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domingo, 3 de junho de 2012

"O Perfume", Patrick Süskind

Publicado pela primeira vez em 1985, a obra do escritor alemão Patrick Süskind, cujo título original é: "Das Parfurm - Die Geschichte eines Mördes", ou seja, "O perfume - A história de um assassino", encanta e intriga com sua escrita de elegância macabra e profunda.  A descrição de uma sociedade ambientada na Paris do século XVII é tão minuciosa e analítica que pode, a princípio, ludibriar o leitor quanto ao ano em que a narrativa foi escrita. Ao menos, confesso que assim foi para mim. No entanto, examinando mais uma vez a situação de extremo conhecimento e a análise detalhista dos pormenores sociais e ambientais do período, pode-se afirmar que as palavras vem de um observador distante, que baseia suas informações em um estudo minucioso do que não presenciou.
"Na época de que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de penas, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia o enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros, fedia o sangue coagulado. Os homens fediam a suor e a roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram mais bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e a  rainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido colocado ainda nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor."
O ano é 1738. Um bebê, quase vítima da morte pelas mãos da própria mãe, chora, na intenção de ser encontrado e delatar as más intenções daquela que lhe havia dado à luz. Não por questões de maldade ou justiça, mas, como em uma primeira batalha de sua luta pela sobrevivência. O bebê é levado para a Igreja, cujo padre responsável decide pagar para que uma ama de leite o alimente, como era feito com tantos outros bebês que ali foram parar. É nesse instante, ainda no início de nossa narrativa, que começamos a perceber algo de muito errado com aquela criatura: a mulher que dava àquele bebê do que comer decide negar-lhe, devolvendo-lhe ao padre... Não é que o dinheiro que lhe estava sendo pago era pouco. Por nada nesse mundo ela manteria aquela criança dentro de sua casa, junto aos seus filhos, afinal, como é possível confiar em um ser que, simplesmente, não possui odor.
Este fato será a maior angústia e, ao mesmo tempo, trará a maior ambição de nosso personagem.
Deixado em um orfanato, Jean-Baptiste Grennouille cresce sem que ninguém lhe perceba, nem se preocupe.  Isso lhe dá liberdade para, aos poucos, ir-se descobrindo e encontrar em si um dom único e maravilhoso: um nariz capaz de sentir até os odores mais distantes e imperceptíveis. Em certo ponto, ele é dado como capaz de adivinhar o futuro, pelo fato de conseguir dizer "as pessoas que estão chegando para a visita" ou "onde está o dinheiro que a dona do orfanato havia guardado e não sabia mais aonde". É esta última "pequena adivinhação", inclusive, a causa de sua saída do orfanato. Ele então é jogado para um trabalho pesado e contaminante, do qual poucos saem vivos. Devido à sua excepcional capacidade de sobrevivência, no entanto, ele ganha a confiança do chefe. Sem que nem mesmo nós, leitores, percebamos, Grennouille começa a criar em si o desejo de ligar os cheiros que ele armazena em sua vasta memória odorífica e, atrelado a isso, o desejo de trabalhar em uma perfumaria. A malícia já começa a instalar-se em nossa personagem. Sua aparência inocente e sua presença desprezível (proveniente de um ser humano sem odor) são seus aliados nas diversas batalhas que ele travaria a partir dali para conseguir o que quer. A primeira delas é a perfumaria.
Um dia, passeando pelas ruas da cidade, este projeto de homem com um olfato extremamente desenvolvido, depara-se com um aroma nunca antes sentido: aroma esse que, após uma longa perseguição, descobre-se oriundo de uma jovem russa no que chamaríamos de "a flor da idade". Para melhor apreciar este espetáculo odorífico da natureza, e sem nenhuma intenção verdadeira de maldade, Jean-Baptiste assassina a bela menina, na esperança de melhor "cheirá-la". É a partir daí que, após diversos acontecimentos, nosso personagem entra numa longa e sinistra jornada para criar o melhor perfume do mundo, transformando-o em um facínora sem escrúpulos.
A personagem criada por Süskind é de um caráter especial e complexo. À princípio, Grennouille não tinha nada, mas, aos poucos, talvez como um organismo de defesa, cria-se nele um ser extremamente egocêntrico. Tudo que ele consegue ver nos outros é inferioridade e ignorância. Ele sente-se o rei do universo, pois, por causa de seu dom, ele acaba por ser capaz de desnudar as pessoas, seus desejos, suas frustrações, sua realidade. Afinal, somos todos animais e, por mais que não percebamos, estamos, a todo momento, liberando odores que retratam nossas emoções. É também assim que ele descobre-se capaz de controlar as pessoas, pois os aromas, ainda que nos pareçam imperceptíveis, são capazes de mudar nosso humor e, até mesmo, nossas opiniões e pontos de vista sobre as coisas mais simples. A arrogância toma conta dele, que começa a sentir-se e comparar-se a um deus.
"[...]as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração - ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas."
O autor retrata as fixações e excentricidades macabras de seu personagem com tal eufemismo que podemos sentir a ilusão que está tentando ser criada de que o assassino em série, aparentemente inofensivo, tem motivos plausíveis e compreensivos para seus atos absolutamente contestáveis. Por vezes, é possível, inclusive, acreditar nessa ilusão, pois o criador dessa história é extremamente persuasivo.
Grennouille não buscava tirar a vida dos odores, mas sim, dar a eles vida e liberdade. Era como se, ao retirá-los em sua essência, colocando-os em frascos e aniquilando todo o resto, tudo o que havia de bom naquele ser, naquele corpo ou naquele objeto estava concentrado e não havia nada mais a se aproveitar. O que sobrava não tinha importância. Se o ser fosse mantido vivo, em convivência com uma atmosfera podre, acabaria por se corromper, corrompendo, assim, também seu odor. O melhor, portanto, era retirar o aroma enquanto inocente, límpido, puro e, consequentemente, mais delicioso.
Tomado pelo egocentrismo, tudo que o coração de gelo de Grennouille mais buscava era a capacidade de sentir algo que não fosse proveniente dele mesmo. Até mesmo porque não havia nada que viesse dele que, de fato, ele pudesse sentir.
Um recurso aqui disfarçadamente utilizado é o discurso indireto livre que, neste caso, não perde-se em monólogos divagantes, pensamentos ou emoções do personagem, e sim na própria essência de tudo que se passa dentro dele. Mas tudo que se passa dentro dele, todas as suas impressões do mundo, todos os seus mais profundos desejos e ambições originam-se no seu nariz. Eu diria, portanto, que o discurso indireto livre que é apresentado no livro não é proveniente do pobre Jean-Baptiste (um infeliz, cujo maior talento é também o maior fardo) mas sim do verdadeiro protagonista dessa história: o nariz de Grennouille. Esse dom espetacular é como um espírito mal que toma o corpo de um ser, a princípio, inocente. Neste caso, porém, não conseguimos distinguir o corpo e o espírito, pois é como se o primeiro fosse um nada sem um segundo. E, de fato, Grennouille não passaria de mais um alma desprezível e sem vida em uma cidade de miseráveis não fosse seu olfato.
Esta é a beleza do livro: apesar de ter chegado aos extremos da maldade, nossa personagem só foi realmente "vista" pelos olhos da humanidade por deixar-se tomar por seu impulso maléfico. Não fosse isso, estaria condenado, como tantos outros, a sofrer na realidade de um ser invisível.
O livro possui um aspecto muito interessante: ao passo que as "paisagens odoríficas" do livro aparentam, a princípio, ser vítimas de um demasiado hiperbolismo, precisamos atentar para o fato de que estas são vistas através do nariz do nosso personagem, que não é um nariz comum. Dessa forma, não há nada de exagerado com as descrições, tendo em vista que seguem à risca o que é perceptível por Grennouille.
Um outro traço extremamente relevante do livro é a maneira com que o autor apresenta a podridão que habita dentro das pessoas, metaforizada na podridão das ruas, das casas e das cidades. Aos poucos ele nos mostra, às vezes de maneira extremamente cruel e inesperada, os pensamentos mais profundos e obscuros do ser humano.
É um livro muito forte e chocante, mas ao mesmo tempo belo em sua lugubridade insana. Leitura imperdível e absolutamente inesquecível.


