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domingo, 2 de outubro de 2011

"Cem Anos de Solidão", Gabriel Garcia Márquez

Publicado em 1967, "Cien Años de Soledad" ("Cem anos de solidão") é o segundo e uma das mais aclamadas obras do ganhador do prêmio Nobel da literatura, Gabriel Garcia Márquez.
Com a mesma sintonia realística do seu último romance, já aqui postado, "El amor en los tiempos del cólera", e, no entanto, possuindo um caráter hiperbólico a ponto de aprofundá-lo na fantasia, o livro pode ser interpretado como uma síntese da história da humanidade.
Conta a história de uma família, de geração em geração, desde sua chegada e fundação da remota e fictícia cidade chamada Macondo até sua completa extinção, com a morte dos últimos membros da família.
O romance é muito rico em detalhes e buscar interpretá-lo iria reduzir o gigantesco leque de perspectivas, descobertas e mensagens que este transmite. Há um grande número de personagens, cujas histórias se entrelaçam, surgem e desvanecem a cada geração. Nossos muitos protagonistas (e, ao mesmo tempo, coadjuvantes) possuem os caráteres mais diversos. Uns são caricaturas dos seres humanos que nós conhecemos, outros são tão diferentes de qualquer pessoa já vista que é difícil acreditar que exista alguém assim. Mas, como é comum das famílias, percebemos um estereótipo nos seus integrantes, traços hereditários que, de uma maneira ou outra acabam por convergir em um ponto forte na personalidade da grande maioria: a solidão. É aí que encontramos a justificativa para o título de um livro que retrata a história de uma família tão grande que, em todas as gerações, possui muitos componentes (com exceção das gerações finais) convivendo juntos, inúmeras festas e grandes banquetes.
É um livro que apresenta os devaneios do homem, desde a lúcida loucura do primeiro José Arcadio Buendía até a história de Rebeca, a órfã que comia areia e cal de paredes.
As marcas de sofrimento das pessoas tornam-se físicas, palpáveis, fazem com que elas se tranquem em um mundo só delas. São muitos os exemplos dessa afirmação, mas a primeira Amaranta, que carrega eternamente uma atadura preta representativa de sua tristeza pela morte de Pietro Crespi é uma boa amostra.
Uma coisa torna-se vulgar ao leitor na narrativa, não por seu significado real, mas por sua naturalmente constante repetição no decorrer de cem anos: a morte.
A existência da família toma um caráter de parábole invertida (permita-me, matematicamente, afirmar), visto que inicia-se de um nada, aos poucos enchendo-se de glórias, atinge seu auge em determinado ponto, onde todos tomam conhecimento de sua existência, e volta a decair, entrando no esquecimento.
Um ponto muito forte que o livro aborda e muito me interessou é o fato de que certos acontecimentos que provocaram um extermínio de três mil homens na cidade são, através de artimanhas políticas, completamente apagados da memória da população e os poucos que conhecem e afirmam a ocorrência real dos fatos são tidos como loucos. Os livros de geografia e histórica desconhecem os fatos, o que acarreta na ignorância também de gerações futuras. Essa passagem é extremamente verossímil a qualquer realidade da humanidade, em qualquer tempo.
A passagem a seguir não é destacada por mim, mas por minha paixão pela literatura, comum à do personagem que a compõe.
"Em compensação, não houve poder humano capaz de persuadi-lo a não levar os três
caixotes quando regressou à sua aldeia natal, e soltou impropérios cartagineses contra os inspetores da estrada de ferro que tentavam mandá-los como carga, até que conseguiu ficar com eles no vagão de passageiros. “O mundo terá acabado de se foder”, disse então, “no dia em que os homens viajarem de primeira classe e a literatura no vagão de carga.” Isso foi a última coisa que o ouviram dizer."
Abaixo, apresento uma árvore genealógica da família (que não está com uma visualização muito boa, mas é só clicar na figura), que seria de grande ajuda para melhor localização dos fatos e dos personagens durante a leitura do livro:
Ficheiro:Buendia.gif
Dentre tantas outras artimanhas, o livro apresenta as evoluções tecnológicas de um centenário, bem como suas involuções, como já afirmei com o comparativo da parábola. A história inicia-se quando as coisas não possuíam sequer um nome e passa pela chegada do telefone.

"O público, que pagava dois centavos para partilhar das vicissitudes dos
personagens, não pôde suportar aquele logro inaudito e quebrou as poltronas. O alcaide, por insistência do Sr. Bruno Crespi, explicou num decreto que o cinema era uma máquina de ilusão que não merecia os arroubos passionais do público. Diante da desalentadora explicação, muitos acharam que tinham sido vítimas de um novo e aparatoso negócio de cigano, de modo que optaram por não voltar ao cinema,considerando que já tinham o suficiente com os seus próprios sofrimentos para chorar por infelicidades fingidas de seres imaginários. Alguma coisa de semelhante aconteceu com os gramofones de manivela que as alegres matronas da França trouxeram, em substituição aos antiquados realejos, e que tão profundamente afetaram por algum tempo os interesses da banda de música. No princípio, a curiosidade multiplicou a clientela da rua proibida, e soube-se até de senhoras respeitáveis que se disfarçaram de malandro para observar de perto a novidade do gramofone, mas o observaram tanto e de tão perto que muito rapidamente chegaram à conclusão de que não era um moinho de brinquedo, como todos pensavam e como as matronas diziam, mas um truque mecânico que não podia se comparar com uma coisa tão comovedora, tão humana e tão cheia de verdade cotidiana como uma banda de música. 
 [...] Era como se Deus tivesse resolvido pôr à prova toda a capacidade de assombro e mantivesse oshabitantes de Macondo num permanente vaivém do alvoroço ao desencanto, da dúvida à revelação, ao extremo de já ninguém poder saber com certeza onde estavam oslimites da realidade"

O último personagem a desaparecer do mapa é Aureliano Babilônia. Seu sobrenome, acredito eu, como tudo nos livros do aclamadíssimo Gabriel, não é um mero acaso. Ele remete aos Jardins da Babilônia, dos quais tanto escutamos falar e, no entanto, não há evidências de sua existência.
O capítulo final do livro é, com absoluta certeza o mais interessante, talvez por ser mais explicativo. Ele é constitui a parte feliz da história de Aureliano da Babilônia, fazendo uma retrospectiva de todos os contextos marcantes da família (que não são parcos) e decifrando o enigma dos pergaminhos deixados por Melquíados (cigano que surge logo no início da obra e toma grande importante em toda sua duração por causa de seus ensinamentos).
"Naquele Macondo esquecido até pelos pássaros, onde a poeira e o calor se fizeram tão tenazes que dava trabalho respirar, enclausurados pela solidão e pelo amor e pela solidão do amor numa casa onde era quase impossível dormir por causa do barulho das formigas ruivas, Aureliano e Amaranta Úrsula eram os únicos seres felizes, e os mais felizes sobre a terra.
 [...]
Entretanto, as notícias se foram fazendo pouco a pouco tão incertas, e tão esporádicas e melancólicas as cartas do sábio, que Aureliano se acostumou a pensar neles como Amaranta Úrsula pensava no marido, e ambos ficaram boiando num universo vazio, onde a única realidade cotidiana e eterna era o amor 

 [...]
Muitas vezes foram acordados pelo tráfego dos mortos. Ouviram Úrsula lutando contra as leis da criação para preservar a estirpe, e José Arcadio Buendía procurando a verdade quimérica dos grandes inventos, e Fernanda rezando, e o Coronel Aureliano Buendía seembrutecendo com os enganos da guerra e os peixinhos de ouro, e Aureliano Segundo 
agonizando de solidão no aturdimento das farras, e então aprenderam que as obsessões dominantes prevalecem contra a morte e tornaram a ser felizes com a certeza de que eles continuariam a se amar com as suas naturezas de fantasmas, muito depois de que as outras espécies de animais futuros arrebatassem dos insetos o paraíso da miséria que os insetos estavam acabando de arrebatar dos homens."
A obra entrelaça revoluções e fantasma; incesto, corrupção e loucura, tratando tudo com uma naturalidade inerente somente ao realismo fantástico, ao qual pertence. 

