não sofro mais materialmente. Houve várias coisas que me apoiaram. Tenho consciência de que não provoquei decepção alguma por imprudência cometida por mim e suportei a situação como pude, sem deixar que transpirasse para os outros. Desculpo Edward por ter agido errado. Desejo que ele seja muito feliz e tenho certeza de que fará o seu dever. [...]
- Se é assim que você vê as coisas... - disse Marianne - Se a perda de algo tão valioso pode ser substituída por outra coisa, sua resolução e seu autocontrole são, talvez, dignos de serem melhor considerados. Quanto a mim, acham-se além da minha compreensão.
- Eu a compreendo. Você acha que não senti muito. Durante quatro meses, Marianne, tudo isso ficou martelando em minha cabeça sem que eu tivesse a liberdade de conversar a respeito com nem sequer uma pessoa. O pior é que nem mesmo podia prepará-las para o desfecho, sabendo que iria tornar você e mamãe muito infelizes se lhes dissesse o que acontecia. Foi-me contado que um compromisso anterior destruía todas as minhas perspectivas... Aliás, foi uma maneira da própria pessoa interessada forçar-me a me retirar. Pelo que pude perceber, tudo me foi dito com uma sensação de triunfo. Tive de me opor às suspeitas dessa pessoa aparentando indiferença por algo em que estava profundamente interessada. E não foi apenas uma vez; tive de ouvir várias vezes as esperanças e as alegrias dela. Fiquei sabendo que me achava separada de Edward para sempre, sem tomar conhecimento de pelo menos um detalhe que me fizesse chegar à conclusão de que deveria cortar relações com ele. Nada demonstrava que Edward não era digno, nada indicava que ele era indiferente a mim. Eu teria de lutar contra a indelicadeza da irmã e contra a insolência da mãe dele; teria de sofrer um castigo pela afeição que dedico a ele sem, no entanto, poder aproveitar as vantagens. E tudo isso aconteceu num momento em que, como você sabe muito bem, eu não era a única a ser infeliz. Se você me considera capaz de sentir, com certeza pode imaginar o que sofri. A atitude de elegante compostura que mantenho enquanto falo nesses acontecimentos e o consolo que não procurei, porque não podia fazê-lo, são resultados de esforços contínuos e dolorosos... Essas coisas não surgiram por si mesmas, não apareceram logo no começo para me dar forças e apoio. Não, Marianne... Naquele momento, se eu não me visse obrigada a um silêncio absoluto, talvez nada teria conseguido me impedir... nem mesmo o carinho que tenho por meus melhores amigos... de mostrar a todos quanto eu estava sendo infeliz. Marianne achava-se quase persuadida.
- Oh, Elinor!  - exclamou.  - Você fez com que eu me odeie para sempre. Como fui malvada com você! Logo com você, que foi meu único consolo, que me deu forças para suportar tanta miséria, que pareceu estar sofrendo apenas por mim! E este foi o meu agradecimento! Este é o único modo que tenho para recompensá-la? Você tem o direito de chorar no meu ombro, pois foi o que tentei fazer para sempre!"

Austen preocupa-se em analisar uma sociedade obcecada por status social e financeiro. Casamentos arranjados, de acordo com dotes e não com amor; amizades feitas visando somente status.
Além disso, o comportamento diante da sociedade é vastamente discutido. Elinor sempre se coloca com educação, mesmo em situações que a deixam inconfortável. Enquanto isso, Marianne, deixando-se levar pelo coração, sequer tenta tolerar pessoas ou situações que afetam de maneira ruim seu espírito. Quando, na obra, encontramos o julgamento do comportamento de Marianne, não devemos nos deixar pensar que aquele é o julgamento da autora, mas sim da sociedade. A naturalidade de Marianne diante do modo artificial com que aqueles que estão a sua volta vivem suas vidas é um tema significativo do romance. Uma das falas de Marianne – bastante valiosa de se notar - demonstra seu pensamento com relação a outros personagens e à vida de uma maneira geral.
“Dinheiro só pode trazer felicidade onde não há mais nada que a traga.”
Ao final, o livro possui um pequeno furo na escolha do marido de Marianne. A apaixonada garota acaba por casar-se com alguém por quem sentia gratidão, mas não exatamente afeição ou amor. Já Elinor acaba o livro com seu grande amor, quase que por ironia.
Atentar para as inúmeras cartas mencionadas ou apresentadas no livro é também importante, pois, em uma sociedade onde os sentimentos são repreendidos, cartas eram valorosos veículos de pensamentos que não podiam ser livremente publicados.
Além do entretenimento, a obra nos leva a fazer importantes reflexões, como anteriormente abordado, sobre a vida, o amor, a demasiada prudência e o sentimentalismo exacerbado. Ela nos ajuda, a partir de seus personagens, a encontrar um ponto de equilíbrio entre razão e sensibilidade. É, portanto, um livro de leitura indispensável para quem quer aprender um pouco mais sobre as pessoas e analisar de maneira diferente suas próprias atitudes.


Video-curiosidades:

Em 1995, dirigido por Ang Lee, a adaptação "Sense and sensibility" se mostra de grande verossimilhança com a obra original, transmitindo a mensagem do livro em um filme de alta qualidade.  Apresenta também um grande elenco que merece citação: Kate Winslet, Emma Thompson, Hugh Grant, Alan Rickman e Hugh Laurie.

Diversas outras séries e adaptações foram apresentadas na TV. Com certeza, o filme citado é a de maior qualidade.

segunda-feira, 14 de março de 2011

"A moreninha", Joaquim Manuel de Macedo

Em 1844, surge a primeira obra brasileira de gênero romântico. Caracterizada como romance urbano, "A moreninha" não somente inicia o ciclo do romantismo no Brasil, como também a trajetória de Joaquim Manuel de Macêdo como romancista, visto que é seu primeiro livro.
No século XIX, o público consumidor de romances era a burguesia. Dessa maneira, uma série de ingredientes específicos foi utilizado pelo autor para fixar a atenção de seus leitores.
O livro se passa em uma sociedade burguesa, onde grande parte dos personagens masculinos é estudante de medicina e dos femininos é culto e tem a visão voltada para o casamento. De modo geral, a comicidade, o namoro difícil, a dúvida entre o dever e o desejo, a revelação surpreendente de uma identidade, as brincadeiras de estudantes e uma linguagem mais inclinada para o tom coloquial compõem a essência da obra, que visa o entretenimento, sem tornar-se vulgar.
O livro inicia-se com a ida de Fabrício, Augusto e Leopoldo à casa da avó de Filipe, a convite deste. A casa fica na ilha de Paqueta e todas as primas de Filipe, inclusive sua irmã Carolina, estão lá. Os amigos chegam para ficar durante o fim de semana. 
Uma importante característica na personalidade de Augusto é a volubilidade de seus sentimentos. Como ele mesmo afirma, é capaz de amar três moças ou mais em uma mesma noite.
Inicia-se entre os jovens uma espécie de "jogo da sedução" à moda do período, ou seja, de uma maneira bem contida. A única jovem que não está interessada em romance é a travessa Carolina. Com suas travessuras, peripércias e manias de pregar peças nos outros, a menina de quatorze anos faz Augusto julgá-la inoportuna e feia. No entanto, no decorrer do fim de semana, entre as conversas travadas pelas pessoas da casa, o rapaz começa a perceber a sagacidade e ironia que possui a menina. Começa a considerá-la esperta, inteligente e cada vez menos feia. Os sentimentos de Augusto por Carolina são cíclicos, como podemos perceber na seguinte passagem:

"— E o que pensas da irmã de Filipe?
— A melhor resposta que te posso dar, é... não sei... porque, ao meio-dia, a julgava travessa, importuna e feia, mas era-me completamente indiferente.
— À uma hora?...
— Eu a supus estouvada e desagradável.
— Às duas horas?...
— Má, e desejava vê-la longe de mim.
— Durante o jantar?...
— Fui achando-lhe algum espírito e acusei-me por havê-la julgado feia.
— E agora?
— Parece que me sinto inclinado a declará-la engraçada e bonitinha.
— E daqui a pouco? Eu direi."

Os rapazes e moças da casa constituem uma juventude que não se permite crer no amor. As moças, temem ser enganadas pelas falsas promessas dos rapazes e, por isso, enganam a estes, que para defender-se da mentira das moças, as enchem de falsas promessas. São poucos os verdadeiros apaixonados. Em um trecho do livro, há uma divagação sobre a diferença das moças do campo e da cidade, que expressa a volubilidade não apenas das mulheres urbanas da época, mas também da juventude atual. 


"Estudemos as duas vidas. A moça da corte escreve e vive comovida sempre por sensações novas e brilhantes por objetos que se multiplicam e se renovam a todo momento, por prazeres e distrações que se precipitam; ainda contra a vontade, tudo a obriga a ser volúvel: se chega à janela um instante só, que variedade de sensações! Seus olhos têm de saltar da carruagem para o cavaleiro, da senhora que passa para o menino que brinca, do séqüito do casamento para o acompanhamento de enterro! Sua alma tem que sentir ao mesmo tempo o grito de dor e a risada de prazer, os lamentos, os brados de alegria e o ruído do povo; depois, tem o baile com sua atmosfera de lisonjas e mentiras, onde ela se acostuma a fingir o que não sente, a ouvir frases de amor a todas as horas, a mudar de galanteador em cada contradança; depois, tem o teatro, onde cem ócuLos fitos em seu rosto parecem estar dizendo — és bela! — E assim enchendo-a de orgulho e muitas vezes de vaidade; finalmente, ela se faz por força e por costume tão inconstante como a sociedade em que vive, tão mudável como a moda dos vestidos. Quereis agora ver o que se passa com uma moça da roça?...Ali está ela na solidão de seus campos, talvez menos alegre, porém, certamente, mais livre; sua alma é todos os dias tocada dos mesmos objetos: ao romper d’alva, é sempre e só a aurora que bruxoleia no horizonte; durante o dia, são sempre os mesmos prados, os mesmos bosques e árvores; de tarde, sempre o mesmo gado que se vem recolhendo ao curral; à noite, sempre a mesma lua que prateia seus raios à Lisa superfície do lago! Assim, ela se acostuma a ver e amar um único objeto; seu espírito, quando concebe uma idéia, não a deixa mais, abraça-a, anima-a, vive eterno com ela; sua alma quando chega a amar, é para nunca mais esquecer, é para viver e morrer por aquele que ama. Isto é sim, Augusto; considera que é lá em nossos campos que mais brilham esses sentimentos, que são a mesma vida e que não podem acabar senão com ela!..."
O jovem Augusto, considerado o mais volúvel de todos, possui, porém, um motivo para não ceder seu coração a ninguém. Aos treze anos, ele havia conhecido na praia uma linda menina que não possuía nem oito ainda, e que era risonha, travessa e esperta. Eles brincaram durante toda uma tarde e se identificaram bastante. Ajudaram, juntos, um velho morimbundo, que, em um delírio febril, os disse que eles deveriam se casar ao crescer. Para fortalecer essa promessa, o senhor os fez trocar objetos. A menina ficou com o camafeu que Augusto possuía e este guardou o broche de esmeralda que estava no vestido da menina. Desta menina, que ele chamava de "minha mulher", ele não conhecia o nome. No entanto, em seu coração, lhe era fiel e somente a ela.
Retornando ao nosso foco principal. Carolina começa a sentir-se tocada por Augusto. No entanto, o fim de semana acaba e eles poderão não mais se ver. Augusto, porém, compromete-se de ir à casa de D. Ana, a avó de Filipe, aos domingos. E, de domingo a domingo, vai-se formando um amor extremamente forte e apaixonado. Augusto decide esquecer "sua mulher" para dar todo seu coração a Carolina. Mas a esperta menina, que já havia descoberto o passado de Augusto, nos traz, a nós leitores e a Augusto, uma descoberta surpreendente: a menina que havia ficado com o camafeu de Augusto era ela. Assim, sem trair nenhum de seus sentimentos, Augusto pode amar Carolina e casar-se com ela.
Carolina é o símbolo de mulher romântica. Porém, divergindo do estereótipo criado pelos europeus, nossa moreninha é uma mulher romântica à moda brasileira. Assim, o namoro de Augusto com ela constitui a "aprendizagem de desaprender". Com efeito, o jovem se despirá dos preconceitos para dar vazão aos sentimentos verdadeiros.
Segundo Álvaro Cardoso Gomes, professor associado de Literatura portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP: "A diminuição do interesse por este tipo de romance deve-se a preconceitos, que vitimaram a maioria das obras consideradas clássicas. Para o homem do século XX, às vezes, incomodam a afetação da linguagem um pouco derramada, as longas disgressões, os usos e costumes que não são mais os seus. Porém, se o leitor se livrar desses preconceitos e embarcar na história, certamente se deliciará com A moreninha, que tem todos os ingredientes para agradar. Macedo, como escritor competente que era, tinha o dom de saber amar o leitor desde a primeira linha. Era do tipo de romancista que não se preocupava em passar mensagens complexas sobre a vida e que procurava aguçar a curiosidade do leitor com pequenos enigmas de fácil solução."
E após este feliz comentário, o qual eu não poderia fazer com melhores palavras, mas que, certamente, merece ser postado, retiro-me na esperança de tê-los feito curiosos por experimentar mais uma clássica novidade.