Video-curiosidades:

Em 2006, o diretor alemão Tom Tywker levou a obra aos cinemas, conseguindo captar o espírito e o estilo do livro. Dustin Hoffman e Alan Hickman constam no elenco. Mas o ator que fez o protagonista é a grande estrela, que captou o personagem e passou-o para os expectadores. A fotografia do filme é também de excelente nível.

domingo, 6 de maio de 2012

"Hamlet", William Shakespeare

Uma vez mais, trago para este blog um humilde comentário sobre uma obra-prima do maior dramaturgo da literatura universal. William Shakespeare, que escrevia suas peças para um pequeno teatro de repertório, no final do século XVI e início do XVII, tem, mais de 400 anos depois, suas histórias como base para excelentes adaptações. A sua produção engrandeceu o teatro, trazendo ao palco as personagens mais intrigantes, dentre as quais figura o sujeito de nossos comentários. 
Segundo estudiosos, é em 1600 que nosso autor atinge a maturidade literária, com a peça "Hamlet", diferentemente da obra anteriormente aqui postada "A Megera Domada", que pertence a primeira fase de seus escritos. Esta última, inserida no grupo de comédia de costumes, difere da primeira, que, rodeada por uma natureza histórica, apresenta, em sua essência, a natureza humana e suas contradições.

Na realidade, o mito de Hamlet é antiquíssimo na lenda escandinava. No século XII, surge o primeiro registro escrito dessa história, proveniente do dinamarquês Saxo Grammaticus, no livro "História Danica". Entretanto, Shakespeare, pode-se presumir, inspirou sua obra na publicada por François de Belletorest, inserida em seu livro "Histoires Tragiques", de 1576.
Hamlet é a tragédia da dúvida, do desespero solitário de um homem diante da violência do mundo. Por seu caráter profundo e enigmático, estabelecendo contato intenso com o que há de mais obscuro no ser humano, esta peça é, até hoje, a mais estudada e apresentada do poeta inglês.
O rei da Dinamarca falece. Em seu lugar, sobe ao trono seu irmão que, com pouco tempo do trágico acontecimento, casa-se com a rainha. O príncipe, Hamlet, não consegue aceitar que sua mãe tenha-se retirado do luto, desposando um outro marido, mal o cadáver de seu pai esfriara. Não há nada, porém, que deva-se fazer, apesar da grande amargura do príncipe e da falta de honra e dignidade do casal, que apressadamente desrespeitou a memória do rei, dentro de uma relação considerada incestuosa no período.
Em uma certa noite de vigília, os guardas noturnos do reino começam a ver o espectro do pai de Hamlet e, apesar de quase não acreditarem em seus olhos, alertam o príncipe. Este tenta comunicar-se com o espectro que, de fato, aparenta ser seu pai e acaba por descobrir uma informação importantíssima: Cláudio havia envenenado o rei da Dinamarca e seduzido sua esposa, adquirindo, assim, tudo que pertencia ao seu irmão - o trono e a rainha.
A indignação de Hamlet não poderia ser colocada em palavras. A dúvida paira sobre a cabeça do personagem. O que, afinal, deveria ser feito? O desejo de vingança é grande, mas não lhe parece correto. Ele passa, então, a agir de uma maneira que os cortesões, o rei e a rainha consideram insanidade. Aproveitando-se disso, o príncipe ganha tempo para tramar a melhor forma de desmascarar o rei.
Enquanto isso, um projeto de romance é colocado para o leitor: Hamlet é apaixonado por Ofélia, filha de Polônio, um lorde camarista que é o principal conselheiro do rei.
Pois bem, após muitas reviravoltas, onde o rei, desconfiado de seu sobrinho, tenta descobrir o que se passa na cabeça dele, Hamlet tem uma conversa com sua mãe e consegue abrir os olhos dela para a falta de caráter do rei, bem como a péssima atitude que ela havia tomado. Esta conversa, porém, tinha sido escutada por Polônio atrás das cortinas (coisa muito típica e quase um clichê de dramas envolvendo traições). O princípe, contudo, detecta algo errado no ambiente e acaba por dar um golpe de espada na cortina, assassinando o pai de sua amada.
Ofélia enlouquece e é "vítima" de uma morte misteriosa, que nos dá um diálogo muito interessante entre os coveiros que cavavam sua sepultura:


"PRIMEIRO COVEIRO - E é correto que em terra santa seja sepultada a moça que voluntariamente conspira contra a própria salvação?
SEGUNDO COVEIRO - Posso te dizer que sim. Portanto cave logo a sepultura que irá recebê-la. O comissário já examinou o caso e decidiu que o enterro deve ser cristão.
PRIMEIRO COVEIRO - Como pode ser isso? A menos que ela tenha se afogado em defesa própria!
SEGUNDO COVEIRO - Foi mais ou menos isso que acharam.
PRIMEIRO COVEIRO - Deve ter sido se defendendo. Não pode ter sido de outra maneira! Porque aqui está o ponto: se eu me afogar intencionalmente, isto denota um ato, e um ato tem três partes que são: agir, fazer e executar. Então, ela se afogou intencionalmente.
SEGUNDO COVEIRO - Mas escuta, camarada...
PRIMEIRO COVEIRO - Com licença! Aqui está a água; bom, e aqui está o homem; bem. Se o homem vai em direção desta água e se afoga, queira ou não, é caso que vai. Preste bem atenção. Mas se a água vai até ele e o afoga, ele não se afoga a si mesmo. Portanto, aquele que não é culpado da própria morte, não abrevia a própria vida.
SEGUNDO COVEIRO - Mas a lei é assim?
PRIMEIRO COVEIRO - Exatamente! Lei baseada na informação do comissário.
SEGUNDO COVEIRO - Só sei de uma coisa, se essa não fosse uma dama da nobreza, não seria sepultada como cristã.
PRIMEIRO COVEIRO - Isso mesmo! E o mais triste disso é que os grandes têm mais facilidades neste mundo para se afogar ou se enforcar.[...] Enquanto eles se julgam eternos nós é que construímos as cidades mais duradouras. Sabe por quê?
SEGUNDO COVEIRO - Realmente, juro que não sei!
PRIMEIRO COVEIRO - Não atormente mais sua cabeça oca com isso. A idéia é que o coveiro constrói casas que duram até o dia do Juízo Final. (Pausa) Agora vá buscar um tanto d'água que tenho de terminar isso ainda hoje!"