Nas notas da tradutora, podemos encontrar: "A importância contrapontística existencial dos  insetos no  romance é facilmente verificável. Basta lembrar as borboletas amarelas de  Mauricio Babilonia, os escorpiões que rondavam o banho de Meme e de Rebeca, a  entomologia  de Gastón, as formigas ruivas decisivas neste capítulo final, as sanguessugas que quase matam Úrsula , a mordida de  escorpião  que deixa Arnaldo de Vilanova impotente etc... "

Coincidência ou não, minha edição de "Cem Anos de Solidão" é o único livro que possuo que está sendo carcomido pelas traças.
De estilo único e excêntrico, esta obra, que edifica-se entre as mais importantes da literatura latino-americana, é uma leitura mais que prazerosa, surreal.


Acredito que um filme não conseguiria contemplar com louvor as inúmeras tramas e enlaces desta obra magnífica.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

"Harry Potter", Joanne Kathleen Rowling

Este foi um post que nunca pensei escrever. Sete livros, inúmeras histórias. Tentar resumí-las seria simplicá-las. Não tenho a capacidade de relatar o poder das aventuras vividas por Harry Potter, Rony Weasley e Hermione Granger sem retirar o encanto que envolve toda a trama. Minha admiração pela escritora britânica Joanne Kathleen Rowling após a criação de personagens tão fantásticos e histórias tão misteriosas e repletas de amor é inestimável.
A série que encantou milhares de crianças e adultos do mundo todo foi iniciada em 1997, com "Harry Potter e a Pedra Filosofal; em 1998, lançou-se "Harry Potter e a Câmara Secreta"; em 1999, "Harry Potter e o Prisioneito de Azkaban"; em 2000, "Harry Potter e o Cálice de Fogo"; após três anos de espera, "Harry Potter e a Ordem da Fênix"; em 2005, "Harry Potter e o Enigma do Príncipe"; e, finalmente, em 2007, "Harry Potter e as Relíquias da Morte".
O mistério e a aventura ornamentam o livro, requisitando a atenção do leitor e sua espera impaciente pelas obras subsequentes. Mas entre tantas batalhas, tantas lutas contra o mal, tanta hipocrisia, falsidade, tantas notícias discrepantes da realidade, influência da mídia, ambição e preconceito; entre tantos males da nossa humanidade tão bem expostos no livro e tão presentes na realidade dos personagens, eis que surge uma sucessão de valores inestimáveis que as pessoas parecem ter perdido no decorrer dos anos: a lealdade, a amizade, o amor, a honestidade, a coragem, a esperança, a perseverança, a fé. É essa a real magia do livro. Não são os poderes e os feitiços que vencem a força do mal, e sim os sentimentos honrosos, o valor que se dá aos amigos, à família. Em muitas vezes, nossos personagens se encontram numa encruzilhada, mas sempre fazem a escolha de seguir o caminho do bem. Há também uma relação de ajuda mútua, de não permitir a corrupção do outro quando este fraqueja, de estar lá em todos os momentos, bons ou ruins. O crescimento em termos de personalidade e caráter e a responsabilidade moral criada pelos personagens é norte para nos guiar (sim, a nós, que estamos vendo tudo à distância) na estrada certa.
No primeiro filme, os três queridos mosqueteiros

Os livros amadurecem junto com seus leitores, em uma relação de confidência e aprendizado contínuos. Nos sentimos tão próximos de Harry, Rony e Hermione, quanto se estivéssemos vivendo a mesma realidade deles. Eles são os amigos que qualquer um gostaria de ter.
É impossível para mim falar de Harry Potter sem emoção, como uma mera expectadora, como faço com os outros livros, por mais maravilhosos que sejam. Afinal, essa série de obras magníficas tocou a alma da criança que fui e, por isso, deixou marcas concretas na pessoa que sou.
Por mais que o queiram retratar como um livro infantil, misturando-o ao leque de bestsellers infantis do mundo de hoje, não existe comparação entre Harry Potter e esses tantos outros livros de aventura que surgem. É inestimável a quantidade de valores que o livro transmite. Não é apenas bem elaborado, é um livro que parece estar fora do contexto de livros de sua época: é especial. Como se a autora buscasse, nos levando a uma realidade totalmente nova e desconhecida, em um mundo de bruxarias do bem e do mal, voltar no tempo para dar nascimento a uma história que deve ser deixada junto a obras que somente em outros tempos ouviu-se falar. Esses livros devem sim figurar entre os grandes escritos da humanidade, como poucos da atualidade.
Harry com a linda Edwiges, por quem eu ( e comigo, acredito, milhares) tanto sofri.

Nenhum livro da série supera o outro. Alguns divergem entre si pelo fato de serem mais aventura ou mais mistério, além das muitas outras definições que podemos lhes dar. Em todo caso, eles são compatíveis com a mentalidade da principal geração que os lê. Há um salto de três anos na publicação do quarto livro em relação a do terceiro. Em minha visão, isso deve ao fato de haver a necessidade de uma maior maturidade dos leitores para absorverem ou mesmo "sobreviverem" (se me derem a permissão de um exagero) aos acontecimentos do quarto livro.
 Comecei a ler aos 8 anos e fiquei até os 11 na esperança de receber a carta de Hogwarts. As histórias e acontecimentos de cada livro já não são uma constante em minha cabeça, afinal, são muitos. No entanto, quando lembro desses livros tão queridos, desses personagens tão amados (por mim e milhares de pessoas de todo o mundo), o que fica são as emoções que eles foram capazes de me proporcionar, a palpitação do coração, as lágrimas, as alegrias que cada página me trazia, além de uma saudade enorme e uma espera constante que, num passe de mágica, um outro livro surja para que eu possa penetrar novamente nesse mundo tão fantástico e maravilhoso e, quem sabe, até ajudar Harry, Rony e Hermione a salvar o mundo dos bruxos e dos trouxas mais uma vez.
No último e tão esperado filme

Video-curiosidades:

Apesar de não ser necessário, deixo grafada a série de filmes que adaptou os livros para o cinema.
Foi feita a adaptação cinematográfica de "Harry Potter e a Pedra Filosofal em 2001; em 2002, lançou-se "Harry Potter e a Câmara Secreta"; em 2004, "Harry Potter e o Prisioneito de Azkaban"; em 2005, "Harry Potter e o Cálice de Fogo"; em 2007, "Harry Potter e a Ordem da Fênix"; em 2009, "Harry Potter e o Enigma do Príncipe"; em 2010, "Harry Potter e as Relíquias da Morte", parte 1 e, finalmente, em 2011, o grand finale: "Harry Potter e as Relíquias da Morte", parte 2, que é o que me leva a escrever o post, visto que agora o encanto de esperar por Harry Potter só restou no coração.
Para os amantes do nosso lindo bruxinho, por vezes, os filmes foram indignantes. Afinal, como podem retirar uma cena tão magnífica ou tão explicativa ou tão necessária para o entendimento da história como aquela ou aquela outra? Bom, o cinema nem sempre é perfeito e é muito difícil transformar até 700 páginas ou mais em duas horas de filme. Mas devo afirmar que a maneira como eu imaginava Hogwarts e o trem de Hogwarts, dentre tantas outras coisas, a partir da descrição de Rowling, é EXTREMAMENTE semelhante ao filme. E nesse aspecto, portanto, eu o acho bem fiel. Se há uma coisa que os filmes souberam captar é a iluminação meio dark e misteriosa da escola, bem como a caracterização dos personagens, principalmente na personalidade (eu bem que achava que Harry devia ser um pouquinho mais alto, mais magro, rosto mais fino e olhos um pouquinho mais verdes, mas tudo bem). Digamos que, nos filmes, quem roubou mesmo a cena foi Hermione, o que não é prejuízo para nenhum dos outros atores, que também desempenharam seu papel com glória, principalmente depois de uma maior maturidade. Como na maioria das vezes, portanto, eu dou preferência à leitura dos livros, no entanto, os filmes também tem sua poção de mágica.