Video-curiosidades:

Em 1915, dirigido por Antonio Leal, o primeiro filme sem som e em preto e branco baseado na obra, "A moreninha".
Em 1965, a primeira telenovela baseada no livro, com Marília Pêra como Carolina.
Em 1970, mais uma adaptação do livro nos cinemas, com a nossa moreninha representada por ninguém menos que Sônia Braga.
Finalmente, em 1975, uma regravação em cores da telenovela de 1965 com Nívea Maria como a moreninha.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Esaú e Jacó", Machado de Assis

Como penúltimo livro de um dos maiores escritores da literatura brasileira - Machado de Assis - "Esaú e Jacó", lançado em 1904 é constituído de um estilo maduro e analítico e busca documentar o período em que se passa a história relatada.
Na "Advertência" colocada no início do livro, obtemos a informação de que este teria sido encontrado em meio aos sete manuscritos que o Conselheiro Aires (um dos personagens) havia deixado antes de seu falecimento. Os seis primeiros manuscritos constituíam o "Memorial de Aires", último romance de Machado de Assis; e o sétimo era "Esaú e Jacó".
O título do livro remete à história bíblica dos gêmeos que viviam em conflito. A mãe destes, Rebeca, privilegia o filho Jacó, causando assim a rixa entre os dois. Os protagonistas do nosso livro, no entanto, não possuem um motivo claro para suas divergências. Daí a expressão latina "ab ovo", ou seja, desde o ovo. Seus conflitos partem do ventre de sua mãe.

"E Javé lhe disse: 'Em seu ventre há duas nações, dois povos se separam em suas entranhas. Um povo vencerá o outro, e o mais velho servirá ao mais novo.' "
Gênesis 25:23

A obra se inicia com a visita de Natividade e Perpétua à cabocla do Castelo, uma adivinha, cuja consulta estava fora dos preceitos morais e éticos da alta sociedade em que viviam as duas damas. À parte isto, a curiosidade da mãe e da tia dos recém-nascidos sobre o futuro destes as encaminha para a cabocla. A premonição adquirida é a de que, a despeito do vasto conflito que havia de perdurar, desde o ventre, durante toda a vida dos gêmeos, eles seriam grandes. Natividade, apesar de preocupada com a rixa pouco compreensível, sai da casa da cabocla satisfeita com o resultado da "adivinhação".
O nome dos gêmeos, Paulo e Pedro, é dado pela tia dos meninos, Perpétua. Como algo do destino, a senhora escolhera o nome de dois apóstolos que pregavam de maneira oposta e tinham idéias divergentes.
Aos poucos, os meninos crescem e a profecia, no que diz respeito aos conflitos, vai se realizando. Pedro torna-se médico, Paulo, advogado. Bastante politizados, e em meio a um momento importante da política nacional, os gêmeos se filiam a partidos opostos.
Durante o regime imperial, Pedro defende o império, enquanto que Paulo, insatisfeito, luta pela república. No meio do livro, ocorre a quebra do regime e a proclamação da República, muito bem notificada por Machado, que nos traz os anseios e opiniões da sociedade da época com relação ao que ocorria.

"- É! verdade, conselheiro, vi descer as tropas pela Rua do Ouvidor, ouvi as aclamações à república. As lojas estão fechadas, os bancos também, e o pior é se não abrem mais, se vamos cair na desordem pública- é uma calamidade.
Aires quis aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria; o regíme, sim, era possível, mas também se muda de roupa sem trocar de pele. Comércio é preciso. Os bancos são indispensáveis. No sábado, ou quando muito na segunda-feira, tudo voltaria ao que era na véspera, menos a constituição."

Com o início da república, Pedro, aos poucos, aconstuma-se ao novo regime e se filia ao partido de conservação da república. Paulo, sempre indignado em busca de melhoras, filia-se ao partido que busca mudanças no regime. Eles se fazem, então, deputados de partidos opostos.
Em meio e essa euforia política, temos o outro lado da história: Flora. A moça é a típica heroína do romantismo, dentro de um livro analítico e realista, como se estivesse fora de seu lugar. Flora é a paixão de ambos os gêmeos e é também por ambos apaixonada. Paulo e Pedro não chegam a entrar em conflito direto por causa da menina, pois resolvem que quem deve escolher entre eles dois é ela. No entanto, Flora não se decide.
Outro personagem bastante marcante no livro é o Conselheiro Aires. Ele é também uma das faces do nosso narrador, tornando-se um mistério ou enigma no livro. Um personagem centrado, a quem todos os outros pedem conselhos antes de tomar decisões, ou seja, o homem fazia jus ao seu título de conselheiro. Dessa maneira, ele acompanha o sofrimento de Flora sem saber qual dos gêmeos escolher; de Natividade, buscando sempre uma maneira de fazer a paz entre os filhos; e dos próprios meninos, que ele tem como filhos seus.
Por incrível que possa parecer, dentro de um livro tão politizado, o fim da bela moça Flora, após sofrer de angústia, paixão e indecisão, é a morte do ultra-romantismo. Com o falecimento da moça, Paulo e Pedro se propõe uma primeira trégua, em nome da amada. A segunda trégua ocorre quando chega o momento da mãe dos gêmeos partir. O último pedido de Natividade é que os rapazes selem a paz e assim eles o fazem durante um ano. Após isso, a promessa parece cair no esquecimento e a rixa se torna ainda maior para o espante de todos, menos do conselheiro Aires, que tem a seguinte conversa com um deputado, seu amigo:


"— O senhor que se dá com eles diga-me o que é que os fez mudar, concluiu o amigo.

— Mudar? Não mudaram nada; são os mesmos.
— Os mesmos?
— Sim, são os mesmos.
— Não é possível.
Tinham acabado o almoço. O deputado subiu ao quarto para se compor de todo. Aires foi
esperá-lo à porta da rua. Quando o deputado desceu, vinha com um achado nos olhos.
— Ora, espere, não será... Quem sabe se não será a herança da mãe que os mudou? Pode
ter sido a herança, questões de inventário...
Aires sabia que não era a herança, mas não quis repetir que eles eram os mesmos, desde o
útero. Preferiu aceitar a hipótese, para evitar debate, e saiu apalpando a botoeira, onde
viçava a mesma flor eterna."
O livro é interessante não apenas no sentido de analisar a falta de fraternidade entre dois irmãos. É possível perceber, que, a despeito das faces idênticas, as personalidades dos rapazes eram completamente divergentes, o que não é incomum entre irmãos gêmeos. No entanto, deve-se frisar a importância histórica do livro, que relata não apenas os fatos durante a proclamação da república, mas como isso repercurtiu na população. Como toda obra machadiana, "Esaú e Jacó" é um clássico da literatura brasileira e deve ser lido não apenas para um maior conhecimento das várias faces da nossa língua, mas pela inteligência da escrita e capacidade de entreter e impressionar o leitor.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