Com tantas tragédias em sua família, ocasionadas, ainda que não de todo intencionalmente, por Hamlet, o irmão de Ofélia, Laertes, resolve vingar-se. Alia-se, portanto, ao rei. 
O clímax do livro ocorre com a utilização de um artifício interessante e original: o teatro dentro do teatro. Aproveitando-se da capacidade que a dramaturgia tem de penetrar no íntimo do ser humano, fazendo-o refletir e demonstrar as mais diversas reações, Hamlet propõe a um grupo de atores (que seria a representação do grupo de teatro de Shakespeare) que apresente uma peça que contaria a mesma história de traição, corrupção, incesto e imoralidade de sua vida real. De fato, a representação afeta o rei, que retira-se do recinto, desmascarando-se, com esta atitude, aos olhos de Hamlet.
Finalmente, o rei trama uma luta entre Laertes e Hamlet. Para garantir a morte deste último, o florete de Laertes é envenenado, bem como um copo de vinho, servido a Hamlet entre os jogos. Mas o tiro sai pela culatra quando a rainha, Gertrudes, bebe o vinho que seria de seu filho. A seguir Laertes fere Hamlet e, após troca de floretes, Hamlet fere Laertes. No ímpeto deste momento, a rainha morre e o príncipe, percebendo a traição, usa suas últimas gotas de ânimo para ferir o rei antes de morrer.
O forte caráter de Cláudio, o rei da Dinamarca e vilão de nossa história, torna-se um traço de valor e cede à trama uma complexidade que não poderia ser alcançada com a simples representação da luta contra o bem e o mal. Aspectos extremamente frequentes nas obras de Shakespeare, como as aparências que enganam e o predomínio das paixões sobre a razão, embalam com fervor a história de Hamlet.
Devido à vívida dramatização da melancolia e da insanidade na peça, suas personagens foram encaradas, durante muito tempo, como obscuras, misteriosas e, até mesmo, místicas. A confusão de um homem em meio a um ambiente de loucura real e loucura fingida, com emoções que partem do sofrimento opressivo até a raiva fervorosa, torna a obra ainda mais intrigante estudiosos e psicanalistas, fazendo-a interpretada e debatida através de diversas perspectivas. 
Críticos psicanalíticos, mais recentemente, tentam examinar a mente inconsciente de Hamlet, enquanto críticos feministas reavaliam e reabilitam o caráter de personagens como Ofélia e Gertrudes.
A hesitação de Hamlet ao matar seu tio, por exemplo, é um aspecto ainda misterioso para muitos. Alguns encaram o ato como uma técnica de prolongação do enredo, mas outros o vêem como resultado da pressão exercida pelas complexas questões éticas e filosóficas que cercam o assassinato a sangue-frio, resultado de uma vingança calculada e um desejo frustrado. Freud interpretou esta situação como uma espécie de complexo de Édipo.
Nosso protagonista possui também um caráter filosófico, expondo idéias agora conhecidas como relativistas, existencialistas e céticas. Uma forte exemplificação deste relativismo é expresso em seu diálogo com Rosencrantz, na seguinte frase: "[...] nada é bom ou mau, a não ser por força do pensamento." A reflexão de que nada é mau, exceto na mente do indivíduo, encontra raízes nos gregos sofistas, crentes de que, uma vez que nada pode ser percebido, exceto através dos sentidos - e uma vez que todas as pessoas percebem as coisas diferentemente entre si - não há verdade absoluta, apenas a verdade relativa sobre as coisas (e eu não poderia ser mais de acordo com essa idéia).
O exemplo mais claro do existencialismo, contudo, está no célebre e famoso monólogo da tragédia:
"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre em nossos espírito sofrer pedras e setas com que a fortuna, enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e, em ula, pôr-lhes fim? Morrer... dormir: não mais. Dizer que rematamos com um sono a angústia e as mil pelejas  naturais - herança do homem: morrer para dormir... é uma consumação que bem merece e desejamos com fervor [...]" 
Os críticos acreditam que Hamlet usa "ser" para aludir à vida e à ação, e "não ser" aludindo à morte e a inércia.
Não me permito adentrar em divagações e reflexões, utilizando-me de minha pobre (diante de tanta riqueza literária) capacidade de interpretação. Ficarei, portanto, com o resto de minhas análises, dando aos leitores deste blog que se interessarem (e, se me permitem afirmar, não tem como não criar curiosidade pelos mistérios psicanalíticos de tal trama) a possibilidade de criarem suas próprias interpretações, que podem ser as mais diversas e apreciar a obra, desde seu conteúdo mais simples à sua mais extremada concepção.


Video-curiosidades:

Criada com o intuito de ser apresentado em palcos, a obra, obviamente, foi apresentada milhares de vezes, através das mais diversas perspectivas e atuações.

Em 1948, uma adaptação cinematográfica dirigida e protagonizada por Laurence Olivier estreou nos cinemas.
Em 1990, o filme dirigido por Franco Zefirelli é lançado, estrelando Mel Gibson e Glenn Close.
Em 1996, com Keneth Branagh como Hamlet, outra adaptação surge nos cinemas.

Vários atores brasileiros renomados, como Edson Celulari, Diogo Vilela e Wagner Moura encenaram Hamlet no teatro, merecendo ovações por suas brilhantes atuações. De fato, trazer uma trama tão rica e misteriosa para o teatro brasileiro, e, como ator, ter a audácia de interpretar um personagem tão perturbado e intrigante é, de fato, digno de não somente aplausos, mas principalmente agradecimento.


Indico este link de uma reflexão de Leandro Karnal em cima da peça: https://www.google.fr/search?q=%09Hamlet+e+o+Mundo+como+Palco&ie=utf-8&oe=utf-8&gws_rd=cr&ei=WdQyV-6lDMa4ad_dqtAC