Reflexão especial: Por que somos nós os trouxas?


Lord Voldemort é a personificação do ódio, do rancor, do preconceito, da inveja, da deslealdade, da traição, da mentira: personagens que figuram em nossa realidade por escolha nossa. Por vezes, preferimos até não nomeá-los, para não ferirmos a nós mesmos, admitindo nosso lado mal. No entanto, precisamos parar de chamá-los "Você-Sabe-Quem" e aceitarmoss que temos, sim, sentimentos ruins, lutando contra eles a partir de então. São nossas ESCOLHAS que nos tornam quem realmente somos, como aprendemos com o Chapéu Seletor. Somos trouxas, porque temos medo de mudar essa realidade de individualismo e corrupção, de picuinhas, fofocas, maldades, porque podemos viver num mundo de paz e de amor, mas nos sufocamos em nossos próprios desejos e paramos de olhar para o outro com repeito. Não são as coisas materiais que tocam nosso coração, mas os sentimentos puros e verdadeiros. Poderia-se divagar um pouco mais sobre o assunto, dada a vastidão que "Harry Potter" nos oferece com suas metáforas extremamente apropriadas. De qualquer maneira, acho que chamar-nos trouxas foi uma crítica muito bem aplicada.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"O Guarani", José de Alencar

"O guarani", primeiro romance histórico-indianista do renomado escritor brasileiro José de Alencar, foi publicado pela primeira vez em 1857, sob a forma de folhetim no Diário do Rio de Janeiro, o que era muito comum no péríodo. A obra expõe a vida dos colonos e seu relacionamento com os indígenas nos primeiros tempos de Brasil.
O livro se inicia com a descrição da casa onde D. Antônio Mariz, fidalgo português, viera morar com sua família: sua esposa D. Lauriana, seus filhos D. Diogo e Cecília e Isabel, sua sobrinha que, como saberemos no decorrer do livro, é filha de D. Antônio com uma indígena.
Na vida dessa família, se colocam outros persnagens por força das circunstâncias: o jovem cavaleiro, Álvaro de Sá, a quem Cecília havia de ser prometida; o ambicioso e devasso, Loredano; e um índio goitacá, que havia salvado a vida de Cecília e por ela criara uma espécie de adoração e devoção, nosso protagonista, Peri.
Apesar de selvagem, Peri era honrado, de coração grande, forte, inteligente e destemido. Possuía todas as características inerentes a um herói e é a autêntica expressão da nacionalidade brasileira. Por obrigação e descendência, deveria ser o líder da tribo dos goitacás, mas, no dia em que vê sua senhora Ceci, o amor não mais o permite sair do lado dela. No início, Cecília o reprime e o afasta por medo, no entanto, aos poucos, começa a aceitá-lo como seu escravo e torna-se amiga dele, em agradecimento às tantas vezes que o índio iria salvar sua vida no decorrer do livro. Por causa do tratamento que Cecília lhe dá inicialmente, Peri começa a chamá-la de Ceci, que é um verbo da língua guarani que significa magoar, doer. Além desta inteligente relação, outros pensamentos e sentimentos do índio nos fazem crer que este possui uma alma de poeta, um poeta das matas brasileiras.
Os três personagens já citados (Peri, D. Álvaro e Loredano) ficam encantados, de maneiras diferentes pela doce e meiga Cecília. D. Álvaro tem por ela um amor no sentido mais puro da palavra, Loredano sente uma paixão ardente e Peri, como anteriormente notado, possui um amor devotivo por sua senhora.
No decorrer do livro, o coração de D. Álvaro é conquistado pelo amor de Isabel, mas sua união se dá apenas quando estão para morrer.
São muitos os fatos que se passam na obra, mas o clímax do livro ocorre com uma revolta dupla contra a família de D. Antônio, da parte de seus homens, liderados por Loredano e da parte dos índios aimorés, após a morte acidental, provocada por D. Diogo, de uma índia da tribo. Para salvar Cecília, Peri precisa partir com ela, mas, antes disso, necessita de ser batizado como cristão. Após a partida do índio e da donzela, ao longe, se vê a explosão da casa. Durante dias, Peri e Cecília rumam sem destino. Peri sempre com o mesmo cuidado e devoção por sua senhora.

"- Mas tu deves ter necessidade de repouso! Há tão pouco tempo que adormeceste!
- O dia vai raiar; Peri deve velar sobre sua senhora.

- E por que tua senhora não velará também sobre ti? Queres tomar tudo; e não me deixas nem mesmo a gratidão!

O índio lançou um olhar cheio de admiração a menina:
- Peri não entende o que tu dizes. A rolinha quando atravessa o campo e sente-se fatigada, descansa sobre a asa de seu companheiro que é mais forte; e ele que guarda o seu ninho enquanto ela dorme, que vai buscar o alimento, que a defende e que a protege. Tu és como a rolinha, senhora.
Cecília corou da comparação ingênua de seu amigo.
- E tu? perguntou ela confusa e trêmula de emoção.
- Peri... é teu escravo, respondeu o índio naturalmente.
A menina abanou a cabeça com uma inflexão graciosa:
- A rolinha não tem escravo.
Os olhos de Peri brilharam; uma exclamação partiu de seus lábios:
- Teu...
Cecília com o seio palpitante, as faces vermelhas, os olhos úmidos, levou a mãozinha aos lábios de Peri, e reteve a palavra que ela mesma na sua inocente faceirice tinha provocado.
- Tu és meu irmão! disse ela com um sorriso divino.
Peri olhou o céu como para fazê-lo confidente de sua felicidade."


Em certo ponto, são surpreendidos por uma forte tempestade, que se transforma em dilúvio. Abrigados no topo de uma palmeira, Cecília espera pela morte. Peri conta, então, a ela uma lenda indígena, segundo a qual Tamandaré e sua esposa se salvaram de um dilúvio abrigando-se na copa de uma palmeira desprendida daq terra. Ao término da enchente, eles desceram da palmeira e povoaram a Terra. As águas sobem, Cecília se desespera, mas a lenda de Tamandaré parece que irá se repetir.
Demonstrando uma certa semelhança com a cultura católica (o dilúvio e a arca de Noé), há a alusão a um silogismo religioso com as crenças indígenas. A sobrevivência dos dois diante da morte dos outros os apresenta, portanto, como os "pais" da raça brasileira que viria a ser criada, fundamentada no índio e no branco (com a exclusão do negro, pois, no período, este era considerado com forte preconceito e ainda não se admitia sua participação na formação do Brasil).
Cecília, loura dos olhos azuis, tenra e meiga, comparada por Peri a uma imagem de Nossa Senhora, é a personificação romântica da raça branca. É o ideal feminino do romantismo, associada a figuras incorpóreas ou assexuadas: anjo, criança, virgem. Sua prima Isabel é o oposto desta idealização; é a representação da voluptuosidade, do desejo. Com relação a Ceci, as referências ao amor físico (mesmo o de Loredano) se dão de maneira indireta, sugestiva, superficial; exatamente o contrário do que ocorre com Isabel.  
Na obra, o naturalismo é eminente; há uma grande exaltação da fauna e flora brasileiras do início da colonização. Também é muito forte a presença do preconceito dos colonos com relação aos nativos.
Apesar do romantismo excessivo do livro, do detalhamento exacerbado da natureza, de sua linguagem poética e, por vezes, eufemista, metafórica e hipérbólica, que pode não agradar leitores que tem pressa pelo desenrolar da trama, é de uma história extremamente interessante. Mesmo que a leitura da obra seja iniciada por um motivo ou outro que não o romance em si, no decorrer do livro, nos infiltramos nas histórias, ansiamos pelas próximas páginas, nos perdemos nas florestas de um Brasil colonial tão pouco civilizado. Corremos e caçamos com Peri, ansiamos desesperadamente, com Ceci, a volta do índio, esperando que ainda esteja vivo.
José de Alencar é capaz de nos fazer penetrar em suas histórias mais diversas, por mais distantes que elas sejam de nossa realidade. Essa é a beleza de escritores como ele: a capacidade de fazer com que o leitor, em qualquer sociedade, em qualquer período de tempo, viva intensamente uma história totalmente fora de seu contexto.
É um livro cuja leitura é indispensável para quem deseja conhecer os primórdios da civilização brasileira, sua flora e fauna, de uma maneira romântica e extremamente penetrante.