"A hora da estrela", Clarice Lispector

Lançado em 1977, "A hora da estrela" é o livro que quebra o ciclo de inflexões intimistas, encontradas nos livros precedentes da renomada escritora brasileira de origem ucraniana Clarice Lispector. No livro, Clarice entra em uma luta consigo mesma para se ater aos fatos, evitando as reflexões e sentimentalismos, tão comuns em sua narrativa. Para tanto, ela cria um narrador, Rodrigo S. M., que, por ser homem, deveria ser mais objetivo ao contar sua história, sem "enfeitar" as palavras e sem apresentar a complexidade do ser humano. Ela buscava ser uma mera espectadora dos fatos, em vez de adentrar nas profundezas da alma de sua personagem. No entanto, o senhor Rodrigo acaba por se tornar "a si mesmo" um personagem e grande parte do livro nos expõe o processo de criação de um enredo, a partir da história do nosso narrador.
É interessante atentar para a maneira com que Clarice nos demonstra a invenção dos personagens e dos acontecimentos que irão se passar com estes. É como se os personagens já existissem e os acontecimentos de sua vida fossem quase reais. O escritor é um relator, cuja função é de encontrar em seu cérebro ambos, personagens e acontecimentos, e apresentá-los ao leitor. Nos resta a dúvida: onde irá o narrador encontrar sua história - memória ou imaginação? E eu, pelo pouco que sei sobre escritores, afirmo: em ambos. Pois um personagem é a miscelânea construída a partir da vivência e imaginação de seu criador.
Pois bem. Apesar de ser o senhor Rodrigo um dos personagens mais marcantes da narrativa, a nossa protagonista é a nordestina Macabéa. Nascida no sertão de Alagoas, fora criada pela tia beata em Maceió, onde obtera uma educação tão rígida que era castigada todas as vezes que fazia algo errado, ou melhor, todas as vezes que fazia algo.
"A menina não perguntava por que era sempre castigada, mas nem tudo se precisa saber e não saber fazia parte importante de sua vida.
Esse não-saber pode parecer ruim mas não é tanto porque ela sabia muita coisa assim como ninguém ensina cachorro a abanar o rabo e nem a pessoa a sentir fome; nasce-se e fica-se logo sabendo. Assim como ninguém lhe ensinaria um dia a morrer: na certa morreria um dia como se antes tivesse estudado de cor a representação do papel de estrela. Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes."
Após a morte da tia, a nordestina se mudou para o Rio e, com o curso de datilógrafa que a tia havia lhe proporcionado, garantiu emprego.
Dividia um quarto simples com outras moças e seu grande prazer era "aprender coisas" através do rádio relógio quando suas companheiras de quarto não estavam.
O traço mais forte de nossa personagem é o fato de ela não ter nenhum traço forte. Macabéa é uma anti-heroína, que sequer tinha consciência de existir. A autora a descreve como alguém que tem "ar de desculpa por ocupar espaço". Ela não chamava a atenção de ninguém para si. E tanto era assim, que quando seu chefe, aos gritos e humilhações, foi informá-la que estava despedida, tudo que ela soube dizer foi: "Me desculpe o aborrecimento." Mas não da maneira irônica e petulante com que falariam as moças de hoje (mais do que certas).
Era magra, o rosto cheio de panos e "até mesmo o fato de vir a ser mulher não parecia pertencer à sua vocação". 
"Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha. Não tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha. Se der para me entenderem, está bem. Se não, também está bem."

Achava que todo mundo era obrigado a ser feliz e, por isso, também o era. Macabéa era ignorante de sua própria infelicidade e, por ser assim, tão sem ... (o quê mesmo?), ela, moça de alma rala, achava que não merecia mais do que havia recebido. Ou talvez não achasse nada; simplesmente nunca tinha pensado nisso. Não era gente de ficar se perguntando "quem sou eu", "de onde vim", "para onde vou". Somente era, apesar de ser muito pouco. E vivia sua vida tão sem tempero quanto ela mesma, sem reclamar.
Certo dia, Macabéa apaixona-se por Olímpico de Jesus e eles começam a namorar. Olímpico, no entanto, sempre humilha e diminui sua namorada, mas esta, como é próprio de sua personalidade, não se importa e o ama cada vez mais. Até que Olímpico a troca por sua colega de trabalho, Glória, que é mais robusta e carnuda que Macabéa e tem "aquilo", que ela não tem. A moça também não reclama. Sofre ao seu modo, coisa que para as escandalosas é como não sofrer.
Por fim, Glória lhe indica uma cartomante. A moça se dirige a esta, que lhe faz premonições de uma vida maravilhosa que está por vir, com acontecimentos coloridos, diferentes de sua vida em preto e branco. Ao sair da cartomante, a "hora da estrela" chega para Macabéa. Todo mundo tem sua hora da estrela. O momento em que todos atentam para o fato de que você vive - ou viveu - mesmo que se esqueçam depois: é quando a morte chega. Ao sair da cartomante, portanto, a moça  é atropelada por um carro. O narrador Rodrigo, tão homem e objetivo, de repente hesita e demora-se a tirar a vida da nordestina sofrida, se enche de sentimentalismo e Clarice mostra sua face. Os curiosos, como sempre acontece nos acidentes de rua, se ajuntam em torno de Macabéa, que antes era invisível. No entanto, ninguém lhe ajuda, ninguém lhe estende a mão. E ela morre na esperança de não estar morrendo (ou essa era a esperança do narrador?), tão desamparada quanto havia estado em toda a sua vida e sonhando com o futuro de felicidade que nunca iria chegar.
"A hora da estrela" é um livro bastante curto, mas repleto de reflexões sobre a vida e as pessoas. Todos nós somos um pouco Macabéa em algum momento, nos sentindo desamparados e esquecidos pela vida. Ao mesmo tempo, devemos sempre agradecer a "vós" (ou a esse Ser para o qual Macabéa rezava por hábito, e o qual ela não fazia idéia do que seria) por não sermos tão invisíveis e ignorantes quanto nossa anti-heroína e por sabermos qual botão apertar. "Pois a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende."