quinta-feira, 19 de abril de 2012

"Contos dos Irmãos Grimm", Dra. Clarissa Pinkola Estés

Era uma vez uma linda menininha de lábios vermelhos como sangue e pele branca como a neve. Ou, salvo engano, talvez fossem dois irmãos, um menino e uma menina, que, perdidos na floresta, encontraram uma linda casinha feita de doces e guloseimas. Uma menina do chapéu vermelho que saíra para entregar doces à sua vovozinha...
Essas pequenas histórias que fazem brilhar os olhos e fascinar o coração dos pequenos, ao passo que trazem reflexão e ânimo para a alma dos "já não tão pequenos", são os encantadores contos de fadas.
A publicação do livro "Tales of the Brothers Grimm" data de 1999, mas a rica coleção de contos, cuidadosamente selecionada pela Dra. Clarissa Pinkola Estés possui uma tradição de séculos e pode ser considerada como um patrimônio da cultura mundial.
Os irmãos Grimm não são os contadores de tradição oral, ou seja, que transmitem a história através da fala. Nos períodos onde era esta a maneira de contar histórias que vigorava, podemos afirmar que a infinidade de contos que havia talvez não fosse capaz de se condensar para caber em livros. Aos poucos, muitas histórias foram esquecidas e acredito, inclusive, que muitas foram desprezadas. Também não é pequena a quantidade de pessoas que resolveu colocá-las na forma escrita. Exopo tem crédito por algumas fábulas com grandes ensinamentos para crianças e adultos. Há também os "autores" de contos roubados - e assim os defino pelo fato de que, apesar de tê-los enriquecido e abrilhantado, não podemos dar o mérito completo das histórias a esses ilustres "escrivães" -, como os irmãos Grimm, dos quais tratamos aqui, que tem seus contos, até hoje, como base para inúmeras outras histórias e adaptações de ordem secundária (ou terciária, ou quaternária).
Não. Contos de fadas não são "coisas de criança". Muito pelo contrário. Eles são capazes de modificar a vida e o espírito de todas as pessoas que os lêem. Uma coisa muito marcante desta específica coleção é o prefácio da sábia autora, que consegue abrir nossos olhos para as pequenas e, no entanto, extremamente grandes lições de vida que provêm das histórias que embalaram nossa infância, mas que para alguns, ou muitos, de nós teve seu aprendizado despercebido, quando o que nos interessava era a aventura e as emoções.
"Embora os contos de fadas terminem logo depois da décima página, o mesmo não acontece com a nossa vida. Somos coleções com vários volumes. Em nossa vida, ainda que um episódio possa terminar mal, sempre há outro à nossa espera e, depois desse, mais outro. Sempre há novas oportunidades para consertar o estrago, para moldar nossa vida da forma que emocionalmente merecemos. Não perca tempo odiando o insucesso. O insucesso é um mestre melhor do que o sucesso. Escute. Aprenda. Continue. Essa é a essência de todo conto. Quando prestamos atenção à essas mensagens do passado, aprendemos que há padrões desastrosos, mas também aprendemos a prosseguir com a energia de quem percebe armadilhas, jaulas e iscas antes de nos depararmos com elas ou de sermos nelas ou por elas capturados."
É com essas palavras que Clarissa introduz a magia dos contos de fadas: essas pequenas histórias que evocam idéias infinitamente sábias que durante séculos se recusaram a se deixar mutilar.
"Quer entendamos um conto de fadas cultural, cognitiva ou espiritualmente - ou de outras maneiras, como quero crer -, resta uma certeza: eles sobreviveram à agressão e opressão políticas, à ascensão e queda de civilizações, aos massacres de gerações e a vastas migrações por terra e mar. Sobreviveram a argumentos, ampliações e fragmentações. Essas jóias multifacetadas têm realmente a dureza de um diamante, e talvez nisso resida o seu maior mistério e milagre."
 
Mas, finalmente, o que será que concedeu aos contos esse aspecto de resistência a eras, lugares e acima de tudo, pontos de vista? Os contos tem a mesma atemporalidade dos sentimentos grandes e profundos nele gravados, capazes de afetar até as almas que parecem inatingíveis.
Incitam emoções e aprendizados profundos, registrados em um lugar longínquo do nosso ser, que são por nós conhecidos, mas que parecem saídos de uma outra vida, sendo magicamente evocados quando mais parecia que ficariam intocados no nosso subconsciente. Muitos contos trazem, subliminarmente ou diretamente, uma moral ou ensinamento - é o caso, por exemplo, das fábulas de Exopo. Outros, porém, dependendo do período e da situação histórica em que foram escritos, apresentam conceitos lastimáveis: preconceito e degradação do homem (muitos dos contos dos irmãos Grimm, por exemplo. Nenhum deles, no entanto, figura nesta coleção). Em todo caso, os contos atualmente difundidos são aqueles repletos de louvor por sua maneira mágica e interessante de nos indicar a maneira certa de agir, respeitando a si mesmo e ao próximo.
O ensinamento de valores como a indulgência, a compaixão, a justiça, a temperança, a prudência e, até mesmo, os limites é uma das diversas características dessas narrativas fantásticas. E, se a princípio, as crianças são o principal alvo das morais das histórias, são os adultos os que mais precisam conhecê-las ou relembrá-las. É por isso que os contos, de uma maneira geral, e esta excelente seleção, em específico, são tão notáveis e especiais, indicados para todas as idades, nações e eras, sem restrição.




Vídeo-curiosidades:

Mais uma vez, até por sua longevidade, é inumerável a quantidade de adaptações no teatro, no cinema e na televisão da magia dos contos. Apontarei, no entanto, alguns de meus preferidos.

A primeira indicação, com algumas concessões, como já era de se esperar da minha parte são os desenhos da Disney. Obviamente, apenas alguns são baseados em contos e não necessariamente da mesma forma que foi escrita pelos Irmãos Grimm. Até porque, se a base eram os contos deles, há uma deturpação gigantesca na maneira de contar a história. No entanto, muitas das famosas histórias ganharam vida no coração das crianças (e no meu) através da interpretação de Walt Disney, como é o caso de "Branca de Neve e os sete anões"(o primeiro longa metragem da produtora) e "Cinderella"(cujo título original seria "A Gata Borralheira", como já era de se esperar). "A Princesa e o sapo" foi, recentemente, lançada, mas eu confesso que não tenho as melhores opiniões sobre o filme, que apresenta conceitos distorcidos e, na minha concepção, é bastante assustador para crianças. Mas, buscando nos clássicos, o que se encontra é muita beleza e finais felizes.
Há algum tempo atrás, uma sequência de filmes baseada nos Irmãos Grimm foi lançada, sendo o mais famoso deles "Branca de Neve e os sete anões", que é realmente um filme muito interessante (o qual eu assisti mil vezes quando criança e algumas depois de grande). Confesso que não me lembro muito bem dos outros, mas acredito que devem também ser de qualidade. A produtora chamava-se "Cannon Movie Tales".
Em 2005, estrelando Matt Damon, foi lançado um filme extremamente interessante chamado "Os Irmãos Grimm", que, ao passo que relatava (meio que mentirosamente) como os autores "criaram" as histórias, misturava suas criações à vida real, tornando tudo uma coisa meio mágica, meio sinistra, meio maluca, mas bem divertida.
Recentemente, a ABC lançou uma série chamada "Once Upon a Time", que entrelaça os contos dos irmãos Grimm e, de alguma maneira, os traz para a vida real. Não é uma série infantil, tampouco banal. Até agora, está muito interessante.
Finalmente, dirigido por Tarsem Sign e estrelando Julia Roberts como a rainha má, foi lançado, neste ano, o filme "Espelho, espelho meu" (Mirror, mirror), o qual eu ainda não tive a oportunidade de assistir, mas farei isso logo, logo, pois meu encanto por essas histórias não me permite esperar muito.