Video-curiosidades:

O Guarani foi filmado pela primeira vez em 1911. Adaptações cinematográficas surgiram também nos anos de 1916, 1920, 1026, 1950 e 1079. Sua adaptação mais recente, com Márcio Garcia, Glória Pires, Marco Ricca, dentre outros, foi filmada em 1996.
Em 1991, Angélica foi Ceci em uma minissérie apresentada pela TV Manchete.

sábado, 2 de julho de 2011

"O Pequeno Príncipe", Antoine de Saint-Exupéry

Escrito pelo francês Antoine de Saint-Exupéry e publicado em 1943, "Le Petit Prince" é uma das obras clássicas mais belas e tocantes da literatura mundial. Apesar de ser escrito para crianças, tem a intenção de atingir as pessoas grandes. Posso afirmar, inclusive, que sou parte da manifestação desta múltipla interpretação que o livro oferece, pois o li na infância e, recentemente, o reli, criando, a cada leitura, uma perspectiva diferente das cenas e acontecimentos. Um livro multifacetado, que apresenta uma interpretação embasada no que está escrito na alma de seu leitor. 
Mas como poderia o autor previamente conhecer o interior de seu público de milhares, de todas as épocas posteriores a ele, de todos os pensamentos? É exatamente esta a mágica da obra, é por isso que ela encanta pessoas do mundo inteiro, de todas as idades: "O Pequeno Príncipe" parece ter sido escrito para cada um de nós.
Logo no início, nos é apresentada uma metáfora: um desenho que pode parecer um chapéu e, no entanto, é uma jibóia que engoliu um elefante. Só aqueles que não perderam ainda sua alma infantil podem decifrar o enigma do que, de fato, representa o desenho. Da mesma maneira, só aqueles que ainda são capazes de possuir sentimentos puros, verdadeiros são capazes de compreender as inúmeras lições do pequeno príncipe, refletir sobre suas ações de acordo com as palavras dele e guardar tudo isto no coração.
Postarei algumas passagens do livro que achei de grande interesse interpretativo. Não farei sua interpretação para que os leitores busquem perceber o que está escrito nas entrelinhas.
A história se inicia com seu narrador, que cai em pleno deserto do Saara com seu avião. E, após dias tentando consertá-lo sem sucesso, encontra o pequeno príncipe. Não se sabe como uma criança como aquela pode parar em pleno deserto do Saara, mas quando o príncipe começa a contar sua história, começamos a compreender. Ele vinha de um asteróide pequeno, B612, onde vivia com uma flor. A flor era arrogante e orgulhosa e, no entanto, o principezinho a amava. Todos os dias ele tirava as larvas de sua flor, mas deixava vivas duas ou três.
"É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas."
Em seu planeta, ele tinha problemas com raízes de baobás, que ele tinha de retirar todos os dias. Por isso, precisava de um carneiro que comesse esses baobás.
"Fiz notar ao principezinho que os baobás não são arbustos, mas árvores grandes como igrejas. E que mesmo que ele levasse consigo todo um rebanho de elefantes, eles não chegariam a dar cabo de um único baobá.
[...] 
Mas notou, em seguida, sabiamente:
- Os baobás, antes de crescer, são pequenos."
Antes de chegar à terra, o principezinho havia passado por vários outros planetas, onde encontrou pessoas as mais diversas.
O primeiro deles foi o Rei, que vivia em um asteróide muito pequeno e pensava governar sobre o Sol e as estrelas. Para ele, todos eram súditos, pois assim é para os reis. No entanto, ele possuía razões coerentes para acreditar que tudo que ele ordenava era cumprido.
"É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que se lance ao mar, farão todos uma revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis."  
E entre essas ordens razoáveis estava, por exemplo: "Que o Sol repouse durante o pôr-doSol".
O rei queria que o principezinho ficasse em seu planeta, tornando-o juiz. No entanto, o planeta, à excessão da presença do rei, era deserto.
 "- Tu julgarás a ti mesmo, respondeu o rei. É o mais difícil . É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar aos outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro sábio."
No segundo planeta que visitou, o pequeno princípe encontrou um vaidoso, que achava que todos eram admiradores, pois assim é para os vaidosos. Sua alegria se dava em aplausos e elogios. A única coisa que ele almejava era ser admirado.
No terceiro planeta, o principezinho conheceu um bêbado que bebia por vergonha... de beber. E aqui a obra não trata somente da bebida, mas da incoerência humana.
No quarto planeta, conheceu um homem de negócios que vivia a contar as estrelas, pois pensava que as possuía. Mas qual a utilidade de possuir coisas somente para contá-las. O principezinho lhe disse:
"Eu, disse ele ainda, possuo uma flor que rego todos os dias. Possuo três vulcões que revolvo toda semana. Porque revolvo também o que está extinto. A gente nunca sabe. É últil para meus vulcões, é útil para minha flor que eu os possua. Mas tu não és útil às estrelas..."
No penúltimo planeta, conheceu um iluminador de lampadas. O primeiro personagem que realmente possuía um trabalho útil. No entanto, seu planeta girava cada vez mais rápido e cada vez mais rápido ele precisava acender e apagar as lâmpadas. Havia um tempo em que este serviço era realmente coerente, visto que o tempo entre o amanhecer e anoitecer era longo. Neste tempo, foi criado um regulamento que o iluminador seguia até então. Ele representa o conservadorismo e a alienação. É, em sua simplicidade, um dos personagens mais representativos do livro.
Por fim, ele visita o planeta de um geógrafo que não conhece seu próprio planeta, pois "um geógrafo é  muito importante para estar passeando". Por isso, ele precisa de exploradores, que não existem em seu planeta. Ele representa as pessoas que precisam da narração de outras para conhecer as coisas, enquanto que para o principezinho é necessário esforço para conhecer as coisas.
Já na terra, o príncipe conhece uma raposa e então se dá o diálogo mais belo e conhecido do livro.
"-Os homens,disse a raposa,têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem. Tu procuras galinhas?
-Não,disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida,disse a raposa.Significa "criar laços...".
-Criar laços?
-Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
-Começo a compreender,disse o principezinho...Existe uma flor...eu creio que ela me cativou...
[...]
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa nenhuma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa nenhuma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estaria inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.- Que é um rito? perguntou o principezinho.- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. 
[...]Assim, o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada.
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo. 
[...] E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa... "
Após este diálogo, não há condições de tecer comentários.
Ao final, para retornar a seu planeta, o príncipe pede a uma cobra que o morda. Ao aviador, ele parece estar morrendo. O príncipe, antes se explica:
"Tu compreendes. É longe demais. Eu não posso carregar esse corpo. É muito pesado."
Deste trecho, podemos também retirar um leque de interpretações, inclusive espirituais e religiosas, as quais deixarei para os leitores.
O enigma final sobre a morte do pequeno príncipe nos faz refletir: dependendo de nossa capacidade de ver o lado bom das coisas e imaginar, consideramos o principezinho morto ou não. É a velha história de ver o copo meio cheio ou meio vazio. Quando desconhecemos o fim da história, cabe ao nosso otimismo fazer o fim feliz ou triste.
Temo que meus comentários sejam parcos e pobres diante da vastidão de interpretações e lições que a obra fornece. Se há um conselho, porém, que posso lhes dar; se há um livro, dentre todos, que merece ser lido e gravado no coração, "O Pequeno Príncipe" é este.