Video (e áudio)-curiosidades:

Em 1985, a cineasta e roteirista Suzana Amaral adaptou a obra de Clarice, levando-o para o cinema.
No CD "Daqui pro Futuro" de Pato Fu de 2007, encontramos a música "A hora da estrela", também inspirada na obra.

domingo, 21 de novembro de 2010

"O Corcunda de Notre Dame", Victor Hugo

"Notre Dame de Paris", mais conhecida como "O Corcunda de Notre Dame", mas cuja tradução do título original é "Nossa Senhora de Paris", foi uma obra que, quando escrita em 1831 pelo grande poeta francês Victor Hugo, não tinha a intenção de chocar e emocionar com sua história real e, ao mesmo tempo, fantástica. Tinha sim o objetivo de atentar a sociedade para a conservação da catedral de Notre Dame, realizando um retorno histórico ao mundo medieval do final século XIX e dissertando sobre o modo de vida, a miséria, as diferenças sociais, dentre outros assuntos relacionados à sociedade da época. Isso nos é demonstrado ainda no prefácio, onde o autor nos fala:
"Com o tempo, rebocaram ou rasparam (ignoro qual das duas coisas) a parede, e a inscrição desapareceu. Há uns duzentos anos que é costume fazer isso nos maravilhosos templos da Idade Média. As mutilações procedem de toda parte, de dentro e de fora. O padre reboca-os, o arcediago raspa-os, vem o povo que os deita por terra."
Entre os núcleos de personagens , encontramos contrastes: o clero, o rei Luiz XI e os fidalgos se cruzam  na história com ciganos, deficientes, doentes e ladrões, os quais são representados pelo "Pátio dos Milagres", bairro que abriga os proscritos, os sem rumo e personagens importantes de nossa história, como a Esmeralda.
De fato, o personagem principal do livro não é nosso famoso corcunda, nem tampouco nenhum dos personagens que vivem a história que nos é contada. A grande protagonista do livro é o berço de nossa história, que assiste a todos os inúmeros acontecimentos e à vida de nossos personagens: a catedral de Notre Dame.
A obra relata a história de três diferentes tipos de amor. O primeiro, responsável por todas as tragédias que surgiriam posteriormente no livro, é o do arcediago Cláudio Frollo pela cigana Esmeralda. O arcediago era um homem da ciência, frio e instruído, que, mesmo que houvesse algumas vezes se interessado por outras mulheres, havia se contido, até conhecer a Esmeralda. A Esmeralda era uma morena dos olhos pretos de beleza quase divinal, que encantava a todos que a viam, como foi e o caso do arcediago. Este, não conseguindo livrar-se do amor, decidiu fazê-la morrer, como se essa fosse a única salvação para sua alma. Tentou raptá-la, com a ajuda de Quasimodo em uma noite, mas foi interceptado pelo capitão Febo de Châteaupers, que a salvou, deixando-a perdidamente apaixonada por ele.
Quasimodo, também conhecido como o corcunda de Notre Dame, obedecia a Frollo, seu mestre e senhor, pois ele o havia salvado de ser atirado a fogueira ainda bebê. Ele era cego de um olho e vesgo, era coxo e corcunda, ao que se devia seu título; a única dádiva que lhe havia sido dada, a audição, lhe havia sido tirada pelo alto ressoar dos sinos, visto que ele era o sineiro de Notre Dame. Após o incidante noturno, Quasimodo é condenado e sofre humilhação pública, além de ser terrivelmente chicoteado e maltratado. A única boa alma que lhe estende a mão em compaixão para lhe entregar um copo d'água é Esmeralda, que faz isso com piedade, porém temerosa, visto que Quasimodo é feio como um monstro. Assim surge o terceiro grande amor de nossa história: que nos traz o contraste de aparências de Quasimodo e Esmeralda.
Uma noite, o capitão Febo, aproveitando-se da paixão da bela virgem a leva para um quarto e tenta seduzí-la. Frollo, que assistia tudo às escondidas, não consegue suportar a cena e apunhala o capitão, deixando a Esmeralda como culpada do crime e condenada pela morte do capitão. No momento em que ela ia ser enforcada, momento este assistido por Frollo e Febo (que havia sobrevivido), ela é salva por Quasimodo que a leva para o grande satuário de Notre Dame, onde ela encontra asilo, visto que dentro da catedral sagrada ela não pode ser atacada. Nesse momento, apesar do horror que ela possui por Quasimodo, aos poucos ela começa a perceber sua doçura e bondade. Enquanto isso, Frollo continua dando investidas, ao passo que ela ainda suspira pelo capitão. O clímax do livro ocorre quando a catedral é atacatada pelos revoltos do Pátio dos Milagres para "salvar" a Esmeralda e saquear a catedral. Quasimodo, no entanto, pensa que eles querem enforcar a bela e, sozinho, protege a catedral da invasão. Enquanto isso, Frollo captura a Esmeralda e, como ela não aceita ficar com ele, ele a manda enforcar.
Ao início do livro, encontramos a seguinte descrição de Quasimodo: "Era efetivamente mau, porque era selvagem; era selvagem, porque era feio. Na sua natureza, como na nossa, havia uma lógica." O pobre corcunda havia, toda uma vida, sido odiado pelo simples fato de não possuir uma aparência agradável e ser deficiente. Sua mãe era a catedral, seus amigos, os sinos, principalmente, o maior sino de todos: a amada Maria. O que lhe havia sido dado de mais próximo de pai era Frollo, que o acolhera e ensinara. No decorrer do livro, após o pouco de compaixão de que lhe serve a Esmeralda, vemos em Quasimodo uma segunda face: a face da candura, da bondade e da capacidade de amar. Ainda que aos outros ele parecesse um monstro, nós o vemos como o homem doce que ele podia ser se não lhe tivesse sido entregue tanto ódio.
A Esmeralda, ainda que tivesse pena e compaixão por Quasimodo, o temia por sua aparência. Quando ele a resgata, ela se esforça para não demonstrar seu medo, mas ele, com uma alta percepção de liguagem corporal, inerente aos surdos, não se engana e tenta não aparecer em sua frente, velando-a de ângulos por onde não pode ser visto.
O sentimento que Quasimodo nutre por Esmeralda é puro, delicado e cativante. Um amor completamente altruísta, capaz de desejar a felicidade dela a qualquer preço. Em um determinado momento, a Esmeralda pede ao corcunda para trazê-la Febo e este vai em busca dele, mas o encontra com sua noiva, Flor de Lis. Quando retorna, não diz a Esmeralda o que viu. Diz simplesmente que não conseguiu trazê-lo. A Esmeralda fica realmente irritada com ele e Victor Hugo nos dá a seguinte passagem: "Deixou-a. Ela estava descontente com ele. Preferia ser maltratado a afligí-la. Guardara para si toda a dor."
Diferente do amor de Quasimodo, o amor que Frolo nutre por Esmeralda é um amor pecaminoso, amaldiçoado. Mas não somente por ele ser um padre e, principalmente, porque é um amor egoísta. Ele prefere que Esmeralda morra a ficar nos braços de outro. Frollo é, na obra, a representação do homem barroco.
Enquanto isso, Febo não possui nenhum tipo de sentimento por Esmeralda. Durante o início do livro, ele demonstra ter um desejo carnal por ela, que logo se esvai quando surgem novos interesses. Ao vê-la condenada por sua morte, ele nada faz para impedir.
E finalmente, temos o amor que Esmeralda nutre por Febo. Apesar de platônico, ela acredita ser correspondida e está, durante todo o livro totalmente entregue a seu amado, até a morte. Em um trecho do livro, Quasimodo, quando descobre o amor da bela por Febo, afirma: "Maldição! Ali está como era preciso ser! É preciso ser belo, nada mais", nos apresentando à face fútil de Esmeralda, a linda e doce donzela que não conseguia enxergar por trás da carcaça, como é até hoje. Encontramos uma referência ao contraste Quasimodo e Febo na seguinte passagem:
"Uma manhã, [Esmeralda] descobriu, quando acordou, sobre a janela dois vasos cheios de flores. Um era de cristal, belo e luzente, mas rachado. Deixara fugir a água de que o tinham enchido, e as flores que continha estavam murchas. O outro era um pote de barro, grosseiro e vulgar, mas que conservava toda a água e as flores frescas e vermelhas.Não sei se foi intencionalmente, mas a Esmeralda pegou no ramalhete murcho e trouxe-o todo dia no seio."
Durante todo o livro, Quasimodo tem de se confrontar com um dilema: salvar sua amada Esmeralda, ferindo seu mestre Frollo ou obedecer às ordens deste e deixar a donzela em suas mãos. Ao fim, o corcunda, em uma atitude impulsiva e, portanto, verdadeira, atira Frollo de cima da catedral e assiste, com lágrimas e lamentos, à morte de seu amado tutor e da belíssima jovem que roubara seu coração, suspirando ao final: "Oh! Tudo o que eu amei."
Dois anos depois, uns homens que estão desenterrando ossadas no local onde a Esmeralda havia sido enterrada encontram duas ossadas com as seguintes descrições:
"[...] encontrou-se entre essas horrendas ossadas dois esqueletos, um dos quais tinha o outro singularmente abraçado. Um desse esqueletos era o de uma mulher [...]. O outro, o que tão estreitamente abraçava este, era um esqueleto de homem. Notou-se que tinha a coluna vertebral desviada, e uma perna mais curta que a outra. Não tinha ruptura alguma de vértebras na nuca, o que provava a evidência de que não tinha sido enforcado. O homem a quem ele pertencia tinha vindo a té ali e ali tinha morrido. Quando o quiseram desprender do esqueleto que abraçava, desfez-se em pó."
Este trecho pertence ao capítulo final da obra, intitulado de "Casamento de Quasimodo".
Dramático, nostálgico, histórico, forte. Seja qual for a caracterização que se queira dar à obra, a percepção geral é que esta nos faz refletir sobre diversos temas, tanto locais e do período, quanto universais e atemporais. Algo que realmente vale a pena ser lido.