Também, ainda este ano, com Charlize Theron e Kristen Stwart (da qual eu tenho um péssimo conceito muito bem fundamentado), será lançado "Snow white and the Huntsman". O produtos é o mesmo de "Alice no país das maravilhas". Apesar de não preferir a atriz que representa esta nova Branca de Neve, acredito que o filme será bom. Também ainda a ser visto.

domingo, 4 de março de 2012

"Peter Pan", J. M. Barrie

O livro que trago para a pauta deste mês não é medíocre e tampouco novidade: é a história imortal, escrita por J. W. Barrie em 1911, de Peter Pan, o menino que não queria crescer. Peter Pan surgiu pela primeira vez no livro "The Little Bird" (O passarinho), mas suas histórias sobre este garoto cheio de mistérios foram aprimoradas para divertir os filhos do casal de amigos de Barrie, Arthur Davies e Sylvia, que faleceram, deixando o nosso autor como tutor de seus filhos. Antes de se tornar livro, "Peter Pan" foi executado como peça no Natal de 1904. Devido ao grande sucesso, tornou-se um evento anual e natalino produzido durante 60 anos.
A partir do momento em que Peter Pan e sua irritante amiga fada Tinker Bell (ou, aqui para nós, Sininho) entram voando pela janela do quarto das crianças, a história lança um feitiço mágico na vida das crianças e também nas nossas.
Os três filhos de Mr. e Mrs. Darling, John, Michael e Wendy, vivem uma vida comum, de crianças comuns, com brincadeiras e hábitos comuns. A única coisa um pouco esquisita, mas que a família Darling não parece notar, é o fato de que a babá dos meninos é um cachorro chamado Nana. Mas pelo que eu vi, posso garantir que ela é muito mais inteligente que tantas outras babás que vemos por aí. É divertido entrar na cabeça de Nana e entendê-la como um ser pensante, inteligente e preocupado com o bem estar das crianças. Imaginá-la fazendo essas coisas tão naturais para babás, como trocar as fraudas e colocar todos para dormir, parece irônico para um adulto, mas talvez para uma criança cheia de imaginação seja simplesmente normal.
Ainda que um livro escrito para um público específico, o autor consegue expor, sem adentrar nas profundezas do ridículo caráter humano, como deixamos de viver nossas vidas, preocupados com o que os outros estão pensando. Na verdade, Mr. Darling não tinha capital para bancar uma babá, mas, como todos em sua rua possuíam uma e olhavam feio a cada vez que ele passava, porque seus filhos não tinham babá, ele arranjou Nana, adaptando-se assim à vida dos outros moradores.
É nesse ambiente que nosso Peter adentra, mudando todas as regras do jogo. As crianças são levadas à Terra do Nunca (sim, aquela mesma para a qual você e eu sempre sonhamos ser levados), onde eles conhecem os garotos perdidos, assistem às brincadeiras das sereias na Lagoa Azul e encontram o Capitão Gancho e seu bando perverso de piratas. Aqui nos deparamos com as aventuras e intrigas com que todas as crianças sonham nos mais diversos níveis: lutas, beleza, lugares e seres misteriosos, romance, a luta contra o bem e o mal e o aconchego do lar.
Todos os acontecimentos passam pelo nosso coração e não somos somente expectadores. Com a iminente possibilidade de morte de Sininho, por mais azucrinante que ela possa ser, nos vemos, sem querer, dizendo em alta voz: "Eu acredito em fadas", porque, mesmo que adultos não tenham o poder de salvar esses pequenos seres mágicos e apaixonantes, é a criança dentro de nós que grita para ter a liberdade e o direito de acreditar. Talvez seja isso, mais do que tudo, que Peter nos quer ensinar, que mesmo que cresçamos e tenhamos que fazer aquelas coisas chatas que os adultos fazem, como colocar o chapéu, pegar a maleta  e ir para o trabalho, não podemos nos deixar transformar por esse mundo infame e corrupto que é o mundo dos adultos, e sim nunca permitir que morra a criança que há dentro de nós, esse serzinho "alegre, inocente e sem coração" que nos permite ver a beleza nos dias mais comuns.
Enquanto as crianças estão à distância, também algo muda na casa dos Darling. Para Mr. Darling, por exemplo, as aparências agora perdem o valor. O tesouro mais precioso que aqueles pais e aquela babá possuíam desapareceu na imensidão do céu. Os meninos, enquanto isso, seres sem coração, como todas as crianças (e, por favor, não tomem isso errado, porque, se bem analisarmos, Barrie até estar um pouco certo quando as caracteriza assim. Ou será que você quer me dizer que se, quando criança, você tivesse a oportunidade de fugir com Pan para a Terra do Nunca, você não o faria?), quase se esquecem de seus pais. Menos Wendy que, um pouco mais madura, consegue convencer os irmãos e os outros meninos perdidos a retornar para seu lar. Assim é feito. Peter, no entanto, não aceita a proposta e volta para sua Terra do Nunca sozinho, com a promessa somente de que Wendy iria visitá-lo a cada ano para fazer a faxina de primavera. No entanto, a Terra do Nunca parece ter o poder de fazer-nos perder a noção do tempo ou mesmo esquecer de algumas coisas e Peter, como é normal dele mesmo, acaba esquecendo de ir buscar Wendy em algumas primaveras. Assim, o tempo passa e, quando finalmente Peter vem visitá-la,  Sininho já morreu há tanto tempo que foi completamente esquecida pelo garoto, Nana e Mr. e Mrs. Darling já morreram e foram também esquecidos (o que eu acho um pouco de crueldade do autor, mas não sem sentido) pela família e Wendy está adulta, casada e com uma filha, a qual vai fazer a faxina com Peter, coisa que vai, a partir de então, ser passada de geração a geração. É assim que o livro leva as crianças o ciclo da vida: o nascimento e morte são apresentados de maneira banal, comum. O autor, talvez, busca, desta forma, ajudar as crianças órfãs (como aquelas das quais ele era tutor) a superar a perda dos pais.
A obra envolve um mistério em torno das mães, esses seres mágicos e maravilhosos, que apesar de possuir características de deuses altruístas e lindos, só são assim vistos por aqueles que tiveram a oportunidade de ter uma por perto. Para Peter, mães são criaturas cruéis que abandonam seus filhos e sequer lembram-se deles. Os outros meninos perdidos seguem o mesmo pensamento até que Peter traz a eles Wendy, que torna-se uma mãezinha para eles. Wendy os ensina que mães são seres bons e, no final, todos querem ter uma mãe, até Pan. Nosso herói, porém, não dá o braço a torcer e prefere permanecer como sua imagem maléfica das mães, mais por medo que por teimosia, acredito eu. Talvez ele ache que ter uma mãe e perdê-la é melhor que nunca ter tido nenhuma (coisa com a qual não concordo), mas é só minha imaginação.
Conheci Peter através de suas adaptações e, foi depois de crescer que, de fato, li o livro. Não sei dizer qual é o mais mágico, pois este é um comparativo muito injusto: a visão de uma criança e de um adulto. Uma coisa, porém,é certa: essa história toca meu coração em todos os níveis em que se apresente. Se antes acreditei tanto que tive a coragem, mesmo sem o pó mágico, de subir em um balcão e ensaiar um vôo; hoje escuto um "sininho", que chama minha atenção para uma parte de mim que parecia já estar guardada e inacessível. Sim, aqui ainda existe uma criança e, se depender de mim, ela não vai crescer.