Obs.: Na maior parte das edições do livro e nesta postagem, as aquarelas são do autor.

Video-curiosidades:

Em 1974, foi lançado o musical "The Little Prince".
Na década de 80, uma série chamada "As aventuras do pequeno príncipe" surgiu na TV.
Uma nova série de desenhos animados já foi lançado e está fazendo sucesso em outros países.
São diversas as adaptações deste livro e a escolha destas três para citar foi aleatória, visto que eu não tive contato com nenhuma delas. No entanto, o livro é insuperável.

sábado, 4 de junho de 2011

"A Menina que Roubava Livros", Markus Zusak

Para dar sequência a série de "best-sellers" da atualidade, exponho um livro muito tocante e bem elaborado, outra excessão à minha regra de que os novos autores publicam livros vazios.
"The Book Thief", escrito por Markus Zusak e publicado em 2006, é um romance contemporâneo, que retrata a vida numa Alemanha pobre durante a Segunda Guerra Mundial de uma maneira apaixonante e sutilmente trágica.
O livro é narrado pela morte, que nos conta a história de Liesel Meminger, uma menina que atravessou sua vida três vezes e conseguiu, dessa maneira, ganhar a afeição da colhedora de almas.

"É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas: 
* Uma menina 
* Algumas palavras 
* Um acordeonista 
* Uns alemães fanáticos 
* Um lutador judeu 
* E uma porção de roubos 
Vi três vezes a menina que roubava livros."
O primeiro encontro das duas se dá no dia da morte do irmão de Liesel, durante uma fuga que ela fazia com sua mãe. Nesse dia, nossa ladra inicia sua série de roubos de livros, roubando o "Manual do Coveiro", depois do enterro de seu irmão. A mãe da menina, comunista e fugitiva, leva ela para viver na rua Himmel, onde era mais seguro. O casal Hubberman fica responsável de cuidar da menina. São pessoas de vida simples, mas que, ao longo do tempo, ensinam a Liesel diversas lições sobre a vida, a solidariedade e o amor verdadeiro. Hans, o pai adotivo de Liesel, cria um vínculo muito forte com a menina, vínculo este formado através da paixão pela leitura. Outra forte amizade feita pela garota é com seu vizinho, Rudy Steiner. A princípio, os dois não se davam muito bem, mas, como é comum das histórias, aos poucos eles vão adquirindo sentimentos muito fortes um pelo outro, o que poderia vir a tornar-se mais que amizade, não fosse a morte de Rudy ainda bastante jovem. Confesso que este personagem me fascina de uma maneira que não consigo explicar. Mas, ao que parece, não é só a mim:

"E não sou muito boa nessa história de consolar, especialmente quando tenho as mãos frias e a cama é quente. Carreguei-o  com delicadeza pela rua destroçada, com sal nos olhos e o coração mortalmente pesado. Observei por um instante o conteúdo de sua alma, e vi um menino pintado de preto, gritando o nome de Jesse Owens ao cruzar uma fita de chegada imaginária. Vi-o afundado até os quadris em água gelada, perseguindo um livro, e vi um garoto deitado na cama, imaginando que gosto teria um beijo de sua gloriosa vizinha do lado. Ele mexe comigo, esse garoto. Sempre. É sua única desvantagem. Ele pisoteia meu coração. Ele me faz chorar.  
[...] 
— Vamos, Jesse Owens... 
Mas o menino não acordou. 
Incrédula, Liesel afundou a cabeça no peito de Rudy. Segurou seu corpo amolecido, tentando impedir que pendesse para trás, até que precisou devolvê-lo ao chão massacrado. E o fez com delicadeza. 
Devagar.  
Devagar. 
— Meu Deus, Rudy... 
Inclinou-se, olhou para seu rosto sem vida, e então beijou a boca de seu melhor amigo, Rudy Steiner, com suavidade e verdade. Ele tinha um gosto poeirento e adocicado. Um gosto de arrependimento à sombra do arvoredo e na penumbra da coleção de ternos do anarquista."
Os Hubberman, pessoas de grande coração, acolhem um judeu fugitivo chamado Max, com quem Liesel também faz fortes laços de amizade.
A morte de Rudy é seguida da morte de quase todos os outros personagens, inclusive do querido "papai". A única sobrevivente é nossa pobre ladra de livros, que, trancada no porão, não é atingida pelo bombardeio que destroça toda a rua Himmel. Ela fica sozinha. Mas a história não acaba aí e, de certa forma, o livro busca um final, talvez não feliz, mas com certeza menos triste. No fim, ela reencontra seu querido Max.
"Por fim, em outubro de 1945, um homem de olhos alagadiços, plumas de cabelo e rosto escanhoado entrou na loja. Aproximou-se do balcão. 
— Há alguém aqui com o nome de Liesel Meminger? 
— Sim, ela está lá nos fundos — disse Alex. Ficou esperançoso, mas queria ter certeza. — Posso perguntar quem a está procurando? 
Liesel saiu. 
Os dois se abraçaram e choraram e desabaram no chão. "

Há uma incógnita no romance em termos de seu sentimentalismo. Por ser contado pela morte, deveria ser de certa maneira frio e pouco minucioso. No entanto, até a morte comove-se com a história da pequena Liesel e nós, pobres leitores, somos incapazes de não nos envolver e sofrer junto com a menina.
Os personagens - com excessão de alguns, como Hans Hubberman - de certa maneira reprimem seus sentimentos.A personalidade de Rosa Hubberman é um exemplo dessa frieza contraditória, pois, de uma maneira geral, demonstra falta de sentimentos, mas em certos instantes, é perceptível seu amor pelas pessoas que a rodeiam. Outro exemplo é a dificuldade que Liesel tem de demonstrar seus sentimentos a Rudy - ela o amava. A menina possui um caráter fechado, consequência das terríveis situações que vivera, mas, por outro lado, abre completamente seu coração a seu "papai" e a Max.
Um caráter interessante no livro é o fato de apresentar a morte como uma mera "operária", responsável por recolher as almas sem vida. A face assustadora do personagem "morte" é completamente desmistificada: ela não é mais a responsável por tirar a vida. Na verdade, nunca fora, e, mesmo assim, aprendemos a temê-la. Os verdadeiros culpados são apresentados na obra: os homens.
O livro nos arrebata, nos tira de nossa zona de conforto, nos apresentando uma realidade longínqua e, nos dias de hoje, nada comum. Os destroços da guerra, tanto físicos quanto psicológicos (deixados em Liesel), são expostos de uma maneira trágica, porém doce; sentimental, na tentativa de ser fria e objetiva.
Ainda que se passando durante a Segunda Guerra Mundial, é uma história de amor e esperança. Ainda que contada de maneira distante, nos prende da primeira a última página. Particularmente, reconheci-me na paixão de Liesel pelos livros, identificando-me com ela. Da mesma maneira, no decorrer do livro, podemos nos encontrar na personalidade de cada um dos personagens.
Finalizo esse post como a morte finaliza seu livro e faço minhas suas palavras:

"• UMA ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA • 
Os seres humanos me assombram."