Video-curiosidades:
Foram inúmeras as adaptações do livro para o cinema, dentre elas, encontramos:
A primeira versão cinematográfica do livro, americana de 1939, dirigida por William Dieterle
Uma versão italiana/francesa de 1956, dirigido por Jean Dellanoy;
E a mais bela e conhecida versão do livro, feita pelos estúdios Disney em 1996. Eu, particularmente, tenho um carinho especial por esse filme, que considero maravilhoso. No entanto, como é feito para crianças, grandes eventos importantes na história original são modificados, o que compromete a história, diferenciando-a do livro.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

"Alice no país das Maravilhas" e "Através do Espelho", Lewis Carroll

"Alice's Adventures in Wonderland" e "Throught the Looking-Glass" são dois belíssimos clássicos da literatura infantil mundial que encantam adultos e crianças desde quando foram publicados, em 1862. É possível afirmar que "Alice no País das Maravilhas" foi o livro infantil mais detalhadamente estudado - inclusive em termos de psicanálise freudiana - e vastamente interpretado que qualquer um.
Em ambos os livros, o cenário inicial do sonho de Alice é o lugar onde ela está. Isso dificulta a capacidade da menina de definir se tudo o que aconteceu foi realmente um sonho ou não. No decorrer das histórias, Alice encontra diversos personagens, muitos dos quais recitam músicas e poemas malucos e engraçados para ela. São utilizadas também cantigas infantis inglesas da época, cujos personagens aparecem como realidade no livro, atuando como é dito em sua respectiva cantiga. Algumas criaturas se parecem com humanos, outros com cartas de baralho ou peças de um jogo de xadrez, mas mesmo os mais estranhos assemelham-se com algum objeto conhecido por Alice, como, por exemplo, um ovo. As situações mais inusitadas passam através de seus olhos e, muitas vezes, ela se comporta como uma mera observadora.
A personalidade forte de nossa protagonista aos poucos nos ajuda a definir o tipo de criança que era Alice. Essencialmente, ela era uma sensata menina de classe média com idéias convencionais sobre etiqueta. Dessa maneira, a lógica insana do País das Maravilhas e seus curiosos (e muitas vezes rudes) habitantes representavam um desafio para ela. Esse desafio se apresentava sempre que ela tentava demonstrar um pouco do conhecimento que tinha sobre o mundo real, sendo sempre ignorada ou corrigida.
Os dois livros sobre Alice, quando recontados posteriormente, tiveram suas histórias misturadas e modificadas, até para facilitar o entendimento das crianças, visto que o livro original é um pouco complexo e escrito em um inglês bastante polido.
A falta de nexo do sonho em que a menina está, assim como nos nossos sonhos, retrata algo importante da vida ou, no caso dela, da sociedade. A ligação dos fatos é feita aleatoriamente: os cenários e personagens surgem, desaparecem e transformam-se de uma maneira que só os sonhos são capazes de realizar em nossas mentes. Mas o que faz o mundo em que Alice está ser tão curioso e diferente para a menina é o fato de o sonho não ser dela. Na realidade, ele saiu da imaginação de um adulto e eventos como a "festa do chá" e o "jogo de croquete" são as representações do mundo em que os adultos viviam, cheio te costumes, hábitos e tradições.


Tratando de assuntos de adultos de forma cômica e hiperbólica, critica uma sociedade hipócrita que podemos ver no livro pelos olhos de uma criança. Temas importantes como "quem sou eu?" são abordados, tentando desmistificar o fato de nos definirmos como um nome. Da mesma maneira, a contínua mudança de estatura da menina nos faz refletir sobre o que é realmente crescer: simplesmente aumentar de tamanho ou, de fato, amadurecer. As rainhas que Alice encontra recitam frases soltas e descontextualizadas, mas importantes para nos fazer pensar. Uma passagem interessante do livro se dá quando Alice descobre que, no mundo do Espelho, passado, presente e futuro não se apresentam como os conhecemos, o que intriga enormemente a menina. 
Essa obra da literatura mundial é, portanto, interessante para todas as idades, pois, enquanto as crianças a lêem pelo puro prazer de entrar nas aventuras e inacreditáveis encontros de sua heroína, leitores adultos ficam inevitavelmente fascinados tentando desvendar qual é a verdadeira intenção de Carroll. Na verdade, o principal enigma do livro é se há ou não sentido em toda a sua extensão. Pode-se afirmar, inclusive, que essa foi uma das maiores "peças" que o autor pregou em seus leitores: até que ponto existe algo nas entrelinhas; até que ponto não há sentido nenhum nas palavras.
Mas por mais ilusória que nos pareça a fantasia do livro, nos identificamos com ela, simplesmente porque conhecermos a realidade aparentemente sem nexo dos sonhos.
Há também muitas menções, ainda que dificilmente percebidas, ao mundo da matemática. Nas entrelinhas, encontramos limites, funções, abstração e até mesmo geometria não-euclidiana! Facilmente percebidas, temos as operações básicas, como multiplicação e soma; e muita lógica matemática.
Não é à toa, entretanto, que o livro seja repleto de tantos enigmas e jogos de lógica, visto que o senhor Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido como Lewis Carrol, era um renomado matemático da universidade de Oxford. Foi condensando o contexto dos números e da lógica com o da imaginação e das palavras que ele criou uma das mais fantásticas e enigmáticas - porém criativas e interessantes - obras que a literatura infantil e até-não infantil mundial já presenciou.