Video-curiosidades:

Não é possível, especialmente para mim, listar todas as adaptações dessa história mágicas. A quantidade de peças, filmes e séries em volta do menino que não queria crescer é incontável. Postarei aqui as três adaptações cinematográficas que fizeram minha infância mais feliz.

Para mim, a melhor adaptação (apesar de, como é típico da produtora, mudar uma ou outra coisa) é o filme "Peter Pan" de 1953 produzido pela Disney. Não é a primeira vez que posto um filme desta produtora aqui e, não importam o que digam, esses filmes marcaram minha infância profundamente, estando Peter Pan imensamente incluído, claro, e por isso eu sou super fã da Disney. Pronto, falei.
O segundo no ranking para mim é o filme "Hook- A volta do capitão Gancho", com Robbin Williams. Também muitos não gostam do autor, mas eu garanto que é um filme extremamente tocante.
Em terceiro, mais por causa dos cenários e efeitos especiais, o filme de 2003, dirigido por P. J. Hogan, "Peter Pan", que foi uma adaptação live-action do filme da Disney.
Por último, indico o filme "Em busca da Terra do Nunca" para aqueles que quiserem saber um pouco mais sobre a história de como Barrie criou Peter Pan, embasado na família da qual ele era amigo. Com relação a este filme, devo afirmar que não sei até que ponto a veracidade dos fatos foi respeitada. Vale a pena de qualquer maneira.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"Ensaio sobre a cegueira", José Saramago

Em 1995, o grande escritor português, que ganhou o prêmio Nobel da Literatura em 1998, José de Sousa Saramago, escreveu um livro, o qual o próprio autor definiu da seguinte maneira: "Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." Esta obra intitula-se "Ensaio sobre a cegueira".
Um vírus desconhecido, capaz de cegar o ser humano instantaneamente, insere-se, de repente, na vida da humanidade. As pessoas que adoecem se "vêem" envoltas em uma claridade imensa e infinita, uma cegueira branca. Devido à rápida capacidade de propagação do vírus, os governantes chegam à conclusão de que a melhor maneira de tentar reverter a situação de "calamidade pública" é deixar os cegos e aqueles com suspeita de contaminação de "quarentena", como feito com a cólera e a febre amarela, mas, neste caso, um isolamento por tempo indeterminado. Os cegos 'encarcerados' são alertados de que o governo não irá interferir em nenhum acontecimento do local de reclusão: nem mortes, nem doenças, nem guerras farão com que os seres humanos assustados do lado de fora entrem para ajudar os doentes. A única coisa com que eles se comprometem é a entrega de comida (que, no entanto, é muito mal controlada, pulando refeições e sempre em quantidade não suficiente). Dentre nossos personagens principais, está a única mulher que não ficará "cega dos olhos" (e é importante atentar para esta expressão). Entretanto, o verdadeiro protagonista da obra é a cegueira da humanidade, que não é doença viral, mas, na verdade, psicológica.
Uma pequena parcela dessa humanidade sem escuridão é instalada em um manicômio, onde é criado um novo tipo de sociedade, com novas regras e novas formas de governar. Os cegos "malvados", assim mesmo descritos no livro, tomam o poder a partir do controle da comida e utilizando-se de artifícios de violência e repressão, no caso representados por uma arma de fogo, obviamente temida pelos outros cegos que não tinham como se defender. É a involução da humanidade. Criam-se novas definições de moral e ética, de honra e decência. As pessoas mostram sua essencialidade animalesca diante da busca pela sobrevivência, nos expondo uma realidade que sempre estava ali, dissimulada através de ternos e gravatas, de uma intelectualidade de farsa e de um conhecimento inútil e descartável. O ápice desta mudança brusca de valores se dá com a requisição dos "cegos malvados" de que as mulheres de todas as camaratas fossem servir-lhes o corpo. A seguinte cena, a qual eu acho extremamente interessante, apesar de seu sentido triste e deplorável, resume grande parte da nova estrutura de vida a que aquela sociedade precisa habituar-se, onde coisas que para nós são indecentes e incorretas tornam-se a melhor opção:

"O primeiro cego começara por declarar que mulher sua não se sujeitaria à vergonha de entregar o corpo a desconhecidos em troca do que fosse, que nem ela o quereria nem ele o permitiria, que a dignidade não tem preço, que uma pessoa começa por ceder nas pequenas coisas e acaba por perder todo o sentido da vida. O médico perguntou-lhe então que sentido da vida via ele na situação em que todos ali se encontravam, famintos, cobertos de porcaria até às orelhas, roídos de piolhos, comidos de percevejos, espicaçados de 
pulgas, Também eu não quereria que a minha mulher lá fosse, mas esse meu querer não serve de nada, ela disse que está 
disposta a ir, foi a sua decisão, sei que o meu orgulho de h
omem, isto a que chamamos orgulho de homem, se é que depois 
de tanta humilhação ainda conservamos algo que mereça tal 
nome, sei que vai sofrer, já está a sofrer, não o posso evit
ar, mas é provavelmente o único recurso, se queremos 
viver, Cada qual procede segundo a moral que tem, eu penso 
assim e não tenciono mudar de ideias, retorquiu agressivo o 
primeiro cego. Então a ra
pariga dos óculos escuros disse, Os outros não sabem quantas 
mulheres há aqui, portanto você poderá ficar com a sua para 
seu exclusivo gasto, que nós os alimentaremos, a si e a ela, 
sempre quero ver como se irá sentir de dignidade depois, 
omo lhe vai saber o pão que nós lhe trouxermos, A quest
ão não é essa, começou o primeiro cego a responder, a 
questão é, mas ficou com a frase no ar, na verdade não sa
bia qual era a questão, tudo quanto ele havia dito antes não 
passava de umas quantas opiniões avulsas, nada mais que 
opiniões, pertencentes a outro mundo, não a este, o que ele 
deveria, isso sim, era levantar as mãos ao céu e agradecer a 
sorte de poderem ficar-lhe, por assim dizer, as vergonhas em 
casa, em vez de ter de suportar o vexame de saber-se sus
tentado pelas mulheres dos outros."
É assim que, aos poucos, nossos personagens, guiados pelos instintos, entregam-se à sujeira, à hábitos grosseiros, à selvageria, levando o autor a tomar emprestado o zoomorfismo do naturalismo, demonstrando que os homens podem transformar-se em seres ainda mais selvagens que aqueles que chamamos animais (esquecendo-nos que também o somos) quando se trata de sua sobrevivência. Ao mesmo tempo, Saramago apresenta como as facilidades da nova era tornaram frágil e desamparado o "rei do mundo" quando lhe falta um dos sentidos.
A nossa única personagem que consegue livrar-se da cegueira, de repente, sente-se tão cega quanto os outros. Mas uma cega com olhos, que pode ver todas as atrocidades que acontecem em sua volta, fazendo-a desejar ser igual aos outros, estar na mesma situação de debilidade. E envolta numa cegueira psicológica muito maior que a dos que estão junto a ela, ela assassina o chefe dos "cegos malvados".