Video-curiosidades:

Já foi dada a confirmação de que esta obra tão magnífica ganhará adaptação cinematográfica. A Fox Films comprou os direitos autorais e há rumores de que o filme seja dirigido por Tim Burton. Essa última informação, no entanto, é incerta. Só nos resta esperar!

sábado, 7 de maio de 2011

"Diário de uma paixão", Nicholas Sparks

Devo iniciar esta postagem com a seguinte confissão: tenho certo "preconceito" com determinados best-sellers da atualidade. Obviamente, são incontáveis as excessões, mas na lista dos "mais vendidos" existem inúmeros livros de caráter vazio. Isso mesmo: caráter vazio. A leitura de alguns destes livros me reprimiu a vontade de ler romances atuais. Nicholas Sparks é um dos grandes escritores de best-sellers e eu ainda não havia experimentado nenhum de seus livros, devido a esse meu preconceito. "The Notebook", seu primeiro romance, escrito em 1996, tornou-se excessão pelo fato de que a adaptação cinematográfica dele é um dos mais encantadores filmes que já assisti (e, assim como a literatura, o cinema me fascina).
O livro se passa nos Estados Unidos, iniciando-se na década de 40. A alta sociedade do período, como já pudemos encontrar em outros livros aqui postados, priorizava o status em detrimento de qualquer outra coisa, inclusive sentimentos. É devido a este tipo de pensamento e preconceito a dificuldade da concretização do amor de nossos protagonistas.
A história inicia-se com um senhor que vive num lar para idosos. Todos os dias, ele visita uma senhora e lê para ela uma história de amor, história essa que se passa mais ou menos assim:
Allie era uma garota rica que tinha ido passar o verão na cidadezinha de Nova Berna. Noah era um garoto simples, residente da cidade. Através de amigos, os dois se conheceram e viveram uma paixão que iria mudar suas vidas para sempre. No entanto, no fim do verão, os pais de Allie fazem com que ela volte à sua cidade. Durante dois anos, Noah escreve diariamente cartas para sua amada, mas não recebe resposta. O fato é que a mãe de Allie guardava todas as cartas de Noah e não as entragava a sua filha. A garota, por sua vez, começou a ficar a cada dia com menos esperanças de que seu amado ainda retribuía os sentimentos e resolveu tocar sua vida. Ficou noiva de um belo, rico e bem-educado rapaz, advogado, chamado Lon. Até certo ponto, como podemos ver, a vida de Allie havia sido moldada ao bel-prazer de seus pais. Como um diamante bruto, Allie havia sido lapidada na forma de uma garota da alta sociedade. Semanas antes de seu casamento, no entanto, Allie vê no jornal uma foto de Noah, que havia reconstruído um casarão em ruínas em Nova Berna. Ele tinha o sonho de possuir esse casarão desde pequeno. Ao ver a foto, todos os sentimentos antigos afloraram na já não mais menina Allie. Ela decide, então, que precisa voltar a Nova Berna e rever Noah, acreditando, no entanto, que isso nada vai alterar em seu casamento. O final desta história pode ser facilmente previsto para os românticos.
No decorrer do livro, percebemos que o senhor que conta a história é Noah e a senhora, que possui o mal de Alzheimer, é Allie. Todos os dias, Noah vive uma luta para fazer sua amada se lembrar. Apesar das improbabilidades da ciência, em muitos dias o amor é mais forte e vence a luta, permitindo a Allie lembrar-se de seu passado e seu grande amor.
Um traço interessante do livro é o fato de sua cronologia ser contrária a dos fatos. Até determinado ponto, a história vai sendo construída do presente ao passado e não de maneira oposta, e mais lógica.
Outro ponto importante é o enfoque na importância do amor na vida das pessoas. Sem o amor, não há méritos, dinheiro ou status que traga felicidade. O teor do livro se resume na seguinte frase de Noah, logo no início:


"Não sou nada especial; disso estou certo. Sou um homem comum, com pensamentos comuns, e vivi uma vida comum. Não há monumentos dedicados a mim e o meu nome em breve será esquecido, mas amei outra pessoa com toda a minha alma e coração e, para mim, isso basta."

De qualquer maneira, dei ao autor essa chance de me envolver e eis o que encontrei: um livro que, apesar de não ter análises complexas ou grandes aprofundamentos em fatos históricos, é muito bem posicionado de acordo com o período em que se passa e nos apresenta uma história apaixonante, capaz de tocar a profundeza da alma de quem já amou um dia.
Tem certo aspecto daqueles romances de bolso, também americanos, com histórias de amor trágicas e encantadoras que prendem o leitor do início ao fim, apesar de não terem grandes méritos literários (este é meu preconceito falando, portanto, desconsiderem). Mas seria um exagero dizer que este livro se resume a um romance de bolso, afinal, é possível perceber o quanto ele é bem elaborado. Um livro de fácil leitura que realmente vale a pena de ser degustado em uma tarde de domingo descansada.

Video-curiosidades:

Mais famoso que o livro, inclusive, o filme "Diário de uma Paixão", de 2004, é mais que uma adaptação. Dirigido por Nick Cassavetes, cada uma de suas cenas é uma verdadeira obra de arte. Não há grandes modificações entra o livro e o filme, como muitas vezes acontece em outras situações. No entanto, as poucas mudanças feitas pelos roteiristas tornaram a história ainda mais instigante e envolvente. Coisas pequenas, como diálogos retirados de uma cena e postos em outra, foram essenciais para o sucesso do filme. Só uma produção muito bem preparada seria capaz de transformar uma história já muito boa em uma história excelente e é a primeira vez que encontro uma adaptação cinematográfica melhor que o romance original. E se o sr. Sparks me perdoar o modo de falar, adiciono que, nesse post, diferente dos outros, indico, mais que o livro, o filme, o que não tira os méritos do autor, visto que a história, independente de como colocada no cinema, foi criada por ele e, mesmo que sem intenção, originada para transformar-se em um dos filmes românticos da nova era mais sensacionais que assisti. O filme é estrelado por Rachel McAdams e Ryan Gosling, que assumiram os papéis de Allie e Noah de forma encantadora e apaixonante.

Obs.: Em 2005, Rachel e Ryan ganharam o prêmio de melhor beijo do ano, relacionado à cena de beijo na chuva.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

"Razão e sensibilidade", Jane Austen

Como primeiro livro de Austen a ser publicado, em 1811, "Sense and Sensibility" não atinge a maturidade literária, em termos de entretenimento do leitor, alcançada por outros livros de nossa querida autora, como "Pride and Prejudice". Ainda assim, é uma obra bastante interessante e divertida e reflete, bem como o anteriormente citado e postado livro de Austen, costumes e tradições do periodo.
Por aproximar-se, por vezes, do melodrama, apresentando-se como um agitado romance da vida privada, a obra pode ser subestimada. No entanto, os diversos aspectos por ela abordados com relação ao amor e à maneira de reagir aos infortúnios da vida devem ser considerados como um prazeroso estímulo na leitura da obra. Austen nos apresenta uma poderosa crítica aos valores do período.
O romance conta a história de duas irmãs, Elinor e Marianne. Marianne é a antropomorfização da sensibilidade e Elinor, da razão (razão aqui também definida como responsabilidade social, dentre outros termos). Em nosso primeiro contato com Marianne ela é descrita como sensível e esperta; enquanto que os sentimentos de Elinor são caracterizados como fortes. Isso nos mostra que cada uma tem um toque da qualidade que define a outra. Assim, é simplista ver as duas irmãs como o oposto uma da outra. O livro argumenta repetidamente que, assim como os sentimentos devem ser moderados pelo senso comum, a razão sozinha e intocada pelos sentimentos bons, não é suficiente.  Austen, com o comportamento, por vezes, hipersensível de Marianne, satiriza o culto à sensibilidade; por outro lado, também mostra que pouco sentimento pode ser tão perigoso quanto muito.
Após a morte de seu pai, as irmãs Dashwood perdem toda sua herança para um meio irmão, John Dashwood. Ele e sua mulher vão, então, viver na casa que, antes, era da sra. Dashwood. A família se vê obrigada, a partir disto, a buscar um novo lar e deixar aquele onde vivera toda uma vida até aquele momento. Durante o período em que elas passam à procura de uma nova casa, o irmão da sra. John Dashwood, Edward Ferrars, vai visitar sua irmã. Elinor, a filha mais velha da sra. Dashwood, adquire uma forte conexão com ele. No entanto, sua prudência faz com que ela evite comentários com relação aos seus sentimentos pelo rapaz.
Com a ajuda de familiares, elas conseguem se mudar para uma pequena casa no campo, onde Marianne, a filha do meio, conhese o sr. Willoughby e se apaixona perdidamente por ele, entregando seu coração com inocência e imprudência.