É um livro pequeno, porém muito extenso para ser analisado em poucas linhas, e de interpretação difícil. Portanto, não foi possível fazer todas as considerações sobre a obra, mas o maior prazer é o de lê-la e tentar desvendar seus segredos sozinho.


Video-curiosidades:

São tantas as adaptações do livro, que é possível encontrá-las até em cinema mudo. No entanto, pela extensão e complexidade da obra, nenhuma delas segue verdadeiramente a história original e a maioria, como já foi dito, mistura a história de "Alice no País das Maravilhas" com "Através do Espelho". Em nenhuma adaptação é possível captar toda a profundidade da obra.

Os dois filmes da Disney, o primeiro em desenho, produzido em 1951 e o segundo, lançado em 2010 são uma mistura dos dois livros.

O primeiro filme é a apresentação da história de Alice da maneira mais original possível, criada para o entendimento das crianças, superficialmente penetrando o entendimento profundo dos jogos do livro.

No segundo, o diretor utilizou as idéias de Lewis para criar um roteiro completamente diferente do que se vê no livro, até pelo aspecto dramático e maduro dado ao filme. Na realidade, Tim Burton criou um filme de efeitos especiais, utilizando a imaginação do nosso renomado autor. O que é realmente aproveitável do filme são os cenários e a filmografia.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

"O Amor nos Tempos do Cólera", Gabriel Garcia Marquez

"El amor en los tiempos del cólera" ("O amor nos tempos do cólera"), publicado pela primeira vez em 1985, é um belo romance que passou a ser considerado um clássico da literatura mundial, já que conseguiu retratar o modo de vida e os costumes de toda uma população em um período de dor e perdas na América Latina: a época do cólera. O livro, que tem alguns aspectos de realismo fantástico, foi escrito pelo colombiano Gabriel García Márquez, que ganhou o Prêmio Nobel da Literatura em 1982.
As primeiras 70 páginas do livro não encantam, mas não devemos nos abalar pelas primeiras impressões. O romance conta a história de Florentino Ariza, um rapaz pobre que vai trabalhar como telegrafista para o tio e, indo entregar um telegrama na casa de um comerciante rico da cidade, acaba por se apaixonar por sua filha, a bela Fermina Daza. O casal começa a se corresponder através de cartas, com a ajuda da tia da menina, e assumem o compromisso de se casar. O pai de Fermina, ao descobrir, faz com que ela passe um ano na casa da prima Hildebranda para esquecer seu noivo, mas eles encontram uma maneira de se corresponder. Quando ela volta para casa, um dia, passeando na feira, se encontra com ele e percebe que tudo aquilo que sonhou era uma ilusão. Fermina não sente nada por ele, a não ser pena, e põe fim ao noivado. Com pouco tempo, ela casa com um médico muito famoso na cidade, que tem sido o responsável por salvar muitas pessoas do cólera. Assim começa o tormento de Florentino Ariza, que toma o casamento da amada com estímulo para sua ascensão profissional, já que resolve se tornar um bom partido para ela e decide que vai esperar até que o marido de sua amada morra, independente de quanto tempo isso leve. Paralelamente à sua busca por status profissional e financeiro, ele se relaciona com diversas mulheres, sem se deixar envolver profundamente com nenhuma. No decorrer da história, nós conhecemos as mais marcantes, que deixaram rastros em sua vida por aspectos diferentes. Sua única busca e espera, porém, é o amor da sua inesquecível Fermina. Por ela, Florentino espera 52 anos.
É impressionante como Gabriel García Márquez é capaz de nos fazer entrar na história. Desde o momento em que conhecemos os personagens até o fim do livro, nós vivemos 52 anos junto a eles, nós amadurecemos com eles. Não é qualquer escritor que consegue envelhecer, sem mediocrizar, suas criações, dando-lhes a sabedoria e maturidade de pessoas mais velhas, sem permitir que elas percam suas características originais. É fabulosa a capacidade literária do autor.

No livro, existe a colocação do amor como uma doença, com os mesmos sintomas do cólera. Um amor que sai das entranhas do indivíduo e se torna físico, real. É um sentimento apresentado em suas diversas faces, de uma maneira que poderia ser chamada naturalista, se não levássemos em conta a compostura e discrição do nosso protagonista. O amor romântico, que Florentino sente por Fermina, é retratado como o amor da cintura para cima, e o amor carnal, que permeia os inúmeros outros relacionamentos do personagem no desenrolar da obra, é o amor da cintura para baixo.
O tempo é, concomitantemente, a bruxa má e a fada madrinha da história. Do mesmo modo que ele desgasta, cansa e envelhece nossos protagonistas, ele lhes dá experiências de vida, maturidade, capacidade de amar sem medo, sem fronteiras, de aproveitar esse amor da maneira mais bela possível, já que não há mais muito tempo. Ele ajuda Florentino a encontrar uma maneira de se aproximar de Fermina sem assustá-la. O que para alguns pode parecer grotesco, como o hálito de velha de Fermina Daza beijando Florentino Ariza, é tido como uma vitória do amor, um amor que ultrapassa até as barreiras do tempo. O livro é também um protesto ao preconceito da sociedade com relação à idade de amar, representado por Ofélia, a filha de Fermina. Para o amor, não existe idade, e um amor maduro pode ser ainda mais bonito, mais romântico. A paciência e a espera de Florentino nos ensinam que a vida não precisa ser vivida com pressa e que devemos sim esperar os bons frutos do futuro, mas sem querer acelerar o tempo, porque nossos anseios vão se acabar no momento certo.
Apesar do romance, "O amor nos tempos de cólera" não é uma narrativa melosa, nem melodramática como as do romantismo. É, pelo contrário, bastante realista para uma história de amor. Os sentimentos de Fermina, por exemplo, nunca são completamente retratados, para trazer à personagem o mistério que lhe é próprio. E, ao fim do livro, não sabemos se por um momento ela amou Florentino, nem o médico com o qual se causou. Existem suposições de outros personagens sobre seus sentimentos, mas eles nunca são apresentados claramente. O amor demonstrado por Fermina é sempre apático e ela não é, definitivamente, a mocinha sensível e apaixonada da história. Parte do realismo da trama também é percebido em momentos como as viagens de barco. No ínicio do livro, Florentino faz uma viagem de barco e, nas margens do rio por onde eles navegavam, encontra-se muita natureza, crocodilos, corpos de pessoas mortas pelo cólera ao longe. Ao fim, outra viagem é feita e as florestas estão devastadas, os crocodilos morreram e, graças à cura do cólera que vinha se consolidando aos poucos, não havia mais tantas pessoas mortas pela doença.
O livro é, sem dúvida, uma obra-prima fantástica, que prende o leitor até o fim.