"Sim, matei-o eu, Porquê, Alguém teria de o fazer, e não havia mais ninguém, E agora, Agora estamos livres, eles sabem o que os espera se quiserem outra vez servir-se de nós, Vai haver luta, guerra, Os cegos estão sem pre em guerra, sempre estiveram em guerra, Tornarás a matar, Se tiver de ser. dessa cegueira já não me livrarei,"

Com esta passagem, o autor nos atenta para o fato de que o mundo sempre foi cego. De fato, os cegos, sentindo-se atacados, encontram a necessidade de defender-se. No entanto, o nosso mundo faz guerra quando pode resolver as coisas com o diálogo. A cegueira é ainda pior por possuirmos qualidade de vida e, consequentemente, capacidade de raciocínio. Afinal, é na necessidade do mundo do nosso livro que o raciocínio parece ficar bloqueado. Nossa personagem "assassina" considera-se ainda mais cega que os outros, por causa da atitude que tomou. É desta consciência que ela possui que o mundo carece. É através de alusões e metáforas à nossa realidade através de uma história aparentemente absurda que Saramago nos dá pautas de discussões e reflexões.
Um dos aspectos mais interessantes da obra só é perceptível quando o leitor se coloca no lugar dos personagens. A capacidade do autor de criar uma história a princípio fantástica e trazê-la para a realidade do ser humano, imaginando exatamente o que cada um faria nessas situações inesperadas e atrozes é impressionante. Ele nos leva a crer que não existe saída, que as decisões daquelas pessoas, das quais entramos na vida, é a mais correta diante do que elas estão vivenciando. A beleza de tudo isto é imaginar que os valores pregados no nosso mundo são completamente irrelevantes no que diz respeito ao que de fato é essencial na vida do homem. A única coisa ainda louvável diante desses destroços de irrealidade é a solidariedade, a generosidade e o carinho, ainda que seja amargo.
Outro aspecto importante da escrita deste autor sempre imprevisível é a constante aplicação de sua liberdade literária. Como pôde ser visto nos textos precedentes, os dois únicos artifícios de pontuação empregados são o ponto e a vírgula. Ainda assim, com a ausência de interrogações, exclamações, dentre outros, nós podemos compreender as entonações que nossos personagens enfatizam em cada fala, mostrando que a língua portuguesa não precisa ser tão complicada para ser compreendida.
Em todo caso, o objetivo do livro é também abrir nossos olhos para a nossa própria cegueira. A realidade atual fornece uma quantidade de informações imensurável. Com as publicidades na rua e na televisão e o advento da internet muitas coisas irrelevantes e descartáveis são atiradas através dos nossos sentidos no nosso cérebro e, se não sabemos filtrar o que recebemos do mundo, realmente acabamos por cegar. Ainda permito-me tentar inferir o motivo da brancura da cegueira de nossos personagens. Faço isso a partir da alusão às cores do arco-íris: a falta de cor nos leva ao preto, mas a mistura de todas as cores nos traz o branco. Essa cegueira, portanto, não vêm do fato de não conseguirmos enxergar, e sim de uma sobrecarga de visão, sem filtros, sem análise, sem entendimento. Assim, estamos cegos e alienados de tantas coisas importantes da vida, enquanto nossa atenção está voltada a futilidades passageiras e supérfluas.


Video-curiosidades:


Em 2008, foi realizada uma adaptação cinematográfica da obra, que deve sua excelência em transmitir a realidade do livro ao diretor brasileiro Fernando Meirelles. Estrelaram Julianne Moore, Mark Ruffalo e Alice Braga. Com um elenco de peso e um diretor de grande competência, tudo que nosso autor afirmou foi: "estar tão feliz de ter visto o filme como estava quando acabou de escrever o livro" e que "agora conhecia a cara de suas personagens".

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Madame Bovary", Gustave Flaubert


Em 1857, nasce uma obra-prima singular do Realismo francês. Escrito por Gustave Flaubert, "Madame Bovary" expressa a revolução na maneira de pensar do período. Polêmico e escandaloso no tempo em que foi lançado, levou seu autor a julgamento, momento em que ele utilizou a famosa frase “Emma Bovary c’est moi” (“Emma Bovary sou eu).
O início do livro nos apresenta Charles, M. Bovary, um homem pacato e de personalidade estável e passiva. Médico e casado, conhece nossa protagonista, Emma, quando vai tratar de uma doença pela qual pai dela havia sido afetado. Aos poucos, ele vai se apaixonando pela moça e, quando sua esposa morre por infortúnio, ele casa-se com Emma, que passa, então, a ser a nova madame Bovary. No entanto, um sentimento, que torna-se cada dia mais forte com o decorrer do casamento, toma conta de nossa "anti-heroína": a insatisfação. Sua vida e seu marido lhes parecem monótonos e muito distantes dos romances "românticos" que ela costumava ler em sua juventude. Ela desejava algo novo, uma paixão dilacerada e arrebatadora. E, em meio a este desespero trazido pela falta de alegria e dinâmica em sua vida, ela conhece Léon e Rodolpho. Pelo primeiro, um rapaz mais novo, ela apaixona-se e é retribuída, mas ambas ética e moral não lhe permitem dar o passo da traição.

"Léon não sabia, quando saía da casa dela desesperado, que Emma se levantava logo a seguir para o ver na rua. Preocupava-se com o que ele fazia, espiava-lhe o aspecto do rosto, inventou uma história complicada como pretexto para lhe visitar o quarto. [...]

 Mas, quanto mais emma tomava consciência do amor, mais o recalcava, para que não aparecesse e o fazer diminuir. Sentia o desejo de que Léon lhe adivinhasse o sentimento, e imaginava circunstâncias de acaso, catástrofes que pudessem contribuir para isso. O que a detinha era, sem dúvida, a inércia ou o receio, e também o pudor.  Imaginava que o tinha repelido demasiado, que já não havia oportunidade e que tudo estava perdido.  Também o orgulho, a satisfação de poder dizer: "sou virtuosa", e de olhar para o espelho assumindo  poses de resignação, a consolava um pouco pelo sacrifício que acreditava estar fazendo.
Então, os apetites da carne, as cobiças do dinheiro e as melancolias da paixão, tudo se confundia num mesmo sofrimento, e, em vez de procurar afastar daí o pensamento, ainda mais se prendia ao mesmo, excitando-se à dor e procurando para isso todas as ocasiões.  Irritava-se com um prato mal servido ou com uma porta entreaberta, lastimava-se pelo veludo que lhe faltava, pela felicidade que não tinha, por as suas aspirações  serem demasiado elevadas e por a casa ser acanhada de mais.
O que a exasperava é que Charles não dava a impressão de suspeitar do seu suplício. A convicção que ele tinha de a fazer feliz parecia-lhe um insulto imbecil e a segurança que revelava a esse respeito, ingratidão. Por causa de quem se comportava ela tão escrupulosamente? Não era ele o obstáculo a toda a felicidade, o motivo de toda a desgraça, como que o bico da fivela a travar aquela complexa correia que por todos os lados a amarrava?
Então voltou contra ele todo o ódio acumulado pelos seus aborrecimentos e cada esforço que fazia para o reduzir servia apenas para o aumentar, pois esse esforço inútil ia acrescentar-se aos outros motivos de desespero e contribuía ainda para maior afastamento. A sua própria docilidade lhe causava revolta. a mediocridade doméstica incitava-a a fantasias luxuosas; a ternura matrimonial, a desejos adúlteros.
 