O grande enfoque do livro está nas divergências de personalidade de Marianne e Elinor. Ambas se apaixonam por rapazes que, em certo ponto do livro, mostram-se comprometidos com outras moças. A reação da sentimentalista Marianne é se entregar ao desespero, sem esconder dos demais seu sofrimento e sem refletir sobre o quanto sua reação pode estar abalando as pessoas que a amam. Já Elinor, que descobrira o noivado de seu amado antes que qualquer uma, pela boca da própria noiva, uma esperta e, por vezes, até cruel moça chamada Lucy Steele, reage com aceitação e guarda para si toda dor e todas as lágrimas. A passagem seguinte reflete esta diferença de visão de mundo das duas irmãs.

"- Quatro meses! Você sabe de tudo há quatro meses? Elinor confirmou.

- Quer dizer que enquanto me deu forças na minha miséria, guardava isso em seu coração? E eu que cheguei a criticá-la por ser feliz!
[...]
- Quatro meses! E você ainda o amava!
- Sim. Mas não amava apenas a ele, e como a paz dos outros é importante para mim, fiquei contente por que os poupava de saberem como me sentia. Agora, posso pensar e falar nisso com menos emoção. Fazendo-o agora, não a levo a sofrer por mim porque posso afirmar-lhe que não sofro mais materialmente. Houve várias coisas que me apoiaram. Tenho consciência de que não provoquei decepção alguma por imprudência cometida por mim e suportei a situação como pude, sem deixar que transpirasse para os outros. Desculpo Edward por ter agido errado. Desejo que ele seja muito feliz e tenho certeza de que fará o seu dever. [...]
- Se é assim que você vê as coisas... - disse Marianne - Se a perda de algo tão valioso pode ser substituída por outra coisa, sua resolução e seu autocontrole são, talvez, dignos de serem melhor considerados. Quanto a mim, acham-se além da minha compreensão.
- Eu a compreendo. Você acha que não senti muito. Durante quatro meses, Marianne, tudo isso ficou martelando em minha cabeça sem que eu tivesse a liberdade de conversar a respeito com nem sequer uma pessoa. O pior é que nem mesmo podia prepará-las para o desfecho, sabendo que iria tornar você e mamãe muito infelizes se lhes dissesse o que acontecia. Foi-me contado que um compromisso anterior destruía todas as minhas perspectivas... Aliás, foi uma maneira da própria pessoa interessada forçar-me a me retirar. Pelo que pude perceber, tudo me foi dito com uma sensação de triunfo. Tive de me opor às suspeitas dessa pessoa aparentando indiferença por algo em que estava profundamente interessada. E não foi apenas uma vez; tive de ouvir várias vezes as esperanças e as alegrias dela. Fiquei sabendo que me achava separada de Edward para sempre, sem tomar conhecimento de pelo menos um detalhe que me fizesse chegar à conclusão de que deveria cortar relações com ele. Nada demonstrava que Edward não era digno, nada indicava que ele era indiferente a mim. Eu teria de lutar contra a indelicadeza da irmã e contra a insolência da mãe dele; teria de sofrer um castigo pela afeição que dedico a ele sem, no entanto, poder aproveitar as vantagens. E tudo isso aconteceu num momento em que, como você sabe muito bem, eu não era a única a ser infeliz. Se você me considera capaz de sentir, com certeza pode imaginar o que sofri. A atitude de elegante compostura que mantenho enquanto falo nesses acontecimentos e o consolo que não procurei, porque não podia fazê-lo, são resultados de esforços contínuos e dolorosos... Essas coisas não surgiram por si mesmas, não apareceram logo no começo para me dar forças e apoio. Não, Marianne... Naquele momento, se eu não me visse obrigada a um silêncio absoluto, talvez nada teria conseguido me impedir... nem mesmo o carinho que tenho por meus melhores amigos... de mostrar a todos quanto eu estava sendo infeliz. Marianne achava-se quase persuadida.
- Oh, Elinor!  - exclamou.  - Você fez com que eu me odeie para sempre. Como fui malvada com você! Logo com você, que foi meu único consolo, que me deu forças para suportar tanta miséria, que pareceu estar sofrendo apenas por mim! E este foi o meu agradecimento! Este é o único modo que tenho para recompensá-la? Você tem o direito de chorar no meu ombro, pois foi o que tentei fazer para sempre!"

Austen preocupa-se em analisar uma sociedade obcecada por status social e financeiro. Casamentos arranjados, de acordo com dotes e não com amor; amizades feitas visando somente status.
Além disso, o comportamento diante da sociedade é vastamente discutido. Elinor sempre se coloca com educação, mesmo em situações que a deixam inconfortável. Enquanto isso, Marianne, deixando-se levar pelo coração, sequer tenta tolerar pessoas ou situações que afetam de maneira ruim seu espírito. Quando, na obra, encontramos o julgamento do comportamento de Marianne, não devemos nos deixar pensar que aquele é o julgamento da autora, mas sim da sociedade. A naturalidade de Marianne diante do modo artificial com que aqueles que estão a sua volta vivem suas vidas é um tema significativo do romance. Uma das falas de Marianne – bastante valiosa de se notar - demonstra seu pensamento com relação a outros personagens e à vida de uma maneira geral.
“Dinheiro só pode trazer felicidade onde não há mais nada que a traga.”
Ao final, o livro possui um pequeno furo na escolha do marido de Marianne. A apaixonada garota acaba por casar-se com alguém por quem sentia gratidão, mas não exatamente afeição ou amor. Já Elinor acaba o livro com seu grande amor, quase que por ironia.
Atentar para as inúmeras cartas mencionadas ou apresentadas no livro é também importante, pois, em uma sociedade onde os sentimentos são repreendidos, cartas eram valorosos veículos de pensamentos que não podiam ser livremente publicados.
Além do entretenimento, a obra nos leva a fazer importantes reflexões, como anteriormente abordado, sobre a vida, o amor, a demasiada prudência e o sentimentalismo exacerbado. Ela nos ajuda, a partir de seus personagens, a encontrar um ponto de equilíbrio entre razão e sensibilidade. É, portanto, um livro de leitura indispensável para quem quer aprender um pouco mais sobre as pessoas e analisar de maneira diferente suas próprias atitudes.


Video-curiosidades:

Em 1995, dirigido por Ang Lee, a adaptação "Sense and sensibility" se mostra de grande verossimilhança com a obra original, transmitindo a mensagem do livro em um filme de alta qualidade.  Apresenta também um grande elenco que merece citação: Kate Winslet, Emma Thompson, Hugh Grant, Alan Rickman e Hugh Laurie.