Video-curiosidades:
Em 2009, o livro virou um filme dirigido por Mike Newell, que, por causa da riqueza do livro, não consegue transmitir tudo que podemos inferir da leitura, mas, ainda assim, é muito interessante.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

"Orgulho e Preconceito", Jane Austen

Escrito por Jane Austen e publicado, pela primeira vez em 1813, "Pride and Prejudice" (Orgulho e Preconceito) é uma bela comédia de costumes, de enredo rico e pretensioso, que é um retrato fiel, divertido e inteligente da sociedade inglesa do século XIX.
Elizabeth Bennet é a mais centrada das cinco filhas de Mr. Bennet. Sua doce e meiga irmã Jane é sua grande amiga e confidente, que tem, inerente a sua personalidade, a capacidade de só ver o melhor em cada um. O livro se inicia com a chegada na cidade de Mr. Bingley, um rapaz bonito, rico e solteiro que deixa todas as moças e sua mães, incluindo a própria Mrs. Bennet, em euforia e excitação para conseguir um bom casamento para suas filhas. No desenrolar inicial do romance, temos a impressão de que nossos protagonistas são, na verdade, os apaixonados Mr. Bingley e Jane Bennet e podemos pensar, inclusive, que o vilão da história é o sarcástico e preconceituoso Mr. Darcy.
Elizabeth, bem como toda a cidade, logo no primeiro baile em que Mr. Darcy surge, tem uma péssima impressão de seu temperamento e personalidade e começa acusá-lo internamente de prepotente. Ela acredita que ele tem uma propensão a odiar todo mundo. Da mesma maneira, o preconceito de Mr. Darcy faz com que ele veja as pessoas daquele interior como interesseiras e mesquinhas, o que não é de fato uma falsa afirmação, em se tratando das irmãs mais novas e da própria mãe de Elizabeth. Muitos personagens surgem, no decorrer da história, para reafirmar uma possível falta de caráter e um péssimo temperamento em Mr. Darcy. Em determinado ponto da trama, no entanto, não apenas nós, leitores, mas a própria Elizabeth se dá conta de que todo o orgulho e o preconceito que ela vira em Mr. Darcy de repente podia ser percebido nela mesma com relação a ele. Sua inocência de garota de 20 anos, no entanto, a cega para o fato de que as pessoas não podem ser julgadas pelo que demonstram com suas aparências. Ela percebe que ele não é apenas um homem, educado, honesto e de caráter, como também é um homem bondoso e até solidário. Ele, por outro lado, começa a perceber as verdadeiras qualidades dela. O que eles não conseguem perceber é que dividem uma mesma linha lógica e racional de pensamento e tem tendência a encontrar defeitos na personalidade das outras pessoas, ou seja, eles são, na verdade, muito parecidos nesse aspecto. Aos poucos, Mr. Darcy e Elizabeth aprendem a superar o sentimento de ódio mútuo e, ao final, eles percebem que estão completamente apaixonados e resolvem enfrentar os preconceitos de ambas as famílias para ficarem juntos. O romance, portanto, ridiculariza a noção de "amor à primeira vista" e tenta nos mostrar que relacionamentos satisfatórios só podem se desenvolver gradualmente.

Não é à toa que Austen planejou, originalmente, entitular seu livro de "First Impressions" ("Primeiras Impressões"). O livro trata do impacto inicial que a imagem de um indivíduo pode provocar no outro. Há uma passagem em que Jane afirma o quanto Mr. Darcy tem dificuldade de demonstrar ter um bom temperamento, o que é diferente de realmente não ter um bom temperamento, como poderíamos complementar. O título original não foi adotado, pois uma escritora contemporânea, Mrs. Holford, publicou um romance com esse antes.
A obra explora os costumes da época e satiriza o comportamento fútil e interesseiro das pessoas, com uma aguda percepção, capaz de dar ao romance inglês um primeiro impulso à modernidade. A autora se utiliza de bailes, jogos de baralho, visitas, passeios diurnos e cartas para levar à interação de seus personagens e, dessa maneira, nos apresenta aos meios de socialização do período.
Austen nos coloca frente a um duelo entre as verdades universamente conhecidas da sociedade e os autênticos sentimentos humanos, ou seja, entre o conformismo e a capacidade de cada um de formular suas próprias opiniões. O choque de idéias se desdobra em uma ironia na primeira linha do livro: "É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa." E os costumes, bem como o excesso de interesse das famílias da época, vem logo a seguir: "Por muito pouco que se conheçam os sentimentos ou modo de pensar de tal homem ao entrar pela primeira vez numa vizinhança, esta verdade encontra-se de tal modo enraizada nos espíritos das famílias circundantes que ele é logo considerado como propriedade legítima desta ou daquela de suas filhas." A única maneira que as moças do período tinham de garantir um bom futuro era através do casamento, e não podemos culpá-las, pois o espaço das mulheres na sociedade era ínfimo e havia uma enorme quantidade de requisições para que uma moça de família fosse tida como um bom partido, como saber cozinhar, desenhar, cantar, tocar piano e, é claro, ter um belo dote. Podemos perceber, dentro da ironia da autora, discretas noções feministas imputadas nas entrelinhas da obra.
A mais amada obra de Austen é uma história memorável sobre a falta de veracidade das primeiras impressões, sobre o poder da razão e sobre a estranha dinâmica que envolve os relacionamentos humanos e as emoções. A leitura de "Pride and Prejudice" não deve ser feita da mesma maneira que se lê um romance contemporâneo insípido, mas prestando atenção na riqueza dos conceitos comportamentais e emocionais que existem até hoje, apesar de se apresentarem de uma outra maneira. Através de qualquer âmbito, no entanto, pode-se afirmar que o livro é espetacular.

Video-curiosidades:
Em 1940, surge a primeira adaptação cinematográfica do filme, estrelando Greer Garson e Laurence Olivier.
O filme "O Diário de Bridget Jones" é uma adaptação moderna, estrelando Renne Zellweger como Elizabeth e Colin Firth como Mr. Darcy.
Finalmente, em 2005, sobre a direção de Joe Wright e com a indicada ao Oscar Keyra Knightley, como Elizabeth e Matthew Macfaydyen, como Mr. Darcy, uma adaptação pela qual eu tenho um carinho especial.