Preferiria que Charles lhe batesse, para poder com mais justiça detestá-lo, vingar-se dele. Por vezes assustava-se com as atrozes conjecturas que lhe vinham à ideia; e era necessário continuar a sorrir, escutar as suas próprias repetições de que ele era feliz, fazer de conta que o era, dar a entender isso aos outros!
Enojava-se, entretanto, daquela hipocrisia. Tinha tentações de fugir com Léon para qualquer parte, muito longe, tentar um  destino novo; mas logo se lhe abria na alma um abismo de confusão, cheio de negrume. "Ainda por cima, não me ama", pensava ela; "Qual vai ser o meu futuro? Que ajuda posso esperar, que consolação, que alívio?"

Ainda apaixonada por Léon, Emma conhece Rodolpho que lhe impõe um amor predatório, completamente oposto ao sentimento fascinado que Charles possui por sua esposa. Assim, Rodolpho acaba levando-a ao adultério. Ou, a princípio, é a isso que somos levados a crer, tendo em vista que Emma, por já estar fragilizada e sendo deliberadamente seduzida pelo rapaz, não seria a grande culpada. Madame Bovary, então, tem sua primeira decepção quando decide fugir de seu marido com Rodolpho, levando sua pequena filha Berthe. Ele, porém, recua e lhe escreve uma carta acabando com tudo que havia entre eles. Essa é uma das artimanhas do autor para colocar abaixo os mitos românticos, onde o mocinho e a mocinha estão sempre dispostos a fazerem tudo para ficarem juntos. O romance na vida real não é nem um pouco lírico ou altruísta. Um amor assim, que não beire a monotonia do casamento de Charles e Emma é, acima de tudo, utópico. as nossa protagonista, uma mulher banal, adepta do idealismo romântico, prefere viver em confronto com a realidade, morando dentro de seus próprios sonhos ordinários.
Tempos depois, ela reencontra León e, desta vez, eles consumam sua paixão fulminante. Com o passar do tempo, Emma começa a perceber algo que antes não esperava: todo o fulgor que ela sentia por seu amante vai se desvanecendo e, mais uma vez, temos a confirmação da irrealidade do Romantismo.
No decorrer de tudo isso, madame Bovary vai se afundando em grandes dívidas e, sem ter como pagar, ela comete um suicídio, que é, na realidade, uma ironia: a morte por um motivo tão banal e ridículo.
Ao longo da obra, a denúncia de todas as extensões românticas vai se repetindo. Por exemplo, na cena demasiado conhecida dos leilões agrícolas, o diálogo amoroso entre Emma e Léon é constantemente atrapalhado pelos gritos do júri, que remetem às recompensas. Essa inclusão da trivialidade no drama romântico suscita em um efeito de ironia irresistível.
Madame Bovary pode ser vista como uma esposa entediada que torna-se adúltera ou como uma mulher que teve coragem de ultrapassar os obstáculos que seu tempo impunha à sua liberdade para buscar o direito de ser feliz. Na época em que veio ao conhecimento público, ao passo que foi motivo de grande polêmica, foi uma espécie de heroína para as mulheres que não tinham a coragem, nem o direito de lutar pelo que queriam.
Escrito em um período onde a burguesia estava no poder, o livro tem um aspecto irônico e busca retratar a realidade em razão de opor-se ao período romântico constava na literatura um pouco antes. Um dos personagens ilustra esse fato é o farmacêutico Homais. Ele é o típico burguês em busca de capital e prestígio, que renega qualquer tipo de enlace religioso e coloca-se como defensor da ciência. Por causa dessas ironias, a obra, por vezes, beira o cômico. Pode ser visto, de fato, como uma tragicomédia. Acontecimentos realmente trágicos são colocados de maneira tão ridícula e caricata que tornam-se cômicos. Da mesma maneira, certos momentos que poderiam vir a ser extremamente tristes e dolorosos, são visualizados de modo científico e medicinal: cenas de amputação e morte são retratadas de um âmbito criticamente biológico, apresentado todas as moléstias do momento, como o sangue que escorre, o vômito e as dores de maneira nada eufêmica. Assim, o que poderia vir a ter para nós um caráter de tristeza ou depressão, busca mostrar ao leitor o nojo humano, o aspecto decrépito do homem, o que,, de certa maneira, manifesta a pequenez e fragilidade de um ser que acredita-se mais importante que os outros, através da exposição da realidade crua.



O verdadeiro sentido do Realismo é expor a realidade passivamente, de maneira que o leitor seja capaz de tirar suas próprias conclusões dos acontecimentos, sem terceiras influências, como a do narrador. Por isso, sua narração possui um estilo de precisão documentário, que, até certo ponto, é seguido por Flaubert. Diversas vezes, porém, como já foi dito, ele se utiliza da sátira e da ironia, ambos métodos nada indiferentes, além do discurso indireto livre, que, por si só, induz o pensamento do leitor à concordância com o personagem.
Um fato interessante com relação a “Madame Bovary” que apenas o introduz ainda mais no movimento literário realista é que sua história foi inspirada numa notícia de jornal. Nossa “verdadeira” Emma chamava-se Delphine Delamare e era a esposa de um médico que, após entediar-se de seu casamento, deixa seu marido, antes de suicidar-se, para que também ele não faça o mesmo, tendo em vista que eles tem uma filha pequena para criar (que seria nossa ‘Berthe’).
A obra é recomendável não apenas por sua grande importância neste impressionante movimento literário, como também, em termos de estudo histórico e sociológico. O estilo de escrita do autor é impressionante e as ironias aparentemente despretensiosas, assim como as caricaturas exageradas em momentos inesperados  constroem uma leitura interessante e mesmo divertida, dependendo do gosto do leitor, pois, antes de captarmos o constante sarcasmo de Flaubert, podemos ficar horrorizados com algumas cenas. É, de qualquer modo, uma leitura imperdível.


Video-curiosidades:

Foram diversas as adaptações deste livro para o cinema e a televisão. Dentre as mais conhecidas estão:
Em 1933, Jean Renoir dirige o que seria o primeiro grande filme "Madame Bovary", com Max Dearly e Valentine Tessier.
Em 1949, chega a vez de Jennifer Jones, James Manson e Van Heflin estrelarem o filme de Vicente Minnelli.
Em 1975, uma minissérie é gravada com o mesmo tema, apresentando Francesca Annis, Tom Conti e Gabrielle Lloyd.
O diretor Claude Chabrou retoma a história em 1991, com Isabelle Huppert Jean-François Balmer e Christophe Malavoy encarnando os conhecidos personagens.
Finalmente, em 2000 Tim Fywell dirige um filme, cujos personagens são representados por Frances O'Connor, High Bonneville e Eile Atkins.

A figura de Emma Bovary, no entanto, é indissociável de todas as histórias de esposas adúlteras que surgiram posteriormente, como é o caso de Mrs. Robinson ("A primeira noite de um homem", 1967) e tantas outras que fizeram ou não tanto sucesso.