Diversas outras séries e adaptações foram apresentadas na TV. Com certeza, o filme citado é a de maior qualidade.

segunda-feira, 14 de março de 2011

"A moreninha", Joaquim Manuel de Macedo

Em 1844, surge a primeira obra brasileira de gênero romântico. Caracterizada como romance urbano, "A moreninha" não somente inicia o ciclo do romantismo no Brasil, como também a trajetória de Joaquim Manuel de Macêdo como romancista, visto que é seu primeiro livro.
No século XIX, o público consumidor de romances era a burguesia. Dessa maneira, uma série de ingredientes específicos foi utilizado pelo autor para fixar a atenção de seus leitores.
O livro se passa em uma sociedade burguesa, onde grande parte dos personagens masculinos é estudante de medicina e dos femininos é culto e tem a visão voltada para o casamento. De modo geral, a comicidade, o namoro difícil, a dúvida entre o dever e o desejo, a revelação surpreendente de uma identidade, as brincadeiras de estudantes e uma linguagem mais inclinada para o tom coloquial compõem a essência da obra, que visa o entretenimento, sem tornar-se vulgar.
O livro inicia-se com a ida de Fabrício, Augusto e Leopoldo à casa da avó de Filipe, a convite deste. A casa fica na ilha de Paqueta e todas as primas de Filipe, inclusive sua irmã Carolina, estão lá. Os amigos chegam para ficar durante o fim de semana. 
Uma importante característica na personalidade de Augusto é a volubilidade de seus sentimentos. Como ele mesmo afirma, é capaz de amar três moças ou mais em uma mesma noite.
Inicia-se entre os jovens uma espécie de "jogo da sedução" à moda do período, ou seja, de uma maneira bem contida. A única jovem que não está interessada em romance é a travessa Carolina. Com suas travessuras, peripércias e manias de pregar peças nos outros, a menina de quatorze anos faz Augusto julgá-la inoportuna e feia. No entanto, no decorrer do fim de semana, entre as conversas travadas pelas pessoas da casa, o rapaz começa a perceber a sagacidade e ironia que possui a menina. Começa a considerá-la esperta, inteligente e cada vez menos feia. Os sentimentos de Augusto por Carolina são cíclicos, como podemos perceber na seguinte passagem:

"— E o que pensas da irmã de Filipe?
— A melhor resposta que te posso dar, é... não sei... porque, ao meio-dia, a julgava travessa, importuna e feia, mas era-me completamente indiferente.
— À uma hora?...
— Eu a supus estouvada e desagradável.
— Às duas horas?...
— Má, e desejava vê-la longe de mim.
— Durante o jantar?...
— Fui achando-lhe algum espírito e acusei-me por havê-la julgado feia.
— E agora?
— Parece que me sinto inclinado a declará-la engraçada e bonitinha.
— E daqui a pouco? Eu direi."

Os rapazes e moças da casa constituem uma juventude que não se permite crer no amor. As moças, temem ser enganadas pelas falsas promessas dos rapazes e, por isso, enganam a estes, que para defender-se da mentira das moças, as enchem de falsas promessas. São poucos os verdadeiros apaixonados. Em um trecho do livro, há uma divagação sobre a diferença das moças do campo e da cidade, que expressa a volubilidade não apenas das mulheres urbanas da época, mas também da juventude atual. 


"Estudemos as duas vidas. A moça da corte escreve e vive comovida sempre por sensações novas e brilhantes por objetos que se multiplicam e se renovam a todo momento, por prazeres e distrações que se precipitam; ainda contra a vontade, tudo a obriga a ser volúvel: se chega à janela um instante só, que variedade de sensações! Seus olhos têm de saltar da carruagem para o cavaleiro, da senhora que passa para o menino que brinca, do séqüito do casamento para o acompanhamento de enterro! Sua alma tem que sentir ao mesmo tempo o grito de dor e a risada de prazer, os lamentos, os brados de alegria e o ruído do povo; depois, tem o baile com sua atmosfera de lisonjas e mentiras, onde ela se acostuma a fingir o que não sente, a ouvir frases de amor a todas as horas, a mudar de galanteador em cada contradança; depois, tem o teatro, onde cem ócuLos fitos em seu rosto parecem estar dizendo — és bela! — E assim enchendo-a de orgulho e muitas vezes de vaidade; finalmente, ela se faz por força e por costume tão inconstante como a sociedade em que vive, tão mudável como a moda dos vestidos. Quereis agora ver o que se passa com uma moça da roça?...Ali está ela na solidão de seus campos, talvez menos alegre, porém, certamente, mais livre; sua alma é todos os dias tocada dos mesmos objetos: ao romper d’alva, é sempre e só a aurora que bruxoleia no horizonte; durante o dia, são sempre os mesmos prados, os mesmos bosques e árvores; de tarde, sempre o mesmo gado que se vem recolhendo ao curral; à noite, sempre a mesma lua que prateia seus raios à Lisa superfície do lago! Assim, ela se acostuma a ver e amar um único objeto; seu espírito, quando concebe uma idéia, não a deixa mais, abraça-a, anima-a, vive eterno com ela; sua alma quando chega a amar, é para nunca mais esquecer, é para viver e morrer por aquele que ama. Isto é sim, Augusto; considera que é lá em nossos campos que mais brilham esses sentimentos, que são a mesma vida e que não podem acabar senão com ela!..."
O jovem Augusto, considerado o mais volúvel de todos, possui, porém, um motivo para não ceder seu coração a ninguém. Aos treze anos, ele havia conhecido na praia uma linda menina que não possuía nem oito ainda, e que era risonha, travessa e esperta. Eles brincaram durante toda uma tarde e se identificaram bastante. Ajudaram, juntos, um velho morimbundo, que, em um delírio febril, os disse que eles deveriam se casar ao crescer. Para fortalecer essa promessa, o senhor os fez trocar objetos. A menina ficou com o camafeu que Augusto possuía e este guardou o broche de esmeralda que estava no vestido da menina. Desta menina, que ele chamava de "minha mulher", ele não conhecia o nome. No entanto, em seu coração, lhe era fiel e somente a ela.
Retornando ao nosso foco principal. Carolina começa a sentir-se tocada por Augusto. No entanto, o fim de semana acaba e eles poderão não mais se ver. Augusto, porém, compromete-se de ir à casa de D. Ana, a avó de Filipe, aos domingos. E, de domingo a domingo, vai-se formando um amor extremamente forte e apaixonado. Augusto decide esquecer "sua mulher" para dar todo seu coração a Carolina. Mas a esperta menina, que já havia descoberto o passado de Augusto, nos traz, a nós leitores e a Augusto, uma descoberta surpreendente: a menina que havia ficado com o camafeu de Augusto era ela. Assim, sem trair nenhum de seus sentimentos, Augusto pode amar Carolina e casar-se com ela.
Carolina é o símbolo de mulher romântica. Porém, divergindo do estereótipo criado pelos europeus, nossa moreninha é uma mulher romântica à moda brasileira. Assim, o namoro de Augusto com ela constitui a "aprendizagem de desaprender". Com efeito, o jovem se despirá dos preconceitos para dar vazão aos sentimentos verdadeiros.
Segundo Álvaro Cardoso Gomes, professor associado de Literatura portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP: "A diminuição do interesse por este tipo de romance deve-se a preconceitos, que vitimaram a maioria das obras consideradas clássicas. Para o homem do século XX, às vezes, incomodam a afetação da linguagem um pouco derramada, as longas disgressões, os usos e costumes que não são mais os seus. Porém, se o leitor se livrar desses preconceitos e embarcar na história, certamente se deliciará com A moreninha, que tem todos os ingredientes para agradar. Macedo, como escritor competente que era, tinha o dom de saber amar o leitor desde a primeira linha. Era do tipo de romancista que não se preocupava em passar mensagens complexas sobre a vida e que procurava aguçar a curiosidade do leitor com pequenos enigmas de fácil solução."
E após este feliz comentário, o qual eu não poderia fazer com melhores palavras, mas que, certamente, merece ser postado, retiro-me na esperança de tê-los feito curiosos por experimentar mais uma clássica novidade.


Video-curiosidades:

Em 1915, dirigido por Antonio Leal, o primeiro filme sem som e em preto e branco baseado na obra, "A moreninha".
Em 1965, a primeira telenovela baseada no livro, com Marília Pêra como Carolina.
Em 1970, mais uma adaptação do livro nos cinemas, com a nossa moreninha representada por ninguém menos que Sônia Braga.
Finalmente, em 1975, uma regravação em cores da telenovela de 1965 com Nívea Maria como a moreninha.